E o nosso papel?

E o nosso papel?

Oscar Bessi

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A notícia da execução brutal da jovem Cristiane, em Porto Alegre, num assalto, chocou a todos nós. Choramos junto com sua família, lamentamos a selvageria inexplicável de quem é capaz de ceifar uma vida por causa de um celular, um mísero objeto, e fazer isto apenas por fazer, sem qualquer remorso ou justificativa. Refletimos sobre o quanto nos tornamos vulneráveis, qualquer um de nós, ao sermos possíveis alvos de doidos sanguinários apenas pelo fato de carregar consigo um bem qualquer, por menor que seja, que desperte a cobiça de bandidos. Sentimos profundamente pela interrupção dos sonhos de uma menina de apenas 20 anos, cheia de possibilidades e vontade, que vivia para trabalhar, estudar e cuidar de sua mãe. Desejamos punição rigorosa para estes assassinos covardes, lamentamos essa cultura de impunidade, apreensão e violência que cerca a história do nosso país. Mas quantos de nós, depois de sentir e pensar sobre tudo isso, horas depois já não estava colaborando com o crime, mesmo sem se dar conta?
A polícia está fazendo a sua parte e age rápido na identificação desse grupo de bandidos impiedosos. E os comentários mais comuns nas redes sociais reclamam “de que adianta a Polícia prender, se a Justiça solta?”. Verdade que temos um emaranhado de leis que garantem mil voltas de impunidade para todo tipo de crime neste país. Mas os legisladores, os sujeitos que escrevem estas leis, nós é que os escolhemos a cada quatro anos. A Polícia e o Judiciário fazem cumprir o que está escrito. Mas não é sobre isso que pretendo falar. É sobre pudor, consumismo e a falsa esperteza que nos torna parte dessa cadeia alimentar do crime. Do quanto, sem nos darmos conta, estimulamos que assaltos assim aconteçam. Porque bandido não coleciona celular. Ele quer dinheiro, ou dinheiro que vire droga. Por que, então, nos roubam celulares?
Um smartphone dos mais simples, mas com os recursos da moda, custa mais que um salário mínimo. Num país cada vez mais em crise, com alta de preços, como temos tantos celulares modernos com tanta gente, até mesmo adolescentes sem trabalho? É a mesma história do carro que já falamos aqui. As empresas que lucram com a fabricação desses telefones só querem saber de lançar novas modas e vender. Criar o desejo de ter como uma reação em cadeia. Azar se não houver segurança. Eles te oferecem antivírus e olhe lá. Tornar o aparelho impossível de ser repassado para outrem? Não peçam isto. Então o mercado paralelo vem com força. Com celulares carregados de sangue e dor, mas mais baratos. Que o original está muito caro, mas se quer ter, tá na moda. Dá pra pagar um em estado de novo no paralelo. E o esperto, feliz, vai e compra. Por R$ 200,00 o que custaria R$ 2 mil. E chora pela vítima da violência na TV. 

 


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