Sísifo e a humilhação sistemática, cotidiana e exaustiva

Sísifo e a humilhação sistemática, cotidiana e exaustiva

Comemorando seus 15 anos, o Grupo Jogo estreia, em sessão única, o espetáculo “Prédios Espelhados Matam Passarinhos”

Vera Pinto

Alexandre Dill: "classe trabalhadora e tecnologia estão interligados, em nível local, na circulação dos ônibus sem cobradores"

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Quanto vale a humilhação a que o trabalhador se submete cotidianamente em nome de sua sobrevivência? Esta é a pergunta que permeia “Prédios Espelhados Matam Passarinhos”, o mais novo trabalho do Grupo Jogo, dentro das celebrações de seus 15 anos de trajetória ininterrupta. Com o hibridismo que o caracteriza, na fusão de teatro, dança, artes visuais e digitais, recria o mito de Sísifo para refletir sobre os constrangimentos a que somos socialmente submetidos, ao relacionar as relações entre a classe trabalhadora, a tecnologia e as consequências do capitalismo tardio. O espetáculo tem apresentação única neste sábado, às 20h, no Teatro CHC Santa Casa (Independência, 75). Os ingressos estão à venda apenas pela plataforma Sympla e o acesso se dará mediante apresentação do passaporte vacinal. 

Na mitologia grega, Sísifo, o mais astuto dos mortais, tentou enganar os deuses, sendo punido com a inglória tarefa de rolar uma pedra montanha acima diariamente, como forma de envergonhá-lo, já que não haveria esperteza capaz de fazer a pedra não rolar. Usando esta simbologia, o filósofo francês Albert Camus lançou em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, “O Mito de Sísifo”. Questionador das relações desiguais que rondavam o século XX, o escritor traz para o contexto atual o trabalho de Sísifo como algo cansativo e inútil, sem qualquer sentido senão o da sobrevivência. Estas referências, assim como o solo “Sísifo”, com Gregório Duvivier foram usadas pelos atores para escrever o texto, organizado por Gabriel Pontes. “Todos abordam este lugar exaustivo do trabalhador, que sem saber muitas vezes a sua condição, repete eternamente a mesma função como se fosse uma máquina de produzir coisas incessantemente, todos os dias”, comenta o diretor, Alexandre Dill. “Com esta metáfora, a cenografia traz os trabalhadores de diferentes lugares de trabalho, com olhares e críticas diferentes aos seus ofícios e ao carregar desta pedra eternamente monte acima e ao chegar lá no topo ter que carregá-la de novo porque ela rolou morro abaixo”, afirma. 

A tecnologia chegou mais perto de nós do que imaginávamos, opina o artista: “classe trabalhadora e tecnologia estão interligados, em nível local, na circulação dos ônibus sem cobradores”. Isto faz com que os trabalhadores sofram ainda mais com as consequências do capitalismo tardio, que chegou muito mais tarde na América Latina do que o modelo aplicado na Europa, continua. “Em um ponto de vista contemporâneo, tem a ver com pandemia, na medida em que os ricos ficaram ainda mais ricos; os pobres, cada vez mais carentes e os vulneráveis chegaram à miséria. Isto é reflexo de um capitalismo tardio”, expõe Dill. A reflexão se estende à classe artística, que na pandemia perdeu espaço, tendo que se desdobrar em outras profissões e encarar o fato como normal. 

A produção que começou a ser pesquisada em maio do ano passado integra o projeto Theatre in the Digital Era, fundo viabilizado pelo governo alemão, através do patrocínio do Instituto Goethe, Bosch e outros parceiros do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. No mundo inteiro foram contemplados pelo edital 216 projetos de 52 países, sendo quatro de Porto Alegre. Sobem ao palco, Gustavo Susin, Louise Pierosan, Guilherme Conrad, Vicente Vargas, Lucca Simas e Júlia Moreira, na peça com participação em áudio de Thainá Gallo, integrante do grupo que reside em São Paulo. 
O grupo Jogo foi fundado em 2007, dissidente do curso de formação de atores da Escola de Teatro Popular do Ói Nóis Aqui Traveiz. Criou “Fenícias”, que estreou em 2008 e um ano depois o coletivo entrou no circuito profissional. Depois vieram “Play Beckett” (2009)), “Para Acabar com o Julgamento de Deus” (2010), “Fauno” (2012), “A Noite Árabe” (2013), “Medeamaterial” (2015), “As Trevas Ridículas” (2017), “Tremor” (2018), “Deus é um DJ” (2019) e “Deus é um DJ Live” (2021). Atualmente é formado por Guilherme Conrad, Henrique Strieder, Gabriel Pontes, Louise Pierosan, Gustavo Susin, Lucca Simas, Vicente Vargas e Júlia Moreira, de Porto Alegre e ainda Thainá Gallo e Manu Menezes, de São Paulo. 

 



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