Ilusão

Ilusão

Ao final, fico com a sensação de que há uma ilusão sendo oferecida ao grande público: a de que a vacina será a solução de todos os nossos problemas

Guilherme Baumhardt

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Nesta semana um ouvinte do “Agora” (Rádio Guaíba) mandou uma mensagem ao programa. O relato era de alguém preocupado. Com dois filhos, ele e a esposa adotaram uma solução caseira para as crianças. Trabalhadores autônomos, com escolas e creches fechadas, sem avós por perto, resolveram que o mais velho, de 14 anos, cuidaria da menor, de apenas três, um cenário que certamente se repete em inúmeros outros lares Brasil afora. “Saio de casa todos os dias rezando para que nada aconteça e torcendo para que nenhum vizinho me denuncie para o Conselho Tutelar. É isso ou meus filhos vão passar fome”, escreveu.

Mesmo com bandeira preta, a educação infantil – leia-se creches – e séries iniciais (1º e 2º ano) estavam autorizados a funcionar. Primeiro fecharam as escolas públicas. Depois, as privadas. O cenário mudou após uma ação ajuizada por uma tal “Associação de Pais e Mães Pela Democracia”, entidade com viés político ideológico bastante claro. Além deles, meteu a colher no assunto também o Cpers, sindicato que representa os professores da rede estadual de ensino. A pergunta óbvia é: o que diabos o Cpers tem a ver com escolas privadas? Pois é, nada. Mas a demanda encontrou respaldo no poder judiciário.

Este tipo de celeuma não é exclusividade nossa. No dia 1º de março, o jornal New York Post estampou a seguinte manchete, em tradução livre: “Líder do sindicato dos professores da Califórnia é taxado de hipócrita após levar filha para a escola”. Matt Meyer, o sujeito em questão, é defensor do “fica em casa” e diz que não é seguro que as crianças voltem para as salas de aula. Mas foi flagrado levando a filha de dois anos para uma instituição privada de ensino de Berkeley.

Na Bahia, a jornalista Priscila Chammas, que concorreu a vereadora em Salvador pelo partido Novo, resolveu comprar briga com o sindicato de professores local. Virou alvo da fúria da turma e passou a sofrer ameaças. Para surpresa de ninguém, muitos dos que dizem defender vidas com o fechamento das escolas foram flagrados em aglomerações ou aproveitando as férias, ops!, quero dizer, os dias de isolamento em locais “paradisíacos”. Felizmente houve reação. No Rio Grande do Sul, pais e mães – muitos deles médicos – se organizaram via redes sociais e criaram um grupo (“Lugar de Criança é na Escola”), que defende a volta às aulas com segurança. Assim como defendem o retorno das atividades escolares, reconhecem como um direito legítimo a preferência de alguns pais por não levar os filhos para as escolas neste momento. Só não endossam que um interesse se sobreponha ao outro.

Se professores acham arriscado voltar para a sala de aula (e em alguns casos isso é uma realidade, especialmente para os chamados grupos de risco), que o façam. Mas não imponham isso como uma bandeira ou condição geral, inclusive para quem decidiu não depender da estrutura do Estado para educar os filhos. Ao final, fico com a sensação de que há uma ilusão sendo oferecida ao grande público: a de que a vacina será a solução de todos os nossos problemas. Ela é necessária e bem-vinda. O vírus, porém, veio para ficar e fará parte das nossas vidas, assim como a gripe. Infectologistas e imunologistas já sinalizam que as mutações e a descoberta de novas cepas tornarão obrigatório o desenvolvimento de novas vacinas, mais atualizadas. As atuais são importantes, ajudam na imunização, mas talvez virem um produto obsoleto em menos tempo do que se imagina. E aí? Qual será o próximo passo? Voltar à vida (e às salas de aula) somente depois do desenvolvimento de uma vacina 100% eficaz, que ande à frente do vírus e se antecipe a mutações que certamente ocorrerão? Esta não é uma opção, ao menos no horizonte de curto prazo.


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