Faça o que eu digo...

Faça o que eu digo...

Guilherme Baumhardt

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Alô! Governador Silval Barbosa?

- É.

- Tudo bem, o ministro Gilmar Mendes gostaria de falar com o senhor. Posso transferi-lo?

- Positivo.

Entra uma terceira voz na conversa, a voz do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

- Governador, que confusão é esta?

- Barbaridade, ministro. É uma loucura, viu?

- Que coisa. Estou sabendo disso agora.

A conversa gravada em 2015 segue. Silval Barbosa e o magistrado dialogam a respeito de uma ação de busca e apreensão feita na casa do então governador do Mato Grosso.

- Que loucura! Que loucura! Estou indo pro STF e vou conversar com o Toffoli (ministro Dias Toffoli, que havia autorizado a operação da Polícia Federal) – afirma Gilmar.

- É, eu não sei o que é. O advogado está indo amanhã aí para pegar cópia e ver o que é esse dinheiro que eles falam, negócio de quatro milhões. Não sei o que é. E é com isso que fizeram busca e apreensão aqui em casa. – afirma Silval.

- Meu Deus do céu. Que absurdo. Eu vou lá e depois se for o caso a gente conversa.

- Tá bom, então, ministro. Obrigado pela atenção.

- E um abraço, aí, de solidariedade – completa Gilmar Mendes.

O diálogo foi gravado pela Polícia Federal com autorização da Justiça. A princípio, não há crime. Talvez seja revelador de uma proximidade excessiva e pouco recomendada em repúblicas mais desenvolvidas do que a nossa. Tempos depois, em 2017, o mesmo Silval Barbosa selou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, referendada pelo Supremo Tribunal Federal, após tornar-se suspeito de participação em negociações escusas.

A conversa com Silval não foi a única. O mesmo Gilmar Mendes foi flagrado anos atrás também em telefonema com Aécio Neves, quando o tucano entrou na mira de investigadores. Vale lembrar ainda que o mesmo ministro nunca se declarou impedido para julgar – e soltar, no mínimo três vezes – o empresário Jacob Barata Filho, mesmo sendo padrinho de casamento da filha daquele que foi beneficiado pela sua decisão. Cobrado, Gilmar argumentou que não era padrinho, mas sim marido da madrinha.

Nesta semana assistimos a um Gilmar Mendes enérgico. Citando mensagens roubadas – fruto da invasão de telefones celulares por hackers –, o excelentíssimo ministro ligou a metralhadora na direção do trabalho realizado pela Operação Lava Jato e, ao mesmo tempo, colocou em suspeição o ex-juiz Sérgio Moro. O julgamento, que estava empatado em dois a dois, foi interrompido por um pedido de vista do novato Kassio Nunes Marques.

Na última segunda-feira, antes da sessão que começou a discutir o futuro de Moro, um texto do general reformado Luiz Eduardo Rocha Paiva ganhou as redes sociais. O título: “Aproxima-se o ponto de ruptura”. Depois de discorrer sobre a decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações de Lula e enviou o processo novamente para a primeira instância, escreveu o general: “O STF feriu de morte o equilíbrio dos Poderes, um dos pilares do regime democrático e da paz política e social. A continuar esse rumo, chegaremos ao ponto de ruptura institucional e, nessa hora, as Forças Armadas (FA) serão chamadas pelos próprios Poderes da União, como reza a Constituição. Por isso, hoje, é bom lembrar Rui Barbosa: A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.

Pelo que apurei, não há hoje na caserna qualquer desejo de protagonismo político dos militares, salvo os casos que passem pela via democrática. O texto do general Rocha Paiva, porém, não pode ser ignorado. Se o STF continuar esticando a corda, não será surpresa se o movimento ganhar corpo – dentro e fora das Forças Armadas. Quem semeia vento, colhe tempestade.


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