Psicóloga escreve sobre a administração de emoções em tempos de pandemia*
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Psicóloga escreve sobre a administração de emoções em tempos de pandemia*

Natalia Schopf Frizzo diz que o momento é para repensar hábitos e rotinas

Por
Natalia Schopf Frizzo

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Há algum tempo temos experimentado a presença de uma ameaça invisível que nominamos Coronavírus. E, com isso, todos estão sendo convocados a repensar seus hábitos e rotina com fim último de evitar a morte. Seja sua, seja do outro. Contudo, curiosamente, o vírus nos lembrou de algo que frequentemente evitamos entrar em contato: somos finitos. Mas, aqui vai um alerta - das grandes verdades da vida, uma é certa: a morte nos informa sobre o que realmente importa. Então, neste sentido, essa Pandemia tem muito a nos ensinar. Devolve-nos a humildade do aprendiz e, se formos espertos para ouvir o recado, aprenderemos a mediar nossas ilusões de controle. Se pararmos para pensar, passamos muito tempo estratificando planos e ações. Nossos objetivos de vida, ou não são pensados, e vivemos à deriva de nós mesmos, ou são colocados em gavetas etiquetadas, com tempo estratégico para acontecer, um tempo que, muitas vezes está condicionado a um futuro que nem temos certeza que teremos. Veja bem, planejamentos e sonhos são necessários! Desde que não à custa da aniquilação do presente.

Elisabeth Kübler-Ross, uma fantástica psiquiatra, nos dizia: “você não vai receber outra vida como esta. Não espere o momento em que desejará dar uma última olhada no oceano, no céu, nas estrelas ou nas pessoas queridas. Vá olhar agora” – mesmo que da janela ou da tela do celular. Sentir a vida ameaçada por um vírus é uma oportunidade de encarar a morte de frente, mas é também receber um convite para coragem.

Quantas vezes nos pegamos pensando em como não adiantaria fazer movimentos sozinho porque não se conseguiria mudar o mundo... Mas, tantas vezes quisemos mudar o mundo sem nem tentar primeiro dentro de casa, na relação de pares, entre a própria família, no nosso próprio comportamento e autocuidado. Não seria este momento presente uma rica oportunidade? Grandes crises podem sim serem compreendidas como oportunidades. Por se tratar de uma experiência que normalmente não escolhemos passar, mas simplesmente nos aconteceu, a crise se torna chance de ressignificação da nossa vida, das escolhas, e de reencontrarmos nossa força interior. Mais do que nunca vivemos um momento de humildade, no qual necessitamos olhar os outros calmamente, recebendo e servindo ajuda. Não significa de modo algum romantizar a situação, mas sim, convidarmo-nos a enxergar o lado positivo desta experiência: viver o momento presente.

Desacelerar pode ter seu lado bom. É um convite para buscar harmonia e paz interior diante da incerteza. Seja por mantra, meditação, mindfulness, leitura, música, oração, comunhão, compaixão, voluntariado. Relembro Victor Fankl reforçando seu recado: “quando a circunstância é boa, devemos desfruta-la; quando não é favorável devemos transforma-la, e quando não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos”.

Esperança

Em tempos de Coronavírus um convite tem batido à nossa porta: encontre um sentido para a experiência presente. Estamos todos vulneráveis agora. E isso não nos destrói, nos modifica, e, por isso, tempos de crise também podem ser tempos de esperança. Na Europa, os filósofos até especulam que a experiência coletiva de medo e solidariedade trazida pelo vírus provocará mudanças profundas na mentalidade contemporânea. Só que podemos começar as mudanças agora, bem aqui, dentro de cada um de nós.

Quantas vezes já refletimos sobre as ressignificações possíveis diante de uma situação de crise? Quantos de nós já vivenciamos, lemos ou ouvimos que o sentido de um sofrimento nem sempre é evidente, mas muitas vezes revela-se num tempo tardio? Quantas vezes percebemos que um fato realmente doloroso em nossa vida conseguiu trazer, posteriormente, um sentido que naquela ocasião não nos era evidente? Pois bem, sem romantismos, mas com sabedoria, podemos escolher a forma como iremos passar por essa Pandemia.

Aos poucos estaremos retornando para uma rotina dita “normal”. Mas isso não pode nos conduzir a uma panaceia mágica. Mesmo nos livros, as estórias nos falam profundas verdades. Em A Peste, por exemplo, narra-se a vida de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola uma cidade da África. Mas, nos questiona intensamente sobre diversos assuntos relacionados à natureza do destino e da condição humana, e traz como lição a ideia do coletivo. Assim como no livro, passar por uma Pandemia não pode carregar a ideia de “cada um que se salve”. O vírus e a doença é assunto de todos. Os problemas que atingem a um, ameaçam a todos. Os sentimentos individuais devem, então, dar lugar aos sentimentos coletivos.

É preciso acreditar que há luz no fim do túnel, mas, que o tempo de encontro com essa luz depende também de nossos hábitos e escolhas. Já dizia Anne Frank em seu diário: “Simplesmente não posso edificar minhas esperanças sobre alicerces de confusão, miséria e morte. Posso sentir o sofrimento de milhões e ainda assim, penso que tudo irá se corrigir, que esta crueldade também terminará. Enquanto isso, preciso adiar meus ideais, para quando chegarem os tempos em que, talvez, eu seja capaz de alcançá-los.

Volte para a vida aos poucos. Ela já não será a mesma que você deixou lá atrás, o que, aliás, pode ser muito bom. Ela pode ser algo melhor. Continue se cuidando e cuidando dos outros. A Pandemia ainda se mantém nos ensinando. Nossas ações interessam e grandes sentimentos também. Como diz Claudio Marcelo, médico cardiologista e intensivista, “a saída está dentro... na interação com quem amamos e respeitamos, cuidando de nós mesmos, dos nossos filhos, dos nossos velhos,   protegendo-os e protegendo-nos”.

*Natalia Schopf Frizzo
Psicóloga - CRP 07/21597
Mestra em Psicologia e Saúde - UFCSPA
Residência em Gestão e Atenção Hospitalar - Área de concentração: Oncologia-
Hematologia - UFSM/HUSM
Especialista em Cuidados Paliativos - Hospital Israelita Albert Einstein
Especialista em Psicologia Hospitalar - CFP
nataliafzz@hotmail.com