Vai demorar

Vai demorar

Ódio, rebatido com ódio, é só ódio multiplicado

Oscar Bessi

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Talvez ainda precisemos décadas, ou séculos, para apagar os efeitos nocivos do que acontece por aqui há mais de 500 anos. Para que se anule a desigualdade imposta, violenta e desmedida, a exploração do homem pelo homem, do humano pelo lucro, que conseguiu ditar as regras de poder, formatação, formação e deformação desta sociedade que hoje recebemos. Somos resultado e não temos como fugir disto. Não se colhe fortaleza ética ao avançar por um território continental assassinando povos inteiros só para roubar suas terras e riquezas até transformá-los em hordas miseráveis. Estas hoje dependem de esmolas governamentais para pelo menos tentar garantir um naco de terra para as suas vidas destruídas. 

É impossível ter parâmetros naturais de respeito pela cor da pele do outro quando navios fétidos desembarcaram, por séculos, milhares de homens e mulheres escravizados, tratados como mercadoria, com os mesmos e nulos direitos de um martelo qualquer, que só presta enquanto trabalha. Somos preconceituosos por formação, por história e cultura, e nem percebemos. Até queremos dizer que não. Mas não há como ser diferente. E não gostamos de quem não gosta disso e nos diz na cara o que somos. Ninguém quer vandalismos. Saqueadores são apenas ladrões, nunca pessoas com ideologia. Mas ainda encaramos protestos pacíficos com o mesmo olhar recriminatório que olhávamos as tribos indígenas que, ao não aceitar o banditismo europeu, se rebelavam. Ou os grupos de escravos nos quilombos, a tentar um desesperado resgate da sua condição humana violada. Consideramos perigosos. Queremos que parem com isto.

Perigosa é a intolerância. Perigosa é a vingança. Ódio, rebatido com ódio, é só ódio multiplicado. Não tem a mínima chance de se tornar paz. Uma semana após o espancamento de um homem negro até a morte, numa reação descontrolada e desmedida de seguranças, e o linchamento insano e covarde de um outro homem por supostamente falar o que não devia, só tivemos como consequências mais atos violentos, discursos inacreditáveis dos que sentem saudades de se intitular, e agir como, superiores sem consequências legais, e tentativas de brilho momentâneo dos aproveitadores de sempre.
 
Já tivemos tempo para mudar isso. Já tivemos chance. Se não mudamos é porque ainda não queremos o suficiente, não entendemos o suficiente como a nossa própria história é deteriorada e, no fundo, apreciamos e seguimos valores equivocados. Vai demorar para que reencontremos um caminho diverso ao ódio e à intolerância. A vida que nos leva em velocidade alucinada ao futuro promete apenas isto, rapidez. Superficialidade. E com elas a impessoalidade, as relações explosivas, o estresse individual e coletivo, a fúria banal. O direito de opinar e ofender sem qualquer mínima leitura ou conhecimento. A estupidez como moda. A agressão como meio. Vai demorar para que as vozes da lucidez voltem a ser ouvidas. 


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895