A máscara roxa

A máscara roxa

O pedido de socorro de uma mulher vítima de violência é como o pequeno bote decidido a enfrentar um oceano em tempestade. Ondas gigantes, e tão violentas quanto a mão do agressor, entram em ação com o objetivo de fazer com que nada dê certo. Preconceito, medo, incerteza sobre o amanhã. É uma decisão de coragem extrema.

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Lá nos 1980, a música “Camila, Camila”, da banda Nenhum de Nós, me emocionava. Eu era adolescente e descobria esse mundo insano de violências, agressões, vícios e relações doentias. A gente percebe que tudo acontece mais perto do que se imagina, com uma frequência absurda. E qualquer tentativa de se fazer algo esbarra em muitas barreiras de proteção que esse tipo de crime atrai. O silêncio, a vergonha no espelho, como diz a música. A cultura que asfixia de medo e desonra. Até de incredulidade. A falta de amparo. A incerteza sobre quando, onde e como pedir ajuda. É bom falarmos sobre isto. Quase todos nós já vivenciamos, senão dentro de nossa própria casa, muito perto, com amigos próximos ou parentes essa questão da violência doméstica. Dessa rotina que se repete no noticiário policial, agressão contra mulheres. Vítimas que não têm chance nenhuma, nem ao menos de reagir. Muitas, mortas de forma brutal e covarde, por ciúme ou prazer doentio. Como a menina de apenas 12 anos de Santana da Boa Vista. Ou Gabriele, de Araricá, morta com um tiro na cabeça, pelo ciúme do namorado.

Foi por isto que todos nós, que lidamos com a proteção à vida, e que lutamos por dias com mais paz e respeito ao próximo em nossa sociedade, vibramos com a campanha Máscara Roxa. Ao som de Camila, Camila! Perfeito. Que ela se espalhe pelo Rio Grande do Sul inteiro e vá além, ultrapasse fronteiras, semeie apoio e esperança por todos os lados. Nesses dias de Pandemia, em todas as partes do mundo o índice de violência contra a mulher aumentou, principalmente no ambiente doméstico. Mas fazer uma análise desse fenômeno não é tão simples quanto pode parecer. Envolve uma diversidade imensa de culturas, nem sempre convergentes, envolve tabus. Mas é um fato global. Tanto quanto saber que essas mulheres precisam de ajuda. E só o fato de poder chegar numa farmácia e, mesmo sem falar muito, sem se expor, saber que há uma mão sendo estendida naquele instante, já é um grande alento.

Mas que se tenha cuidado, muito cuidado, e responsabilidade. Lidar com a proteção de uma vida, lidar com segredos profundos da intimidade de alguém, lidar com medos monstruosos enraizados na alma, não é uma tarefa fácil nem para quem está acostumado com a tragédia humana todos os dias. Que essa responsabilidade seja levada muito a sério por todos os que vierem a participar do programa. O pedido de socorro de uma mulher vítima de violência é como o pequeno bote decidido a enfrentar um oceano em tempestade. Ondas gigantes, e tão violentas quanto a mão do agressor, entram em ação com o objetivo de fazer com que nada dê certo. Preconceito, medo, incerteza sobre o amanhã. É uma decisão de coragem extrema. Das duas partes. Que só seriedade, respeito e vontade levarão de volta à luz do sol.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895