Paulo Mendes: uma vida que daria um contagiante livro
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Paulo Mendes: uma vida que daria um contagiante livro

“Curiosidade é o que nos move”, tema desta edição da Feira do Livro, é também o que alimenta a busca criativa do autor da série literária Campereadas

Por
Correio do Povo

Paulo Mendes autografa livro "Campereadas: o bolicheiro nunca morre"

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*Lucas Tillwitz (2º semestre Ufrgs)

Quem passar pela Praça de Autógrafos às 18h30min deste sábado encontrará alguém singular, uma definição que ele provavelmente não aprovaria. Ao me receber no Correio do Povo, onde trabalha desde 1990, Paulo Mendes logo revela-se um tímido ao contar sobre o reconhecimento do público, oriundo principalmente de suas campereadas pelo mundo das letras jornalísticas e literárias. Campereada, aliás, é o nome da coluna que assina desde 2009 e cuja existência lhe proporcionou o sabor da autoria e um mérito que ainda hoje, dez anos depois, lhe parece estranho. Foi também em 2019 que o autor lançou a terceira coletânea da série Campereadas, que reúne os melhores textos de sua coluna.

A escuta do homem de fala ligeira e de expressivo gestual revela uma paixão pela literatura quase equivalente ao amor que nutre pela sua terra e sua gente. Mirando o vazio entre o seu olhar e as paredes que nos cercam, Paulo Mendes parece remontar uma história que, devido às suas circunstâncias fantásticas, renderia um ótimo livro. Porém, ainda que épica, a trajetória do guri nascido em Cacequi e criado em Júlio de Castilhos é comum à gente do campo, que aprende a lutar no momento da primeira respiração.

Inícios

“O Rio Grande do Sul tem muita gente como eu, que tem história no campo. E ainda que eu passe mais tempo na cidade, o campo não sai de mim.” O lar e o bolicho dos Mendes ficavam na localidade de Cerrito, no interior castilhense, próximos de antiga via que conectava Júlio de Castilhos e Tupanciretã. Atualmente asfaltada pela modernidade, a então estrada de chão foi também passagem das tropas gaudérias e sua legião de animais. Um dia antes da passagem dos tropeiros, conta Mendes, um peão aparecia avisando sobre a indiada. “Se não desse para avisar, alguém vinha à frente do bando, gritando ‘vem a tropa, vem a tropa!’. Fechávamos tudo e ficávamos na janela olhando.”

Os tropeiros são personagens presentes em muitas das histórias do escritor. Entretanto, a figura mais constante é o bolicheiro, um narrador menino entre 10 e 12 anos. É a partir do olhar do guri onipresente, diz Paulo, que os causos são transmitidos. Foi também aos 12 que a literatura se revelou para Mendes. “O primeiro livro que li foi ‘Trópico de Capricórnio’, de Henry Miller. Foi forte, impactante.” Foi com a leitura de “Contos Gauchescos e Lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto, contudo, que o jornalista compreendeu que as coisas nossas poderiam ser literárias. “Eu achava que só as (produções) estrangeiras podiam fazer romance. Daí vi que isso era bobagem, tanto que o cara fez!”

Mas Mendes não ficou pequeno para sempre. Saiu da terra-mãe aos 18, decidido a conquistar a cidade e a viver das suas lembranças. O ingresso no curso de Comunicação Social da UFSM, em 1982, permitiu que se tornasse “cupincha” de tipos como Gabriel García Márquez e Júlio Cortázar. Em 1989, iniciou o mestrado em Letras da Ufrgs, na Capital, quando pôde colocar em prática o escrever profissional. “Eu pensava: ‘preciso contar essas coisas todas que vi. Para contar, preciso ser jornalista’. Só que eu fui fazer jornalismo e não rolou. Foi quando vim fazer o mestrado que comecei a me dedicar à escrita, já que ganhava uma bolsa e só estudava. Iniciei escrevendo coisas parecidas à coluna. Depois fiz um livrinho, chamado ‘A Tarca da Saudade’. A Tarca foi um embrião da Campereada.”

Anos depois, no Correio do Povo, se aventurou a escrever sobre o colega Roberto Tavares. A história foi muito bem recebida, rendendo um desafio de sua editora. Nascia a coluna Campereada, com o conto “O Último Mate”. “O pessoal (da redação) ficou impressionadíssimo com a linguagem regional, com a valorização do RS. ‘Semana que vem tem que ter de novo!’, disseram.” É assim há 10 anos.

José, o gaúcho

“O meu gaúcho nunca é o fanfarrão, o valentão. Todos os gaúchos que conheci foram pessoas trabalhadoras, honestas. Talvez rudes, mas muito carinhosas. Gosto de retratar também quem vivia de pequenos trabalhos, os xangueiros. Gente humilde, das fazendas, das granjas. Têm também aqueles que gostam de um churrasco, de um pinhãozinho, de tomar um chimarrãozinho. Essa é a gente que eu mostro.” Dos diversos gaúchos da vida do autor, o mais importante foi José Mendes Sobrinho, seu pai adotivo.

Quando fala do pai, a voz de Paulo suaviza, em contraste com a vida sofrida do patriarca. José Mendes não pôde estudar, pois iniciou a lida no campo aos 14 anos em decorrência da morte de seu pai, que deixou saudade e uma numerosa família. O “Sobrinho” é herança do tio, que não pode ser confundido com o aclamado cantor e ator oriundo de Lagoa Vermelha. Os Mendes de Paulo nada tinham de famosos. “Eu me inspiro muito no meu pai adotivo. Fazia tudo que é tipo de trabalho. Comprou uma chacrinha, gostava de ter seu cavalinho para andar. Era humilde, um pequeno trabalhador. Esse foi o cara.”

O homem, que devido à baixa instrução desenhava a própria assinatura, vendeu seus burrinhos para comprar enciclopédias para o filho que teimava sonhar. Também filho adotivo de Almerinda Caetano da Silva Mendes, a quem dedica o mais recente livro, Paulo conheceu seu outro pai apenas em 2007, a pedido da mãe biológica, Anália Prietto da Cunha, em seu leito de morte. “Eu tive duas mães e dois pais. Meu pai biológico, Donaldson Garschagen, foi um intelectual. Foi diretor da Barsa. Fui procurá-lo quando minha mãe biológica me pediu para que fosse conhecê-lo. Eu fui e foi muito bacana. Completou um ciclo que me perturbava.”

José e Almerinda Mendes: pais e fontes de inspiração. Foto: Andressa Miranda/Especial CP

“Não, vamos falar mais um pouco”

A coluna e os livros são o testemunho das várias vidas que cruzaram o olhar de Mendes. Do apego às histórias à dor de escolhê-las. “É muito difícil (selecionar), é bem dolorido. É como abandonar um filho na estrada. Mas tu tens que fazer. As melhores histórias são as que poderão ser lidas para sempre.”

Se pudesse realizar qualquer desejo, camperear por um caminho desconhecido, Paulo escolheria um ainda maior reconhecimento de suas histórias. “Elas já ganharam prêmios, já foram lá no Theatro São Pedro, às grandes cidades do estado. Eu nem gosto nem preciso de fama. Acho bem ruim essa tal de fama. Agora, eu aprecio e valorizo o reconhecimento. E nem falo para mim, falo para elas. É isso, eu gostaria de camperear um reconhecimento ainda maior.”