Corpo Futuro: a revista de arte brasileira

Corpo Futuro: a revista de arte brasileira

Fernando Zugno*

Detalhe da foto de Pedro Karg a partir de performance de Julha Franz que ilustra a capa da revista

publicidade

Em 2020, em plena pandemia, em uma emergência sanitária que impediu artistas de trabalharem ao fechar casas de shows, teatros, museus, galerias e festivais, surge a revista de arte Corpo Futuro, numa ideia de criar um novo espaço em que artistas e também jornalistas, filósofos e sociólogos pudessem manifestar suas ideias, pensamentos, pesquisas, estéticas para, juntos, estabelecer um debate rico acerca de questões pungentes contemporâneas. E, claro, também possibilitar que esses profissionais desse setor que foi altamente atingido durante a pandemia da Covid-19 pudessem ser devidamente remunerados pelos seus trabalhos e apaziguar um pouco a dor e o desespero desse momento de tanta escassez. 

O nome Corpo Futuro surge, através das minhas pesquisas, pelo questionamento ao modelo eurocêntrico que vem dominando o mundo e nos levando para o abismo completo. E se esse modelo trilha o caminho do não-futuro, quem sabe se dermos ouvidos aos tão belos pensamentos dos outros povos? Povos que estabelecem uma relação mais orgânica com o seu meio ambiente natural e que, por serem incompatíveis com o modelo destruidor, foram escravizados, marginalizados e apagados, como é o caso dos povos originários dos continentes africano e americano? Quem sabe são essas as vozes do futuro possível! 

Como escrevi no editorial da primeira edição, lançada em outubro de 2020: “Ao perceber o fracasso desse projeto de colonização europeu e a clareza dos ensinamentos deixados por indígenas, africana/os e bruxas, propomos a inversão do jogo: aprender com ela/es sobre como se relacionar com as outras espécies da natureza e suas respectivas comunidades. Quais outras formas de relações são possíveis para não sucumbirmos aos nossos próprios feitos?”. É a partir disso que surge esse projeto que veio a tomar forma em corpo de revista. E uma revista de arte, afinal, quem melhor que os visionários artistas para nos abrirem portas, iluminarem nosso pensamento e transmitirem conhecimento a partir da beleza? 

Pela incrível repercussão que a revista teve logo de cara – comentários fantásticos de um público especializado em arte e publicações e de pessoas de outros universos distintos que se encantavam com a qualidade do material que as instigava a navegar pelos seus conteúdos – é que tivemos impulso para seguirmos com esse projeto e transformá-lo numa publicação constante e anual. Seu projeto gráfico (pensado por mim junto da minha parceira de anos Dídi Jucá) tem páginas de 25 x 36 centímetros e um papel de alta qualidade para que o leitor possa ter a melhor experiência ao passar por esses universos criados pelos nossos colaboradores e para que as imagens possam ganhar um requinte de detalhes próximos a um quadro para que a contemplação desse material seja mais profunda. 

Em julho de 2021 lançamos a 2ª edição da Corpo Futuro, que teve projeto exclusivo financiado pelo Pró-Cultura RS com patrocínio da PMI Foods, outra grande conquista. Muitos novos colaboradores, novas exposições, muito aprendizado e mais retornos incríveis que nos mostraram que a CF é uma ideia com potencial para seguir uma vida longa e atravessar períodos de pandemia. Pois, de fato, esse ano, na terça-feira, dia 21 de junho, às 19 horas, lançamos a 3ª edição desse material que já virou item de colecionador, objeto de desejo aguardado pelos leitores que acompanham a revista desde a sua primeira edição. 

Nessa edição seguimos em diálogo com pesquisadores que desde o início colaboram conosco de outras maneiras até chegarmos a criação de um material específico e exclusivo como é o caso da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum a quem convidei para escrever para a Corpo Futuro sobre suas experiências pela Amazônia, especialmente nesses anos em que mora em Altamira e disse que tinha vontade de publicar também algumas fotos do seu parceiro, o fotógrafo Lilo Clareto. Conseguimos as fotos do Lilo e a Eliane nos surpreendeu com um texto poético e ao mesmo tempo informativo, um depoimento-carta pessoal em que ela escreve ao próprio Lilo, falecido de Covid em 2021. Aquelas palavras com aquelas fotos são de uma emoção que tem tudo a ver com o que buscamos com a revista: informar os leitores através da emoção, da beleza e da estética.

Paralelo a isso, em contato sempre com minha companheira de curadoria nesse projeto, a jornalista Carol Anchieta, levantamos inúmeros novos nomes que poderiam colaborar com essa edição que vocês já tem acesso em algumas livrarias especializadas da nossa cidade como a Baleia, Taverna, Pocket Store e lojas de museus como Para Presente no Instituto Ling, loja da Fundação Iberê Camargo e do MACRS. 

Carol trouxe pela primeira vez o debate sobre a moda para a CF e, como não poderia deixar de ser, sob a ótica do pensamento da mulher negra e seus conhecimentos ancestrais de tecidos, texturas e histórias. A partir disso eu convidei dois fotógrafos de moda, o Guilherme Fernandes e o Bruno Barbosa, para dividirem conosco seus olhares. Bruno expõe um editorial que já tinha pronto e Guilherme cria uma nova série junto da modelo Fayola Ferreira. Essas brincadeiras e jogos entre criadores que Carol e eu gostamos de fazer são a fim de criar um material mais rico, divertido e diverso.

A beleza de se jogar nessa navegação que é o processo criativo de elaboração da Corpo Futuro é que parece que a própria revista ou a própria arte eventualmente se manifesta e faz suas próprias escolhas. Os acasos que surgem e nos surpreendem com alegria são sempre bem vindos. Quando deixamos que a natureza se manifeste e damos ouvidos aos nossos instintos é garantia de que estamos no caminho certo. Ao me debruçar sobre o material da nova peça do Projeto Gompa chamado Amazônia, conheci o dramaturgo e poeta paraense Rudinei Morales, cujos textos acabaram por entrar na revista e, a partir dele, conheci a fotógrafa Elza Lima que compõe seus textos com liberdade poética. Sem terem sido feitos um para o outro, fez-se ali também um jogo.

E por falar em jogo, essas magias também acontecem na escolha da capa da revista. Tínhamos outras ideias racionalmente estabelecidas até que, ao longo do processo de desenho da publicação, outras imagens surgiram e questões de outros âmbitos também mudaram seus cursos. Em algum momento, foi como se a própria 3ª Corpo Futuro decidisse que sua capa seria essa foto maravilhosa do Pedro Karg com a performer Julha Franz nesse ensaio-foto-performance que eles fizeram chamado Iconoclasta.
Assim, nos mínimos detalhes, a muitas mãos, com muito trabalho e afeto lançamos mais uma Corpo Futuro. Desejamos que ela dê a vocês uma linda experiência.

* Editor-chefe e curador da revista Corpo Futuro. 



Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895