Autores independentes ganham visibilidade na Feira do Livro

Autores independentes ganham visibilidade na Feira do Livro

Com apoio da Associação Gaúcha de Escritores Independentes, obras que eram desconhecidas têm a chance de serem lidas

Amanda Krohn / Unisinos & Laura Fassina / Ufrgs

O projeto “Grão- imagens, palavras, eternidade” é um livro artístico coescrito por Iara Tonidandel, com o fotógrafo Guto Monteiro e organizado pelo publicitário Rubem Penz

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A Feira do Livro não é apenas um lugar essencial para disseminar e incentivar a leitura, mas também a arte de escrever. Com o total aproximado de 500 autores independentes, eles têm a oportunidade de serem vistos e lidos com o apoio da Associação Gaúcha de Escritores Independentes (AGEI). Durante o evento, a Praça da Alfândega se torna uma vitrine para diversos escritores, até então desconhecidos, exporem suas experiências e ideias e captar novos olhares.

O universo do literato autônomo é agitado e regrado. A produção vai muito além da construção de narrativas. A ilustração, a diagramação, o design, a divulgação e a entrega da obra na casa de cada consumidor, fica por conta do criador e do auxílio de amigos e familiares. O escritor torna-se um artesão, dono de todo o processo de produção.

Foi assim com a elaboração do romance infantojuvenil “Quebrados Perfeitos”, de Julia Fripp, estudante de cinema na UFPel. A jovem de 21 anos, de Capão do Leão, cruzou com as letras aos sete anos, escrevendo seus pensamentos em folhas avulsas. Um ano mais tarde, publicava sua primeira produção, “As aventuras do Livro”, na Feira do Livro de Pelotas. Esse evento a motivou a seguir em frente e buscar fazer a diferença, mesmo que seja com as palavras. Hoje, ela possui cinco livros publicados.

Julia Fripp escreveu o romance infantojuvenil “Quebrados Perfeitos” – Foto: Amanda Krohn / Unisinos & Laura Fassina / Ufrgs  / Especial / CP

A produção de sua quinta obra levou sete anos para ser finalizada. Muitos anos de pesquisa percorreram a vida de Julia. Buscou artistas para desenhar as páginas, diagramadores para organizar elementos e, por último, e não menos importante, teve a oportunidade de trabalhar com o designer Elifas Andreato para a ilustração da capa. O financiamento da família Fripp fez com que Julia pudesse se dedicar na construção do volume e já ter vendido 200 exemplares.

O livro, baseado nas inseguranças, na incerteza do futuro e nas pressões para escolher uma carreira na adolescência, foi entregue à mão de quem mora pelas redondezas de Pelotas. “A escolha por não ter uma editora agora foi por tentar expressar o sentimento dos personagens, a essência da história. Talvez essa editora não trouxesse os elementos que eu achasse necessário naquele momento. Eu acredito que as coisas se encaminham da forma que tem que ser. Minha decisão de fazer de forma artesanal, foi uma decisão de qualidade”, explica a autora, animada com a publicação.

Diferente de Julia, é a primeira produção de Iara Tonidandel. O projeto “Grão- imagens, palavras, eternidade” é um livro artístico coescrito com o fotógrafo Guto Monteiro e organizado pelo publicitário Rubem Penz. A ideia de uma narrativa poética, com poesias e imagens captadas por profissionais femininos e masculinos surgiu da fotógrafa, em 2019.


O projeto “Grão- imagens, palavras, eternidade” é um livro artístico coescrito por Iara Tonidandel, com o fotógrafo Guto Monteiro e organizado pelo publicitário Rubem Penz – Foto: Amanda Krohn / Unisinos & Laura Fassina / Ufrgs  / Especial / CP


No entanto, a pandemia chegou sem avisar e, dos 10 colaboradores, somente dois permaneceram. Iara e Monteiro resistiram. Com gramatura espessa e imagens coloridas, o material do volume era caro. Durante todo o ano passado, via on-line, Iara auxiliou na organização de todos os processos de formação da obra e na arrecadação para custeio. A pré-venda foi um sucesso, mais de 500 livros tinham sido vendidos no país e no exterior, enviados pelos Correios, além da entrega pessoal que caracteriza o escritor independente.

Formada em Pedagogia, com ênfase em Educação à Distância, aos 63 anos ela inicia uma nova graduação: Escrita Criativa na PUCRS. A nova escritora e fotógrafa não vê obstáculos, somente oportunidades. “Quando eu tenho um projeto, um objetivo, quando eu tenho certeza que ele vai dar certo, eu não desisto. Sou uma pessoa muito resiliente. Tenho essa habilidade de transpor toda e qualquer dificuldade”, afirma.

Embora com novos projetos futuros, Iara se compromete em estar presente para prestigiar a Capital . “A feira é um símbolo de Porto Alegre, ela nos representa. Participar é um grande privilégio. Estar neste ano, com um livro produzido em 2020 é uma referência de resistência, de perseverança e de paciência. De acreditar que tudo vai melhorar. Que o mundo vai voltar de alguma forma a entrar no eixo”, opina a autora.

A escritora Eny Cristina da Silva Souza é autora do livro “Onde a Infância se Escondeu?”, da antologia poética Ecos da Alma e coautora da antologia “Vem Poetizar O Mundo Comigo?”. Diferente de Iara e Julia, que tomaram a decisão por acreditarem que isso daria mais qualidade às obras, Eny escolheu ser escritora independente, porque, segundo ela, é muito difícil encontrar uma editora que acolha o novo escritor. Ela optou por divulgar na Feira do Livro para ter a oportunidade de estar próxima ao leitor e dialogar com ele. Além disso, no seu projeto “Vem Poetizar o Mundo Comigo?”, há poetas de Porto Alegre, então decidiu homenageá-los ali.

A escritora Eny Cristina da Silva Souza é autora do livro “Onde a Infância se Escondeu?” – Foto: Amanda Krohn / Unisinos & Laura Fassina / Ufrgs / Especial / CP

Dentre os obstáculos que um escritor independente passa, Eny destaca a credibilidade, o financeiro e a divulgação. “Se você encaminha sua obra para uma editora tradicional, ela demora muito para responder, não justifica a recusa e investe em escritores que já possuem um nome para a produção”, desabafa. “E as editoras que fazem a produção do seu livro, ou aquelas empresas que ajudam na diagramação, fazem a capa e outros itens, cobram um valor muito alto”, completa.

A autora afirma que demorou para fazer sua primeira publicação, pois precisava de coragem para enfrentar o “mundo das editoras”. Depois de realizar cotação entre editoras, gráficas e outros itens para divulgação, como camisetas e marcadores, ela mesma fez a arte de capa no Canva (software on-line e gratuito para edição de fotos e imagens). “Se formos pagar por tudo é muito difícil”, justifica.

Para a participação na Feira do Livro, Eny fez a inscrição na Associação Gaúcha de Escritores Independentes, que presta auxílio na divulgação. “Organizei minha viagem para chegar em Porto Alegre um dia antes da Feira começar para a entrega dos 25 livros. Destes, um fica com a Associação e dois com a Câmara. E 23 ficam para a venda com três responsáveis por ela”, informa. “Do total, 30% do valor da capa fica com a banca também”, complementa. Eny conta que, em breve, pretende fazer mais lançamentos. “Estou dedicando meu tempo em um romance histórico com foco no século XVIII”, revela.

A escritora Thaisa Toscano Taus, autora do livro “Responsabilidade por Danos Ambientais: Uma Comparação Entre Brasil e Alemanha - Legislação e Casos Concretos”, também considera a Feira como uma boa estratégia de divulgação. “Escolhi porque já vim nessa feira em 2017, sempre gostei de livros, e essa é a melhor feira da América Latina, tem muito sebo, muito livro usado”, explica a autora, que está vendendo o seu primeiro livro. Ela ainda acrescenta que, por serem muitos dias de feira, “muitas pessoas prestigiam, então é uma boa forma de divulgar o trabalho”.


A escritora Thaisa Toscano Taus, autora do livro “Responsabilidade por Danos Ambientais: Uma Comparação Entre Brasil e Alemanha - Legislação e Casos Concretos” – Foto: Amanda Krohn / Unisinos & Laura Fassina / Ufrgs / Especial / CP

Thaisa escreveu seu livro durante a pandemia da Covid-19, em quatro meses, e afirma que, para ela, publicar seu livro de forma independente saiu muito em conta. “Nunca somei, mas não saiu muito caro e acho que saiu mais barato do que se eu fizesse com uma editora”, diz. Ela estima que pagou menos de R$ 2 mil com a publicação. A escritora informa que, à medida que for fazendo mais pesquisas, pretende publicar outros livros.

Associação Gaúcha de Escritores Independentes Presta Auxílio aos Autores

A AGEI é uma entidade sem fins lucrativos que auxilia os escritores desde o manuscrito até o livro impresso, além de ajudar com indicação de editoras e gráficas. Segundo a vice-presidente da entidade e coordenadora da banca na Feira do Livro, Gislaine Boeira Camarata, a AGEI existe há 25 anos, e está presente na Feira há 20 anos. Para participar do evento através da associação, os escritores devem procurá-la em agosto e setembro para preencher a ficha de inscrição. De acordo com a vice-diretora, para receber o serviço de auxílio que a associação presta, não é necessário realizar nenhum tipo de filiação. “A partir do momento em que o autor independente chega, passa a ser convidado para eventos culturais para divulgar seu trabalho”, explica.

Gislaine informa que a AGEI segue divulgando todos os autores independentes que participam da banca e querem continuar expondo seus trabalhos. Ela ainda anuncia que, neste ano, a associação está recebendo os trabalhos dos pacientes dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) das Oficinas de bordado, dança, fotografia e culinária em Varal de Exposição. “Também estamos divulgando o trabalho do Geração POA”, completa. O Geração POA presta serviços de acolhimentos, oficinas de trabalho e geração de renda, grupos de trabalho, grupo de produção literária, assessoria a grupos de trabalho em saúde mental na comunidade, acompanhamento de projetos de capacitação profissional, atendimentos individuais, interconsulta, entre outros. Ambas as entidades são mantidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).


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