capa

Flores, feridas e predadores

Por

publicidade



Lembro os dias de Finados, na minha infância, como o de longas visitas à "lomba do cemitério", em Porto Alegre. Minha mãe parava em frente a uma sepultura simples, que eu achava imensa, e chorava, enquanto acariciava a foto de seu pai como se fosse de fato o rosto dele. Todo ano era sagrado visitarmos a sepultura do meu avô, Antônio Tavares de Azevedo Filho, um pelotense campeão de boxe, luta livre, Xavante e colorado por paixão. Trocar flores, limpar, chorar mais um tanto. Ela amava aquele lugar que eu, criança, achava misterioso.

O cemitério e o bairro Azenha eram palcos de sua infância, pois o vô tinha oficina de mármores e granitos por ali entre os anos 40 e 60 e, minha bisavó, era florista. Finados não era só saudade, mas um desfile de reminiscências e sensações que voltavam e que eu, embora ainda muito pequeno, respeitava em silêncio. A intensidade dela me envolvia. Ela sentia falta daqueles dias de afetos extremos, quesito em que meu pai, digamos, não era muito bom.

Então eu sempre pensava, no caminho de volta, que não tinha sentido tudo que é bom, pra gente, ir embora. Mas ia. Sempre ia. As pessoas boas também morriam, igual às más. Não me parecia justo. Eu sonhava, então, em fazer alguma mágica e trazer o mundo de minha mãe de volta. Até que cresci e perdi a magia de sonhar.

Confesso que não me agrada, o dia de finados. Que não me agrada visitar cemitérios. E nem tenho uma boa explicação para isto.

Sempre fui por obrigação quase burocrática a cemitérios. Uma vez, apenas, fui conversar com meu pai em sua sepultura, e lá abri um vinho. Servi um cálice à sua presença imaginária e outro pra mim. Anoitecia. Não pensei em fantasmas nem bandidos. Falamos, ou falei, sobre coisas que deveríamos ter conversado enquanto ele estava vivo. Mas nunca conseguimos, nunca vencemos a distância. Depois disso, e de outros pormenores, procurei um psiquiatra. Hoje já estou bem (eu acho).

Carrego uma pergunta comigo desde criança, ao ver minha mãe chorar e, em casa, assistir o noticiário. A morte inquieta a humanidade. E a aflige. A morte dói e faz sofrer. Entretanto, toda essa angústia em tentar explicar e, muitas vezes, até driblar a única certeza que temos, não basta para que nos tornemos criaturas melhores. O homem segue sendo seu pior predador. O ser humano gosta de matar seu semelhante sem qualquer motivo, mesmo sabendo quantas lágrimas, quanta dor, quanta ferida se espalha. Por quê?

A Segunda Guerra Mundial matou mais de setenta milhões de seres humanos em nome de uma sandice. E a Primeira Grande Guerra. A Revolução Russa, as revoluções chinesas, o Congo. Nossas disputas políticas daqui. O extermínio de povos nativos inteiros por europeus, em nome da fé e da corrida pelo ouro.

As mortes que nascem de nosso comportamento doentio cotidiano. Em uma década, quase um milhão de brasileiros parte por conta de armas de fogo ou acidentes de trânsito. E eu falei só sobre esses dois tipos de violência. Quantas crianças matamos? Quantos são assassinados indiretamente pela omissão, pela corrupção, pela fraude, pela bandidagem camuflada de grandes cidadãos?

Saudade é saudável, sim. Mas refletir também. Não gosto de ir a cemitérios, nos dias de Finados, porém gosto de pensar em quem partiu. Quantos, por que motivos, como seria se tudo fosse diferente. E como seria mais duradoura e segura a vida se a nossa racionalidade não fosse tão feroz.