O crime não fica em quarentena

O crime não fica em quarentena

Não há pandemia para bandido

Oscar Bessi

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Final de ano é sempre tenso para os profissionais da segurança pública. O comércio se agita, a economia, as movimentações financeiras aumentam, os bens de consumo entram em voga ainda mais do que costumeiramente. Os criminosos recebem indultos natalinos e vão às ruas. Os assaltos e ataques aumentam por todos os lados. E, em contrapartida, além da escala de serviço que aperta pela necessidade de enfrentar isto tudo, há muitos anos os policiais não sabem nem se receberão seu salário, quanto mais se haverá décimo-terceiro e a chance de ter um Natal minimamente decente com a família. Os que estão no front, e só os que estão no front, sabem muito bem do que estou falando. Só dor de cabeça, correria, risco e sem a certeza sequer de poder assumir a prestação de uma bicicleta para o filho. Um parceiro de décadas costumava me dizer que nem lembra o que é esperar dezembro com gosto. Fez isto quando era guri. Nunca mais.

O ataque cinematográfico ocorrido em Criciúma (SC), parecendo uma ação terrorista, foi o anúncio do que teremos para dezembro deste ano terrível. E a Polícia gaúcha, eficiente e incansável como sempre, já tratou de capturar com uma rapidez incrível, participantes do assalto que inventaram de correr para cá. Mas fica a dica: os caciques do crime estão atentos e não ficaram dormindo na quarentena. Não há pandemia para bandido. Se houver, é por conta da crise financeira que ameaça a tudo e a todos, então podemos esperar muitos ataques, em todos os níveis. Que eles vão correr atrás de dinheiro. O crime nunca quer parar de lucrar e a violência é a sua melhor moeda de troca. O assalto de Criciúma deixou claro que eles podem investir no aparato e têm tempo para planejar os ataques, além de conseguirem pessoas que lhes fornecem informações privilegiadas. Um dia depois, o terror foi semelhante na cidade de Cametá (PA), com ataque a banco, reféns e, infelizmente, uma morte.

Para enfrentar isso, em tempos onde a pandemia ameaça recrudescer graças à leviandade de uns e o desrespeito de outros, além de cada cidadão fazer a sua parte e tomar muitos cuidados consigo, também os governos precisarão usar inteligência. E não só inteligência policial, mas sapiência gestora. Serão dias duros. Será preciso proteger a população. E, muito, os profissionais de segurança, com motivação e apoio ao seu trabalho. Com garantias de que vale muito enfrentar esse caos com altíssimo risco de morrer, pois são valorizados. O medo é a pior ameaça à cidadania. Para enfrentar o medo, só convicção e bons exemplos. Só se anula a violência com muita paz. Mas o crime não tem quarentena. Os policiais não têm quarentena. Tomara que o respeito aos profissionais de segurança pública também não.


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895