Um grupo que marcou época em Taquara e no RS

Um grupo que marcou época em Taquara e no RS

Jurandir Soares *

"Quem nos viu e ouviu sabe que o GEU Boys foi um orgulho para Taquara"

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De 1967 a 1972 Taquara teve um conjunto musical que se tornou orgulho da cidade e que encantou todo o Vale do Sinos, boa parte do Rio Grande do Sul e até Santa Catarina. Era o “GEU Boys”. E eu, aos 78 anos, deixo a modéstia de lado para dizer que fui o “pai desta criança” e fazer o resgate de sua bela história, antes que caia no esquecimento.

GEU era a sigla de Grêmio Estudantil União, clube de estudantes que então não tinha uma sede própria, mas realizava intensas atividades sociais e esportivas. Um dos destaques era o Baile do Estudante, evento realizado anualmente, à época no Clube Comercial, e onde era escolhida a Rainha do Estudante, cujo cetro era uma caneta ao estilo das antigas penas de escrever, onde ficava registrado o nome da soberana. Nas atividades esportivas o destaque ficava para o futebol de salão, hoje futsal, com participação em disputas estaduais organizadas pela Federação Gaúcha de Futebol de Salão. Chegamos a ter também time feminino de vôlei.

Eu era o presidente do GEU e um dos goleiros do time. Em 1966, trabalhei como professor de Educação Física no Colégio Santa Teresinha, onde vi vários garotos bons de bola e os convidei para formar um time infantil do GEU. A ideia prosperou, criamos não só um bom time, como também um grupo de garotos que tinha uma saudável ocupação fora de seu período escolar, além de uma agradável convivência. Seguidamente, costumávamos organizar encontros do grupo, onde cada um trazia um “quitute” que sua mãe tinha preparado. Nesses encontros alguns começaram a demonstrar intimidade com algum instrumento musical, como piano, teclado, violão, bateria, etc.

Um sábado pela manhã, eu estava defronte ao Clube Comercial assistindo ao desfile da Banda Marcial do Colégio Santa Teresinha. Pilotando aquela harmonia musical estavam nos trompetes dois integrantes de nosso time infantil: Cláudio Cunha e João César Ostermann. No momento me saltou a ideia: vamos reunir esta gurizada e tentar fazer um conjunto musical, pois eu tinha a lembrança de outro conjunto que Taquara já tivera na década de 1950, “The Big Boys”, do qual fazia parte o Dr. Alberto Martins, hoje médico consagrado na cidade. E foi justamente a bateria desse conjunto que resgatamos para fazer nosso primeiro ensaio, no palco do salão do Clube Comercial, onde havia um piano, que foi comandado pelo Paulinho Müller. O Eduardo Ellwanger, “Bodinho”, assumiu a bateria, Dirceu Martins veio com uma escaleta, Jackson Volkart e César Bauer com violão e voz. Daltro Dietrich com violão, mas já com preparação para o contrabaixo. E o Claudio e João Cesar com os pistões ou trompetes. E também compôs o grupo o Paulo César Leal, dono de uma voz maravilhosa.

Os ensaios foram se seguindo, assim como os apelos para que tocássemos em uma “reunião dançante”, a balada da época. Numa vinda de Caxias do Sul, onde fôramos jogar, paramos em frente a uma loja musical em Novo Hamburgo onde vislumbramos uma guitarra vermelha que se tornaria o primeiro instrumento adquirido pelo grupo e que seria assumido pelo Jackson. Na base do improviso tocamos em nossa primeira reunião dançante no Clube Comercial, numa noite de sábado de junho de 1967. A primeira música foi “Aline”, em solo de escaleta pelo Dirceu, enquanto o Paulo César Leal cantou o recém lançado sucesso de Chico Buarque, “A Banda”. O sucesso foi total, seguindo-se várias outras reuniões, onde, inclusive, corria uma lista de colaboradores para compra de instrumentos, a qual teve a adesão não só dos pais dos integrantes do grupo, mas também de um grande número de pessoas que se entusiasmavam a cada apresentação do conjunto. 

Era época de grandes bandas como Beatles, Rolling Stones, aqui no Brasil, Os Incríveis. Bandas que eram fundamentalmente guitarra e voz. E havia outras, que valorizavam também os metais, cujo destaque internacional era Herb Alpert e sua Tijuana Brass. No Brasil era The Jordans. E época também em que despontava a Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos e tantos outros. No GEU Boys fizemos um mix de todos estes componentes, criando um harmônico conjunto, que passou a ser cada vez mais requisitado para animar reuniões não só em Taquara, mas também em cidades do Vale do Sinos.

O Paulo César Leal deixou o grupo pouco tempo depois de sua formação. Assim, a banda passou a ser integrada por Paulo César Müller no órgão eletrônico, Jackson Volkart e César Bauer nas guitarras e voz, Eduardo Ellwanger na bateria, Dirceu Martins na escaleta, Daltro Dietrich no contrabaixo e Claudio Cunha e João César Ostermann nos trompetes. Eu exercia a função de coordenador do grupo. Não tocava nenhum instrumento, era chamado de “paralítico do ouvido”, mas tinha o que classificavam de “sensibilidade musical”. Escolhia o repertório e o controlava durante os bailes, escolhendo a música adequada para cada momento. Organizava os ensaios, fazia os contatos e os contratos com os clubes para as apresentações. Controlava as finanças. Providenciava o transporte. Enfim, exercia a função de liderança, pela ascendência que tinha sobre o grupo. 

Com isto fomos comprando instrumentos e aparelhando o conjunto a ponto de se tornar profissional. Durante muito tempo investimos o dinheiro ganho apenas em instrumentos. Depois de o conjunto estar bem equipado passamos a fazer uma divisão, usando uma parte do dinheiro para o pagamento das despesas, outra para manutenção e renovação do equipamento, e o restante dividíamos igualmente entre todos os integrantes. Assim, à época, éramos todos estudantes universitários que, de um modo geral, andam sempre “duros”, mas nós tínhamos algum para gastar.

Mais tarde, veio se somar ao grupo o César Machado de Oliveira, o “Barulho”, com o seu trombone de vara. O Dirceu trocou a escaleta por um sax e tivemos aí a época áurea do conjunto, que não animava somente reuniões dançantes, mas também os grandes bailes que se realizavam na região, como Campo Bom, Novo Hamburgo e São Leopoldo, como em lugares mais distantes, como Sarandi, Santa Vitória do Palmar ou mesmo Canoinhas e Curitibanos, em Santa Catarina.

E naquela época se tocava mesmo. Eram cinco horas de baile tocando sem parar. Isto quando não contratavam uma hora extra. Não é como hoje, que um bom teclado e um sintetizador fazem tudo que uma banda fazia. Ao longo do baile apresentávamos um show, com músicas, roupas e aparelhos especiais. Chegamos a formar o que se chamou de “GEU Boys Mirim”, garotos mais novos e que depois chegaram a compor no grupo principal, como Mauro Werb Jr., Eduardo Pires e Everton Pires.

Nossa intenção era voltar a nos reunir anualmente depois do encerramento do conjunto, o que se deu em junho de 1972. Porém, a fatalidade bateu forte. Cerca de um mês após o término de nossas atividades, morreu em um acidente automobilístico o João César. E após outro ano, nas mesmas circunstâncias, morreu o César Bauer. Com isto, perdemos o entusiasmo da voltar a tocar, mesmo que informalmente.

O fundamental é a lembrança de tempos maravilhosos da juventude que vivemos, do sucesso e das amizades que fizemos. Orgulho-me de dizer que exerci uma liderança saudável, pois tínhamos um grupo organizado, dedicado, competente e “cara limpa”. Drogas não passavam nem perto. Quem nos viu e ouviu sabe que o GEU Boys foi um orgulho para Taquara.

* Jornalista. Colunista do Correio do Povo e comentarista de Assuntos Internacionais da Rádio Guaíba. 

 



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DESDE 1º DE OUTUBRO 1895