Artistas mães do século XIX

Artistas mães do século XIX

Priscilla Casagrande*

Abigail de Andrade, obra "Estrada do Mundo Novo com Pão de Açúcar ao Fundo", de 1888

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Quebrando barreiras em um território dominado por homens, quatro mulheres brasileiras conseguiram conciliar maternidade ao trabalho artístico.  Enquanto a famosa Semana de Arte Moderna é celebrada na historiografia pela sua existência e atualmente é relembrada em decorrência do seu centenário, um marco importante da arte brasileira também aconteceu em 1922 mas muitos historiadores e pesquisadores deixaram passar batido tal acontecimento. Naquele ano, pela primeira vez, uma mulher brasileira foi premiada por uma pintura histórica, o gênero artístico mais prestigiado daquela época. A paulista de Taubaté, Georgina de Albuquerque (1885 - 1962), recebeu o prêmio, concedido pela Escola Nacional de Belas Artes, pela pintura Sessão do Conselho de Estado. 

A tela da pintora era diferente da imagem de um processo de independência com bravura e heroísmo. Georgina procurou abordar o episódio da perspectiva de um evento diplomático, realizado dentro de um gabinete. Ela buscou retratar um acontecimento que colocasse a princesa regente Maria Leopoldina quase como personagem principal, sendo uma apoiadora da libertação do Brasil em relação à Corte Portuguesa. A artista desafiou os padrões ao pintar um quadro político, hoje integrante do acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Apesar de aceitas, nos círculos de criação, às mulheres se reservavam a temas menos nobres, como cenas domésticas, íntimas, além de naturezas mortas e paisagens.

Foi Georgina quem deu um importante passo para que artistas mulheres pudessem ampliar suas aspirações no começo século XX. A artista que iniciou os estudos da pintura aos 15 anos foi casada com o também pintor Lucilio de Albuquerque (1877 – 1939), foi mãe de dois filhos, estudou artes visuais em prestigiadas escolas de Paris, ganhou concursos e conseguiu se destacar num espaço dominado pelos homens. Assim como ela, outras mulheres, ainda lá no século XIX, deram os primeiros passos no combate ao preconceito e na luta por reconhecimento num terreno incipiente para a arte feminina. A pintora fluminense Abigail de Andrade (1863 -1891) foi uma delas. Premiada no salão Imperial de Belas Artes com medalhas de prata e ouro, a jovem artista também realizou exposições individuais, e foi considerada primorosa por críticos de sua época, como por exemplo Gonzaga Duque (1863 - 1911). Aliás, foi ele quem escreveu que Abigail de Andrade, ao contrário das demais pintoras de seu tempo e enfrentando o preconceito existente contra as mulheres, fez da pintura a sua profissão. Apesar do futuro promissor, o relacionamento com seu professor o artista Angelo Agostini (fez com que ambos deixassem o Brasil em decorrência da gravidez de Abigail. A pequena família mudou-se a para Paris, mas dois anos após o nascimento da primeira filha, a artista perdeu o segundo filho e veio a falecer aos 28 anos em decorrência de uma tuberculose.

Se pintoras como Georgina de Albuquerque e Abigail de Andrade sofreram discriminações por estarem inseridas no mundo masculino das artes plásticas na transição do século XIX para o século XX, imagine então como foi difícil para a escultora brasileira Julieta de França (1870 – 1951) ser aceita. A prática da escultura era vista como uma área predominantemente masculina, por exigir força física e contato direto com os materiais pesados, o que não condizia para os padrões até então tidos e estabelecidos para o arquétipo feminino. Apesar disso, a paraense Julieta de França também foi uma das precursoras na Escola Nacional de Belas Artes, sendo a primeira artista mulher a cursar as aulas de modelo vivo, o que para a sociedade daquela época era considerado um escândalo para alguém que não fosse homem. Premiada, Julieta ganhou uma viagem para estudar em Paris, na França, onde teve aulas com ninguém menos que o escultor Auguste Rodin (1840 – 1917), mas as dificuldades financeiras fizeram a artista retornar ao Brasil. Apesar de bem recebida pela crítica especializada, a artista que era mãe solo, teve problemas com a comissão julgadora do concurso que escolheria um monumento comemorativo à República. O parecer da comissão foi desfavorável à escultura que Julieta havia submetido para avaliação, decisão que revoltou a artista. A postura de confronto contra os membros da Escola Nacional de Belas Artes foi tida como uma afronta e Julieta ficou sem o apoio de colegas e professores, tendo como consequência aquilo que hoje podemos considerar uma espécie de cancelamento. Para conseguir sobreviver e cuidar da filha única, a escultora passou a trabalhar produzindo bustos e esculturas por encomendas até se tornar professora. 

No famoso ano de 1922, no Rio Grande do Sul, uma pioneira também abria o caminho das artes visuais para as mulheres: Judith Fortes (1896 -1964) foi a primeira mulher a se formar pela Escola de Artes de Porto Alegre do Instituto de Bellas Artes (atual Instituto de Artes da Ufrgs). Discreta e reservada, participou de exposições, concorreu a uma vaga na escola onde se formou e apesar de obter a qualificação necessária, não teria sido nomeada por ser mulher. Por causa desse episódio, a artista decidiu abrir o próprio curso de pintura na capital gaúcha. Mesmo com talento e técnica, Judith Fortes, assim como Julieta de França, Abigail de Andrade, Georgina de Albuquerque e tantas outras mulheres caíram no esquecimento da historiografia. Muito se deve ao fato de que tudo que vinha antes de 1922 era datado como antigo, conservador e antiquado. Naquela época, artes como a pintura e o desenho, quando realizadas por mulheres, eram vistas frequentemente como um “hobby”, ou apenas uma distração para moças. O termo amadora era frequentemente usado durante o século XIX e início do XX, para referir-se às mulheres que pintavam, esculpiam ou desenhavam independentemente de serem artistas ou não. O apagamento das artistas mulheres e da diminuição das mulheres que são mães nas artes visuais na história é um processo já reconhecido mundialmente. É preciso agora recuperar suas obras, seus legados e manter viva a memória de mulheres que contribuíram plasticamente para a cultura e a arte. O processo de reconhecimento dessas e de tantas outras artistas ainda é uma luta que reverbera na História da Arte Brasileira. 

* Graduou-se em jornalismo pela PUCRS e atuou profissionalmente como repórter no jornal Correio do Povo e na TV Record. Atualmente é mestranda em História e Crítica da Arte pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ.

 



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