Os mentecaptos do ‘fiu-fiu’

Os mentecaptos do ‘fiu-fiu’

Oscar Bessi

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Esta semana veio à tona mais um caso de abuso contra uma mulher esportista, na rua. Foi em Maringá (PR). Câmeras de segurança flagraram o momento em que um mentecapto, de moto, passa a mão no corpo de uma corredora. Só ficamos sabendo porque foi filmado. Na verdade, só demos importância quando é filmado e podemos ver. Assim como no caso da ciclista de Palmas (TO), derrubada por um rapaz destituído de cérebro que passou de carro e resolveu passar a mão no seu corpo. E isso acontece todos os dias, milhares de vezes, nem sempre flagrado por câmeras de segurança. Como gosto de correr, perguntei para diversas amigas sobre esses inconvenientes. Algumas não correm sozinhas, cansadas de ouvir asneiras. Interessante é que nenhum desses molestadores são atletas como essas mulheres. Não fazem parte do grupo que também corre ou pedala. São, em geral, segundo elas me disseram, gente com cara de quem não tem fôlego nem para subir uma escada, mas sabem beber e falar bobagem. São bons em agredir. Mas agredir mulheres sozinhas na rua.

Não é privilégio nosso ter que conviver com a estupidez. Eu lembro de uma matéria na TV Record onde uma atriz gravou sua saga pelas ruas de Nova Yorque. Dez horas circulando pela maior cidade do mundo, vestindo uma roupa que apenas moldava o seu corpo, não tinha nada de sexy. Não mostrava pernas, peitos, nada. Mesmo assim, registrou mais de cem assédios de homens neste curto período. Há um tempo atrás, uma ONG havia criado o site “chega de fiufiu” para oferecer ferramentas contra o assédio e mostrar até mesmo lugares mais seguros para as mulheres fazerem seu esporte, passear ou esperar o ônibus. E é uma bobagem inverter a culpa e responsabilizar os shorts, as malhas ou os tops que as meninas usam para sua prática desportiva. O mal não está no corpo das atletas. Está na cabeça de quem olha e se descontrola. 

Então se o mal está na cabeça, se há uma cultura danosa, nociva, há que se encarar de frente a necessidade de uma grande onda educacional. Que campanha de sensibilização parece muito bacana, mas se não estiver acompanhada de um esforço massivo das escolas, das comunidades e, principalmente, das famílias, não vai a lugar nenhum. Fica no blá-blá-blá, atingindo só quem já está tocado pela consciência. É preciso que cada homem, cada pai, cada filho, em sua casa mude de atitude. E respeite. E desencadeie uma nova moda de comportamento, sem forçar, sabendo que é assim porque assim é melhor, mais bacana e mais justo. Problema é dar uma espiada no que essas pessoas andam ouvindo como música e vendo como engraçado, o que é moda e instigante nas redes sociais. Lixo sobre lixo. Nada de humanidade e respeito. Dá vontade de desistir. 


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