A potência da palavra de Clarice Lispector em "A Hora da Estrela"

A potência da palavra de Clarice Lispector em "A Hora da Estrela"

André Paes Leme assina a montagem ‘A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa’, com canções de Chico César, no Theatro São Pedro, neste sábado e domingo

Vera Pinto

Laila Garin e Cláudia Ventura dividem o palco com Leonardo Miggiorin

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Da obra de Clarice Lispector, “A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa” é a peça dirigida por André Paes Leme, em cartaz neste sábado, às 21h, e domingo, 18h, no Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/nº), pelo Palco Giratório Sesc. Cláudia Ventura, Laila Garin e Leonardo Miggiorin dão vida à narrativa escrita em 1977 sobre a migrante nordestina sem atrativos, de existência medíocre, do romance “A Hora da Estrela”, cujo sonho era ser uma estrela de cinema. Órfã de pai e mãe e criada por uma tia que a maltratava, sua existência no Rio de Janeiro era desprovida de afeto ou poesia, entre o emprego e o namorado. 

Encenado fielmente, com uma pequena inserção do conto “Mineirinho”, o texto como literatura não vira dramaturgia. “A forma como a gente lida com as palavras escritas por Clarice conferem teatralidade, não sendo necessário nenhum tipo de adaptação. E as canções de Chico César trazem um olhar deste nosso momento, com a intensidade da autora”, afirma Cláudia Ventura. Toda a equipe criativa utilizou a palavra como força motriz da trama, com provocação visual. Assim, o cenário é composto por mesas e cadeiras que flutuam presas por roldanas, em alusão ao trabalho da protagonista, como secretária em uma empresa de roldanas. 

No palco, o drama das pessoas invisíveis ainda hoje: “a obra da Clarice infelizmente é muito atual, fala do mais profundo do ser humano e o quanto estamos patinando nas mesmas questões”, afirma Cláudia, que se alterna entre os papeis da tia da personagem central, sua colega de trabalho e a cartomante. “Estas mulheres têm uma identidade quase coletiva – são todas balconistas, Marias, sem rosto e nem sobrenome, que tenho a alegria de dar vida. Elas tem personalidades e funções distintas, a partir da função de opressão que exercem na vida de Maca. Cada uma delas está colaborando para que se realize o desfecho trágico”, completa. A tia marca a infância e vai determinar o caráter da jovem, que sofria constantes abusos. Educada à base de pancada na cabeça e castigos, adotou um olhar medroso e para baixo. Já na fase adulta, Glória seduz o único namorado que Macabéa teve, Olímpico de Jesus, que não a tratava bem. A moça lhe indica uma cartomante, emprestando dinheiro para o jogo de cartas. Madame Carlota prevê a morte de uma cliente ao sair de sua casa. “Há uma brincadeira com a previsão do destino, quase como um delay, já que quem viverá este destino fatal será Maca”, finaliza Cláudia. 

 



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