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Sobrevivente de acidente com Pace Car, fotógrafo vai registrar sua 58ª Indy 500

Russ Lake é a história viva de Indianápolis e segue fotografando aos 83 anos

Por
Bernardo Bercht, direto de Indianápolis

Fotógrafo sobreviveu a terrível acidente durante a edição de 1971

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Tradicionalmente, jornalistas vão a lugares a procura de histórias. Indianápolis é diferente, pois o mítico oval tem tanto para contar que às vezes a história é que encontra um repórter desavisado. Nesta terça-feira, sem qualquer atividade oficial, dentro ou fora da pista, uma área de imprensa vazia prometia muito pouco. Até que um senhorzinho, curvado pelas mais de oito décadas de dedicação às corridas, pediu: "Sente aqui, que tenho uma história para te contar".

Aos 83 anos, Russ Lake registrou com uma máquina fotográfica nada menos que 57 500 Milhas de Indianápolis. "Quer dizer, essas as que lembro e posso provar, pois apenas em 1963 começaram a credenciar fotógrafos e jornalistas", comenta. "Depois dos 70, algumas coisas foram embora da memória, como Foyt saindo da Curva 4", brinca o veterano, que desde os 14 anos frequenta os autódromos dos Estados Unidos.

Mas Russ Lake é mais que um fotógrafo, ele faz parte da história de Indianápolis. Uma das histórias assustadoras, por sinal. A gente deixa ele contar, inclusive. "Era 1971, eu e vários fotógrafos estávamos num estande montado para registrar a largada", relembra. "Ninguém costumava se importar com o pace car e todos miraram (Peter) Revson, Al Unser e (Mark) Donohue na primeira fila", acrescenta Russ.

"Com o canto do olho, eu percebi uma mancha vermelha dentro dos boxes, muito rápida. Virei a câmera imediatamente, perdi a bandeira verde", conta. Em alta velocidade, o pace car dirigido por Eldon Palmer, tinha perdido completamente seu ponto de frenagem e seguia desabaladamente para o estande dos fotógrafos. "Eu sabia que não tinha como escapar, veio de frente contra nós. Então basicamente continuei tirando as fotos. Sim, eu tenho a foto do carro vindo contra a gente", afirma Russ, como fosse um acontecimento mundano.

O terrível impacto fez toda a estrutura no fim dos boxes desabar. Vinte e nove pessoas ficaram feridas e o socorro era prejudicado pela corrida, que seguia com bandeira verde, em pleno andamento. "Tentei levantar uma vez, desabei imediatamente. Pensei: 'Devo estar tonto do impacto'. Apoiei de novo os pés, quase desmaiei com uma dor lancinante", lembra Russ. Ele quebrou a bacia ao ser arremessado longe pelo carro e conseguiu chegar no centro médico escorado no irmão, que também trabalhava na Indy 500.

Sentado no ambulatório, Russ assistia a correria e tentava ficar tranquilo. "Uma enfermeira me olhou e ofereceu uma das primeiras vagas nos helicópteros para seguir ao hospital. Tinha muito sangue na roupa, mas me sentia bem, então disse para levar quem estava pior", aponta o fotógrafo. "Resultado é que fui um dos últimos a deixar o ambulatório, e foi num helicóptero de passageiros, emprestado para a emergência."

Foram oito meses de recuperação, mas Russ aguentou firme e só pensava em uma coisa. "Voltar a fotografar corridas, claro!" Em 1972, lá estava ele, pronto para a ação. "Mas escolhi um lugar nas arquibancadas, só para me garantir contra atropelamentos", reconhece.

Desde então, conheceu todos os personagens que tornaram a Indy 500 mítica. "Meu preferido sempre foi A. J. (Foyt). Tirei muitas fotos, mostrei para ele. Gostava do material. E foi com essas fotos que aproximei Tony Stewart (campeão da Nascar), pois ele era muito fã", conta.

Russ salienta que a fotografia nunca foi seu trabalho. "Nunca consegui viver disso, tive que abrir um restaurante, em Milwaukee", diz. Mas foi no restaurante que teve seu maior desapontamento. "Só perdi uma Indy 500 desde 1971, foi em 75. Decidi ficar no restaurante para ajudar", lamenta. "Não tinha ninguém para atender, todo mundo estava ouvindo Indy 500 no rádio, ou assistindo no Speedway. Fiquei no prejuízo."

Questionado se ainda tem a foto do Pace Car desgovernado, Russ brinca: "Claro que sim, mas se quiser ver, tem que ir almoçar lá em Milwaukee".

No próximo domingo, o andar trêmulo não vai atrapalhar Russ Lake em busca das melhores fotos. "O braço ainda é forte, ganhei um ombro novo nos anos 2000. Estarei lá no quarto andar do Pagoda, mirando os campeões."