Questão ambientais na paisagem de Pedro Weingärtner

Questão ambientais na paisagem de Pedro Weingärtner

No último dia 26 comemorou-se o aniversário de 169 anos do nascimento do artista gaúcho que revelou o Rio Grande do Sul para o Brasil através da pintura

Priscilla Casagrande *

Quadro "A Derrubada", de Pedro Weingärtner, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes

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Revisitando a obra de Pedro Weingärtner (1853-1929) é possível analisar as alterações na paisagem gaúcha retratadas pelo pintor. Mas entender a relação dos seres humanos com o espaço e a natureza que os cercavam no final do século XIX ainda é se debruçar sobre dúvidas e lacunas a serem preenchidas sobre essa temática. Há poucos relatos e testemunhos dando conta de uma época na qual a paisagem sofreu grandes transformações, pois apesar das mudanças estarem diante de todos, poucos as documentaram ou se aprofundaram nesse tema. Como teriam se dado as intervenções humanas, a ação deliberada da derrubada da mata nativa e a devastação de florestas, matas, campos e outras paisagens brasileiras durante o século XIX? A transição do Império para a República pode ter contribuído para uma possível cegueira frente às questões ambientais? O impacto da colonização Europeia teria reverberado no descaso com a natureza brasileira? A inexistente preocupação ambiental contribuiu para essa mudança da paisagem? Aliás, essa transformação das paisagens, para muitos, estava associada ao emergente progresso do Brasil republicano. Mas antes de tentarmos compreender estes pontos, é preciso definir ou esclarecer o que de fato significa paisagem no contexto da História da Arte. 

As percepções humanas e o olhar sobre a natureza são distintos e sofreram alterações ao longo dos tempos. No Ocidente, desde o Renascimento a paisagem é fonte inesgotável de representações estéticas que a reproduzem. E se nas artes visuais elas se expandiram, não foi diferente em outras áreas, como por exemplo, as ciências naturais. As disciplinas que se apropriaram do vocábulo são muitas, o que dificulta qualquer unanimidade sobre o significado do termo: geografia, geologia, arquitetura, engenharia, biologia, artes visuais; todas têm significados distintos para paisagem. Identifica-se então que não há uma designação unívoca sobre o termo “paisagem”. Talvez no entendimento deste artigo, o sentido se aproxime mais da palavra natureza, mas, com a expansão da influência humana sobre a natureza, talvez nem disso mais o termo possa se aproximar. obra de arte. A pintura paisagística no Ocidente tem uma história relativamente recente: origina-se nos Países Baixos durante o século XV, e aparece de forma marcante no século XVII para tornar-se protagonista durante o século XIX. 

Na arte brasileira, a pintura de paisagem surgiu no final do século XIX, quando o gênero artístico associou-se ao movimento cultural originado um século antes na Europa. A influência europeia sobre os artistas brasileiros por meio de viagens de aperfeiçoamento contribuiu para que o gênero fosse utilizado de maneira naturalista. Sendo assim, a alteração da paisagem aparece de diferentes formas e expressa relações diversas ao longo da História do Brasil. Podemos considerar que o desmatamento ou a alteração da paisagem natural do país começou logo com a sua descoberta pelos Europeus. “Terra Brasilis”, como ficou conhecida a nova colônia de Portugal, teve a origem de seu nome diretamente ligada à exploração do Pau-Brasil e, portanto, ao início da destruição da Mata Atlântica. Nativo das florestas tropicais, em especial no trecho que vai do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro, o pau-brasil foi intensamente explorado devido ao corante vermelho extraído de seu tronco. Já no período Imperial, durante o ciclo do café, o Brasil viu mais uma vez suas florestas serem derrubadas. O pintor francês Félix-Émile Taunay (1795-1881) produziu uma obra que pode ter inaugurado a arte com preocupação ambiental no país, com uma pintura contendo um forte tom de crítica ambiental: basta analisar a tela “Vista de hum mato virgem que se esta reduzindo a carvão”, produzida em 1843. A obra, que está no acervo do Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, tem sido interpretada como uma alegoria do embate entre a natureza e processo civilizatório.
Sabendo que artistas europeus já tinham a tarefa de retratar a natureza brasileira, principalmente a paisagem tropical do Rio de Janeiro e da região Nordeste, Pedro Weingärtner dedicou parte de sua obra à temática paisagística do Sul do país. Essas pinturas e esboços funcionam como verdadeiros registros iconográficos.

Com idas e vindas entre o Brasil e a Europa, Weingärtner conseguiu se estabelecer entre os mais prodigiosos artistas de sua geração. Mas ele nunca perdeu contato com a vida brasileira, em particular com a paisagem da sua terra gaúcha. Através de suas pinceladas letárgicas, de caráter minucioso, com esmero detalhista e registro fotográfico, o artista preservou a memória do Sul do país. Iniciou-se então com ele um olhar sobre o Estado gaúcho, e é através de suas paisagens que hoje, ampliando para a esfera das questões ambientais, podemos ver que algumas de suas obras retratam a questão da memória local, e que aqui recortamos para a problemática do desmatamento. 

Primeiro é preciso entender o processo da imigração europeia para o Estado do Rio Grande do Sul no final do século XIX, o qual se caracteriza pela posse da pequena propriedade em áreas ainda não colonizadas, localizadas na região Sul. Os imigrantes dirigiram-se para regiões de mata virgem ou fechada com o objetivo da agricultura de base familiar e com a missão de transformar economicamente e culturalmente as áreas ocupadas. Diferente do processo do Sudeste do país, esses fluxos imigratórios não estão ligados à substituição de mão de obra escrava. Aqui entram, na sua maioria, imigrantes alemães ou italianos. Nessas áreas, os imigrantes recém-chegados foram instalados também com o objetivo de produzir e fornecer alimentos para os centros urbanos. 

Com esse panorama histórico: das restritas discussões sobre as questões ambientais no Brasil durante o século XIX, podemos analisar algumas obras de Weingärtner, em que na maioria das vezes o artista nos mostra uma natureza exultante na frondosa vitalidade das árvores e de suas copas ao fundo, enquanto a derrubada das árvores aparece no primeiro plano. O imigrante teve diante de si um desafio: o de desbravar, abrir caminho, dominar a terra. O que antes era visto como progresso, hoje é percebido como uma prática agressiva, devastadora e de violência com a paisagem local. É o que Nicolau Svecenko analisou sobre o europeu que chegou no Brasil: “Desbravar, romper aquela virgindade nativa, e agressivamente impor o seu controle e o seu domínio sobre a natureza. Natureza que, por sua vez, aparece aqui como o inimigo a ser vencido e a ser espoliado.” 

A tela "Tempora Mutantur", de 1898, pode ser considerada o pontapé inicial na obra de Weingärtner acerca da intervenção do imigrante no meio ambiente. Com a transição do modelo escravocrata para a mão de obra advinda da Europa, a natureza passa então, no final do século XIX, a ser entendida como um objeto a ser dominado, pelo menos para os colonos que chegavam no Sul do Brasil. Como o próprio nome da tela diz: “Os Tempos Mudaram”, e é possível entender as alterações históricas daquele momento. A empreitada do imigrante de dominar a natureza fica clara. Já a pintura intitulada de Derrubada, de 1913, é uma das obras expostas no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. A tela traz uma carga dramática ainda mais intensa: o primeiro plano é de devastação, com uma numerosa quantidade de galhos retorcidos, pedras e um tom mais escuro da paleta. Em Derrubada, o meio ambiente é o protagonista da cena.

A representação da natureza foi e é constantemente um ponto de discussão nas artes visuais, e é de fundamental importância para a história e a crítica da arte. Nas paisagens retratadas por Pedro Weingärtner, a condição do imigrante como causador da destruição das matas acentua a relação dos seres humanos com o meio ambiente no final do século XIX. As obras do artista se apresentam como os únicos registros visuais no campo das artes plásticas mostrando as alterações da paisagem no Rio Grande do Sul durante aquele período, uma memória local hoje preservada em coleções particulares e em Museus públicos. 

Mesmo sem uma preocupação ambiental aparente ou explícita, Weingärtner nos permitiu vislumbrar a paisagem da virada do entresséculos, oferecendo uma perspectiva sobre como se deu o fenômeno da devastação natural no Sul do Brasil. Os aspectos ambientais na obra de Weingärtner fornecem subsídio tanto para a revisão do passado e suas consequências nas alterações da paisagem brasileira, quanto para a emergência da consciência ambiental por meio da História da Arte, lançando pontes para o cruzamento com outras disciplinas, afinal, a história do desmatamento também é visual. 

* Jornalista. Mestranda em História e Crítica da Arte pelo PPG em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ. 



Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895