Certezas concretas, verdades voláteis

Certezas concretas, verdades voláteis

Pode ser que a Ivermectina seja elevada à condição de grande aliada no combate ao vírus

Guilherme Baumhardt

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Em 1928, o biólogo e médico britânico Alexander Fleming pesquisava substâncias capazes de eliminar bactérias. Após algumas semanas em férias, ele se deparou, no retorno ao laboratório, com um fungo que se desenvolveu em uma das amostras. E uma substância no fungo havia eliminado os germes. Surgia a penicilina. Décadas depois, nos anos 1990, o laboratório Pfizer buscava novos tratamentos para problemas circulatórios. Os resultados não foram promissores, exceto por um detalhe: a molécula em questão revelou-se o antídoto para a impotência sexual masculina, conhecida hoje pelo nome comercial de Viagra. Atualmente estudos indicam que uma medicação usada no tratamento para diabetes tem potencial para auxiliar pacientes acometidos por doenças do sistema neurológico, como Alzheimer.

Os exemplos acima servem para mostrar que às vezes a ciência mira em um alvo e acerta outro. Não estamos falando de um tiro pela culatra, mas de situações em que nos deparamos com uma descoberta bem-vinda, mesmo que ao acaso. Em uma pandemia, médicos e enfermeiros trabalham como se estivessem trocando o pneu de uma carreta ladeira abaixo. E é dentro deste cenário turbulento que ficamos com a sensação de que mergulhamos em uma era de certezas concretas, construídas ao sabor dos ventos e em tempo recorde, mas colocadas em xeque como verdades voláteis à medida que a pesquisa e a ciência avançam. Não sou médico, muito menos pesquisador da área farmacêutica. Busco apenas provocar a reflexão diante do debate que incendiou o país a respeito do tratamento precoce do coronavírus.

Tudo começou com a hidroxicloroquina. Durante a semana, o médico francês Didier Raoult, o principal defensor da medicação no tratamento da Covid-19, reconheceu que a substância não produz o efeito esperado. Também nesta semana a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) se manifestou e desqualificou o tratamento precoce. Novamente a fogueira das certezas foi acesa. Mas será que estamos diante de convicções indestrutíveis? Vejamos.

Nesta mesma semana, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (ou NIH, na sigla em inglês), que assessora o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, Centers for Disease Control and Prevention) promoveu uma alteração importante a respeito da Ivermectina, a nova catalisadora do debate político. A classificação da medicação para o tratamento do coronavírus melhorou: saiu da posição “contra-indicado” para o “nem a favor, nem contra”.

Pode ser que a Ivermectina seja elevada à condição de grande aliada no combate ao vírus. E pode ser que seja descartada daqui a alguns meses. O mesmo pode ocorrer com a Nitazoxanida, com a Dexametasona ou com outros. Enquanto não surge a medicação 100% eficaz, em emergências mundo afora profissionais de saúde experimentam aquilo que está à disposição. Observam, tabulam dados, focados na expectativa de encontrar o antídoto que todos sonham.

Politizamos o que deveria ser técnico, científico, médico. Temos o “remédio do Bolsonaro”, a “vacina do Doria”. No caso da imunização, estabeleceu-se uma “disputa” entre a Coronavac (iniciativa do governo de São Paulo) e o imunizante de Oxford (opção federal). Felizmente temos excelentes médicos e cabe a eles a orientação. São estes profissionais que avaliam prós e contras e compartilham a decisão com pacientes ou familiares.

Aos que vetam por completo qualquer terapia que ainda esteja em estágio de avaliação, fica o dado do NIH relatado acima. Desejo a estas pessoas que não contraiam a doença e muito menos se deparem com uma internação hospitalar, em UTI, em que talvez sejam confrontadas com a pergunta do médico a respeito do uso das medicações citadas. Teriam invariavelmente de escolher entre o “não há comprovação científica” e aquilo que talvez represente um fio de esperança na luta contra a doença.


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