Engraxate devora livro de Juremir
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Engraxate devora livro de Juremir

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Todos os dias na Praça da Alfândega, a engraxate Vera Regina Pereira da Silva, 50, realiza a arte de lustrar sapatos. O trabalho começou logo após o falecimento do pai, João Estevão da Silva. Ele, que foi o primeiro engraxate, tinha 54 anos de praça, e deixou como legado à filha uma profissão e muitos clientes que logo foram conquistados pela simpatia da jovem senhora.
Com a Feira do Livro, a clientela de Vera diminui 50%, pois muitos não gostam do agito da praça nesta época. Em decorrência disso, ela tem mais tempo livre para exercer a sua segunda paixão: a leitura. Na tarde quente e ensolarada de primavera, “Jango: a vida e a morte no exílio”, do jornalista Juremir Machado, era a obra que preenchia o tempo e o imaginário de Vera.


Adoradora das biografias, ela diz que está gostando muito do livro e que ficou impressionada com os detalhes revelados. "Algumas partes do livro eu volto e leio de novo, pois não acredito que aconteceu mesmo", revela. Segundo ela, a paixão pela leitura começou ainda na infância, ao ver o pai chorando com o livro ”Meu pé de laranja lima", de autoria de José Mauro de Vasconcelos. Curiosa com a atitude do pai, começou a ler o romance para descobrir o motivo da emoção e desde então não parou mais.

Acho que ler é um vício como o cigarro, depois que começa, é difícil parar”, afirma. Os jornais também têm espaço no cotidiano de Vera. Ela lê os jornais da região, pois gosta de estar informada e de conversar sobre os fatos do dia com os clientes. "Eu assino jornal durante a semana, e fim de semana tenho que comprar porque fico angustiada de não saber o que está acontecendo", conta.

Vera ainda falou que costuma ler a coluna do Juremir no Correio do Povo. Por isso,  por isso, resolvemos promover um encontro entre ela e o colunista. Ao contarmos a história de Vera para Juremir, ele logo topou conversar com ela. Quando retornamos à Feira, Vera continuava sentada, dessa vez com os pés para cima, lendo o mesmo livro. Estava tão concentrada que nem notou nossa presença.

Enquanto Juremir vinha logo atrás, aproveitamos sua distração para contar a ela que tínhamos uma surpresa. Perguntamos se ela conhecia Juremir Machado pessoalmente. A resposta foi negativa. E quando ela viu o escritor se aproximar, seu rosto mudou de figura, em uma mistura de surpresa e felicidade. O encontro foi realmente emocionante. Ela distribuiu elogios ao colunista que ficou muito feliz por saber que sua última publicação está sendo bem aceita em todas as classes. Histórias como essas, nos fazem ter noção da importância que a leitura e que profissionais, como escritores e jornalistas, têm na vida de pessoas tão simples como Vera.

 

Texto: Carolina Lewis - Famecos/PUCRS


Fotos: Guilherme Testa - Famecos/PUCRS