Por onde estarão as Clarices e as Cecílias?
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Por onde estarão as Clarices e as Cecílias?

Muitas mulheres almejam serem escritoras, mas enfrentam preconceitos durante o processo de escrita, publicação e venda de livros

Por
Correio do Povo

Apenas 196 dos 516 livros autografados na Feira do Livro foram escritos inteiramente por mulheres

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*Carolina Pastl e Mariana Barcellos (6º semestre Ufrgs)

Quando se pensa em escritoras brasileiras, quem vem à mente são Clarice Lispector, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles e Adélia Prado. Só que elas são exceção.

De acordo com a pesquisa Ibope Retratos da Leitura no Brasil de 2016, 59% da população feminina é leitora. Porém, mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens, conforme levantamento desenvolvido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília.

Os hábitos de leitura são semelhantes. O estudo da Alpaca Editora aponta que os brasileiros que leem mais de dez livros por ano, consomem entre um e dois livros escritos por mulheres.

Essa falta de representatividade das mulheres na literatura acaba apagando sua presença, de acordo com a jornalista e escritora Priscila Pasko. “Quando se apaga, o trabalho não é válido, logo, não existe. Por isso, precisamos ocupar espaços de editoras, academias, premiações”, defende.

E na Feira do Livro?

Dentre os livros autografados na Feira do Livro deste ano, apenas 196 de 516 foram escritos inteiramente por mulheres. Destes, 35% são literatura infantil.

Para a organizadora do grupo Leia Mulheres Porto Alegre, Clarissa Xavier, “quando pensamos em literatura universal, vem a ideia de uma literatura escrita por homens. E, quando se fala em literatura feminina, se pensa nos romances açucarados”.

Apesar disso, a presença feminina foi expressiva a partir de 2015. Marô Barbieri foi escolhida patrona neste ano, sendo a quarta mulher selecionada para o cargo sem intervalo. Para Pasko, há cada vez mais publicações e incentivos. “É importante pensar na mulher ocupando o papel de escritora, mas também de editora."

A editora e revisora da Metamorfose, Maiara Alvarez, explica que, apesar de receberem mais textos de mulheres do que de homens, essas muitas vezes não conseguem publicar: “Porque não têm tempo devido ao trabalho, aos afazeres domésticos e à falta de recursos financeiros para revisão, edição e publicação de seus textos." Pasko concorda: “O ato de uma mulher escrever, por si só, já é bastante audacioso. Não há uma regra clara nos proibindo, mas há impedimentos indiretos”.

Buscando valorizar a presença feminina na literatura, a Feira realizou 11 eventos que incentivaram o empoderamento, desde workshops de empreendedorismo para escritoras até debates sobre a maternidade. A coordenadora-executiva do evento, Jussara Rodrigues, explica essa tendência: “Esta visibilidade é um reflexo do mercado editorial e daquilo que a mulher está escrevendo”.

Além desses movimentos, a escritora Maurem Kayna acredita que essa mudança de paradigma pode vir de um ato ainda mais simples. “As pessoas precisam refletir sobre o seu cardápio de leitura. Perceber o quanto há uma participação desproporcional de homens e mulheres na sua formação como leitores. Porque a oferta não é equilibrada”, explica.

Redescobrindo escritoras

A 65ª Feira do Livro de Porto Alegre foi escolhida para o lançamento do terceiro volume da Coleção Escritoras do Brasil, lançada pelo Senado Federal. A coletânea engloba publicações que resgatam a memória e o trabalho de autoras que não tiveram reconhecimento por sua produção intelectual em sua época. “Sentimos dificuldade em localizar obras de mulheres escritoras do século XIX e início do século XX. A ideia de criar essa coleção foi justamente para dar voz a essas mulheres, para que elas sejam conhecidas, estudadas, debatidas em escolas e em universidades”, explicou a coordenadora da Biblioteca do Senado Federal, Patrícia Coelho.

A homenageada da vez foi Nísia Floresta, a primeira feminista a combater com as palavras as injustiças de gênero no Brasil. Nascida no Rio Grande do Norte, escreveu a obra “Opúsculo Humanitário”, em 1853. “Numa época em que as mulheres de sua classe viviam para o lar, Nísia participava do debate público, defendendo sua posição de abolicionista, indigenista, feminista, educadora e republicana”, esclareceu a professora, tradutora e historiadora Hilda Flores.

Dados da 65ª Feira do Livro. Arte: Carolina Pastl