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Pais e Ais e Filhos

A ausência de carinho pode matar milhões

Celular particular de alguém.

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Joana Aurora tem 25 dias. Gabriela, 25 anos. Olho a minha filha mais nova em meu colo e me lembro da mais velha, nos mesmos braços, tanto tempo atrás. A diferença era ter um pai muitos quilos mais magro, sem qualquer fio de cabelo grisalho e bem mais sonhador. E bota bem mais sonhador nisso.

Joana me olha e sorri. Estamos a apreciar a chuva através da janela, permitindo que apenas a brisa suave nos banhe. Joana sorri com frequência, mesmo quando nos dá sustos de febre e vômitos. Não entendo muito de bebês, mas acho que ela sorriu antes da hora, como já entende tudo o que digo pra ela, as histórias e as canções, tenta até interagir e seu olhar mostra inteligência, por isso até comentei com os avós dela, as crianças do futuro nascerão enviando mensagens nalgum aplicativo. Tô ficando velho.

É preciso aproveitar essa fase de dependência afetiva para amar demais. Os filhos crescem. E então vem aquela impressão de que todo o amor que demos não foi percebido, que eles viram nossos maiores críticos porque falhamos totalmente, erramos em tudo, ou desaprendemos a amar com o tempo. Essa menina que hoje sorri no meu colo e só quer ficar ali, amanhã vai dizer "tá, pai, chega, vai te enxergar".

Dou risada. É gostoso viver tudo isso. Mesmo que, para as almas mais sensíveis, nem sempre o natural da evolução passe sem dor.

A grande magia da racionalidade é descobrir o quanto somos iguais por sermos diferentes, o quanto é indispensável encontrar qualquer intersecção entre convicções distintas e aparentemente, só aparentemente, distantes. A beleza da racionalidade é saber amar. E amor não bota condição. Clichê, eu sei, mas é a maior verdade do universo.

Joana adormece. Penso ser esta a maior resposta de carinho que uma criança pode dar a um adulto. Adormecer no seu colo. Confiar na sua proteção. Entre as nuvens pesadas espio recordações de tantas crianças e adolescentes com quem topei na vida, vítimas de violências, autores de violências. Todos com uma história de ódio, desprezo ou ausência de seus pais na origem de tudo.

E isto só aumenta.

Porque, se os nazistas enviaram milhares de crianças para a morte horrenda em vagões de trens, nós enviamos hoje, todos os dias, milhares de vagões lotados para um destino muito semelhante, de morte banal, cruel, desumana. De desprezo pela vida. A diferença é que a nossa câmara de gás se chama falta de amor. Andamos apressados demais, frívolos e tecnológicos demais, espertos demais, egocêntricos demais para nos importar com o genocídio que patrocinamos.

Joana sorri dormindo. Ela me entende. Pelo menos por enquanto.