Desamor e descontrole

Desamor e descontrole

Oscar Bessi

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Cidreira é um dos balneários mais antigos do Rio Grande do Sul. E já foi o mais procurado, até pela proximidade da Capital. Os tempos mudaram, outras praias talvez tenham recebido mais investimentos em infraestrutura. Nada que altere suas  belezas naturais, como lagos e dunas, ou construídas pelo homem, como o farol centenário. Este ano, porém, o clima por lá começou estranho. Justo quando sentimentos de comunhão, respeito e humanidade deveriam estar mais presentes. Depois de tudo o que passamos em 2020, a realidade vem e nos assusta com a sua face mais bizarra.
Em plena pandemia, com as mortes voltando a crescer no país, com profissionais da área da Saúde apelando com todas as forças para que todos tomem cuidado e se evitem aglomerações, pois os hospitais estão com pouca capacidade de atendimento, um imenso grupo decide dar de ombros e promover badernas ao ar livre. Aglomerados. Nem aí para o novo coronavírus. Acham, talvez, que são os donos do mundo. Depois estarão lá, nas filas dos hospitais, implorando atendimento ao lado daqueles que lhes imploraram para que não cometessem tais insanidades. E, ao se achar no direito de não respeitar nada nem ninguém, ainda agridem os policiais militares que foram chamados pela população, já que a consciência não compareceu na festa. Lamentável. E ainda há quem se assuste com o que aconteceu no Congresso dos EUA.
Agora, a notícia que embrulhou o estômago de muitos foi sobre as duas crianças, encontradas pela Brigada Militar, amarradas em cadeiras de praia. Quem fez isto? As próprias mães. Os banhistas, entre atônitos e indignados, pediram providências aos policiais militares contra quem deixou as crianças, de 7 e 8 anos, por uma hora sob o sol, com a desculpa de que precisavam “tomar banho de mar” ou “fazer compras”. O Conselho Tutelar foi acionado. As mães foram liberadas após o registro da ocorrência de maus-tratos. Tomara que a rede de proteção à criança e ao adolescente e as entidades humanitárias que lutam contra a violência sigam atentas a este caso, acompanhando todos os desdobramentos daqui para frente. Cidreira costuma oferecer um belíssimo pôr do sol aos veranistas. Neste início de ano, oferece também a oportunidade de refletir. O que nos passam, estes dois casos? Estamos fora de controle, no comportamento individual ou coletivo? Andamos tão doentes assim? Talvez o vírus mais mortal que nos assole ainda seja o do desamor. 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895