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Alice não teve chance

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“Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a”. A frase é de Goethe, mas sua verdade é um beliscão no sonolento descaso de cada um de nós. Que um dia já fomos filhos. E fomos, somos ou seremos pais. Independente da época ou do lugar. É uma frase para os que não sabem amar. Para os que não entendem o que é proteger, e o quanto amar exige isto, proteção. Preocupação. Piedade, que seja, num último esforço de tentar ser o mais humano possível. A lição é dura e essencial, ainda que pareça óbvia. Que as notícias da violência cotidiana assombram, mas convivem conosco no perigoso costume que cola o medo em nossas vidas feito chiclete na sola do sapato. Sabemos que incomoda, que não era para ser assim, mas seguimos adiante porque é preciso, porque se tem pressa. E a pressa é inimiga da humanização.

Para alguns, só outra tragédia banal. Porém, é o detalhe que dá um golpe implacável nas esperanças e convicções de qualquer alma um pouco mais atenta, e interessada, ao que acontece ao nosso redor. Duas execuções de casais em Porto Alegre domingo passado. Numa delas, após o tiroteio que alguém da vizinhança achou ser foguetório por alguma comemoração, uma centena de cartuchos de armas potentes, como calibres 556, de fuzil de guerra, e 9mm. Só isso já impressionava pelo selvagem tom de caos. Mas, entre os mortos, a pequena Alice. Apenas um aninho recém comemorados - ela vinha da sua festinha de aniversário, a primeira e a última de sua brevíssima vida. Que tipo de monstro consegue ter tamanho sangue-frio e ódio para apertar o gatilho e fuzilar impiedosamente um bebê, uma menininha de apenas 1 ano que nem pode se defender, fugir, pedir ajuda, nada?

Que seus pais talvez tenham trajetória de envolvimento com crimes. Que um deles, ou ambos, tenham se envolvido numa disputa do submundo. Drogas, armas, crimes cometidos, desacertos, vinganças ou traições, mas Alice não tinha culpa de nada disso. Alice nem falava ainda. Ela nem se dera conta do mundo bizarro e cinzento em torno dela. Ela era filha da violência e nem sabia, então pelo menos ainda tinha o direito de tentar escolher outro rumo. Era o que batalharíamos para ela. E talvez falhássemos. Talvez não. Mas Alice nem teve chance. Foi fuzilada pelo ódio simples, exato, brutal, desmedido e bem armado que desprezou sua existência. Alice foi assassinada pela crueldade dos bandidos, sim, mas também pela falência e omissão de uma sociedade que já se perdeu de si mesma e vai adiante sem saber para onde, feito uma barata tonta, raivosa e apressada. O Brasil permite que quase dez mil crianças e adolescentes sejam assassinados por ano. Triste quadro. E domingo, em Porto Alegre, a menina Alice não teve sequer a chance de ser inocente.