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Tem que haver salvação

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Eu ainda não havia trabalhado com um oficial da nova geração, quando ele chegou na minha unidade. Sou da velha academia, garotos que se submetiam a quatro anos de quase clausura num curso intenso para serem, ao final, declarados aspirantes a oficiais. Capitães eram veteranos, oficiais experientes, curtidos pela caserna. Os tempos mudaram. É a evolução. Hoje, jovens bacharéis em Direito podem ingressar num curso mais veloz e moderno. Ser capitão é o início do oficialato. Mas aquele rapaz, uma década mais jovem que eu, trazia uma experiência respeitável na segurança pública: fora soldado, inclusive no Pelotão de Operações Especiais caxiense, e ficou alguns anos na Polícia Civil. E mostrou que fazia valer na prática o fato de ter conhecido vários lados da moeda. Era um tremendo líder, um baita comandante.

Tornamo-nos amigos. Parceiros. Conversávamos de literatura – ele escrevia alguns textos e me mostrava – à depressão que, a certa altura da vida, estremeceu ambos. Homem gentil, inteligente, humano. Paizão. Ético, tratava todos com a mesma polidez, dentro ou fora do quartel. Éramos partidários da neutralidade política, da legalidade e do equilíbrio, porque alguém precisa ficar de fora para mediar os conflitos em dias difíceis. Embora, como uma grande mente, ele fosse pensador crítico. Mas nossas concepções e observações restringíamos às conversas pessoais. Estudamos e fizemos juntos a prova para o curso, no início do ano passado, que nos habilitaria a promoção a major. Não deu. Ele fez só para ter experiência, apostaria em 2019. Eu, outra vez, caí por minha incapacidade pulmonar. Ele pediu que eu me tratasse. Há poucas semanas lhe mostrei os bons resultados de uma espirometria, o tratamento acertado. Então combinamos estudos. Seríamos colegas de aula, parceiros de viagem à capital, majores no futuro. Eu brincava que minha aposta era só nele. Éramos vizinhos de bairro. E, nos dois batalhões onde convivemos, vez ou outra ele entrava na minha sala, fechava a porta e desabafava inquietações funcionais ou debatia algum novo livro. Saía dizendo, voz firme, “foi bom, veterano, foi bom, vamos lá!”. E seguia sua rotina de fazer a diferença. Porque era um grande profissional. No front e na retaguarda. Não à toa o Comando Geral da BM o reconheceu como tal, em cerimônia recente.

Então ele decide nos deixar. Sem se despedir. Recebi a notícia trágica por telefone assim que dei dois passos para fora do ônibus, após uma eufórica noite xavante em Pelotas. Perdi meu chão. Tá difícil acreditar. Uma colega de farda, que cursa Psicologia, sempre insiste no quanto precisamos procurar ajuda. O número de policiais que cometem, ou cogitam, suicídio só cresce. Mas não quero estatísticas. Nem quero só chorar outra falta. Preciso fazer algo. Não sei nem o quê. Deve haver um jeito de mudar isto. Tem que existir uma tábua de salvação. Não dá mais para perder quem amamos, toda hora, só porque não prestamos atenção.