Hipermetropia

Hipermetropia

Um risco à liberdade chamado “Controle social da mídia”, que ganhou destaque após uma declaração de Lula

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Na semana passada tivemos um episódio (mais um) bastante revelador da anestesia que vive parcela considerável da grande imprensa e da opinião pública. Em um intervalo de poucos dias entre o primeiro e segundo evento, uma mesma figura ganhou destaque em jornais, emissoras de televisão, sites e redes sociais: Lula. O prezado leitor, inteligente que é, certamente já fisgou: o colunista falará da ameaça (mais uma), feita pelo ex-condenado, de cercear o trabalho da imprensa.

Qualquer pessoa que preze pela liberdade viu com preocupação a manifestação lulista. “Tenho que fazer uma autocrítica. Nós não tratamos a reforma da comunicação, a regulação (da mídia), como deveria ser tratada. Aprovamos um programa para que a gente pudesse regulamentar os meios de comunicação. Como era fim do ano, eu e o Franklin Martins (ex-ministro da Comunicação) não quisemos dar entrada, pois no próximo ano iria mudar muito deputado e senador. Deixamos para colocar no início do governo da Dilma. Eu não sei por que ‘cargas d’água’ não foi colocado no Congresso esse projeto”, disse o sujeito que pretende disputar as eleições presidenciais de 2022.

Grave? Certamente. Um risco? Não há dúvida. Então o assunto certamente foi debatido à exaustão, mereceu críticas, uma resposta enérgica dos atingidos por uma eventual regulação (censura) midiática? Se você respondeu “sim”, está na hora de rever conceitos. Lula conquistou manchetes, ganhou destaque, ocupou editorias. Mas não pela fala, e sim por uma foto. Sim, uma foto. A imagem foi assunto de páginas de fofoca e ganhou espaço até nas páginas de grandes colunistas políticos do Brasil. No retrato que veio a público, Lula e Janja (sua namorada) aparecem abraçados. E a coxa lulista está à mostra. “Coxa musculosa”, “ex-presidente sarado”, “Lula exibe boa forma” foram apenas algumas das expressões que brotaram e tomaram conta de boa parte do noticiário.

É mais uma prova cabal de que a opinião pública brasileira – auxiliada por parcela considerável da imprensa – é um caso raro de hipermetropia: vê muito bem e em detalhes o barco a vela que cruza o oceano na linha do horizonte, mas é incapaz de enxergar o Titanic que afunda a dois palmos dos seus olhos, mesmo que da casa de máquinas venha um bafo fétido de autoritarismo e censura.

Para tornar a fala do ex-condenado menos indigesta, muita gente já se apressou e puxou o velho e surrado argumento de que o modelo lulista é baseado no que ocorre no Reino Unido e Alemanha. Acredita nessa groselha quem quer. Logo após citar os europeus, qual foi a referência feita por Lula? Ganha uma edição do Granma quem apostou na Venezuela. “Eu vi como a imprensa destruía o Hugo Chávez (ex-presidente da Venezuela). Aqui eu vi o que foi feito comigo”, completou.

A melhor regulação da mídia quem faz é o consumidor – leitor, ouvinte, telespectador. É na mão dele que está o controle remoto para trocar o canal da televisão. É dele a decisão de assinar um ou outro jornal. Cabe a ele ouvir uma emissora de rádio ou outra. E, se um profissional da imprensa ultrapassa a linha – com calúnia, injúria ou difamação –, os caminhos legais já estão bastante consolidados para que o prejudicado busque reparação. “Controle social da mídia” é apenas um nome bonitinho e cheiroso para terceirizar a um grupo de escolhidos e com interesses bastante próprios um poder que deveria ser exclusivamente seu.


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