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Crime ignora idade e parentesco

Mulher de 71 anos é presa suspeita de aliciar a própria neta em Canoas

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Pedimos mais uma rodada de chopes. Tem coisas que são difíceis de ingerir. Quer dizer, pelo menos pra eles, que não são policiais.

- A própia neta?

- Setenta anos?

- Setenta e um.

- Cruzes!

Eles debatem a notícia divulgada no aplicativo do Correio do Povo. Mulher de 71 anos suspeita de aliciar a própria neta. Estupros consetidos pela avó em troca de rancho, reformas, etc. Querem minha opinião. Tem horas que é uma m. ser policial, uma delas é o happy hour. Se forem colegas de trabalho, o papo é só histórias de ocorrências. Se forem civis, é aquela rajada de perguntas, como se você fosse um animal de zoológico.

Nenhum dos meus amigos era policial.

Fiz cara de paisagem. Queria mudar de assunto. Foi pior.

- Sabe de nada, inoceeente! - coisa chata é ter amigo que se acha o mais plugado nas mídias da hora - Vocês policiais devem ver coisas bizarras, não é?

- Aham.

- Verdade.

- Pior. Conta aí?

Eu quieto, olhando todos e olhando nada. Queriam saber sobre idosos que cometem crimes. Cadeirantes. Bebês. Mulheres. Figurões. Queriam saber tudo. Mandei procurar no Google.

- Vocês vão achar idosos assassinos, abusadores, traficantes, etc. Aqui ou em qualquer lugar do mundo. E se pesquisarem sobre aliciamento e abuso de crianças ou adolescentes, vão descobrir que a maior parte acontece dentro da família. E nos círculos de amizade.

Mania minha, discursar quando a paciência acaba. Decidi cair fora. Pedi a conta do meu chope e anunciei que precisava ir embora, dever me chama, essas coisas. Responderam com gestos consternados, tipo mães que dão adeus aos seus filhos que embarcam para o Vietnã. Eu me senti um cretino. 

Como ia beber, não fui de carro. Mal bebi, no fim das contas: dois canecos. Fiquei no balcão pensando se era melhor pagar no crédito ou no débito, se era mais seguro ir embora de táxi, uber, ônibus ou na pernada mesmo.

Na dúvida, pedi mais um chope.

Tem horas que é uma m. ser policial.