Nossos reitores não decepcionam

Nossos reitores não decepcionam

Fico me perguntando quantos eleitores indecisos foram convencidos pela manifestação pública dos ex-reitores? Quantos mudaram de voto?

Guilherme Baumhardt

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A manifestação quase passou em branco durante a campanha eleitoral, algo preocupante diante do impacto que deveria provocar. À exceção do atual, os últimos cinco reitores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul resolveram abrir voto e publicaram manifestação a favor da candidatura de Manuela D’Ávila à prefeitura de Porto Alegre. Alguma surpresa? Nenhuma. No material de campanha disseram que a candidata apoiada pela extrema-esquerda era “a esperança de uma cidade mais solidária, participativa e inovadora”. E encerrava com um “Somos Manuela 65!”, assim mesmo, com uma exclamação ao final. São livres para isso, mas liberdade também existe para o debate e a crítica. Com todo o respeito que os ilustres professores merecem: haja paciência. Participativa? Por quê? Pela ideia de resgatar o Orçamento Participativo, um “soviete” travestido de ferramenta democrática, de baixa eficiência e representatividade, mas que se mostrou uma competente máquina formadora de “lideranças comunitárias” – curiosamente de maioria esquerdista. Além do mais, o chamado OP concorria e enfraquecia o poder legislativo – Câmara de Vereadores.

Inovadora? Alguns dos lugares mais inovadores do mundo são justamente aqueles que representam a antítese de um governo comunista – exceção feita à Califórnia, estado norte-americano com pendores cada vez mais esquerdistas. De resto, são espaços que transpiram independência. Liberdade e comunismo são como água e óleo.
Chama a atenção o fato de que do outro lado não havia uma candidatura de “extrema-direita”, esse rótulo fácil que encontramos ao tropeçar na rua, dito sem cerimônia e que ouvimos com frequência assustadora em alguns noticiários. Defendeu privatização? Extrema direita. É a favor de mais liberdade para compra de armas por cidadãos devidamente capacitados? Extrema direita. Não, do outro lado estava Sebastião Melo, do MDB, partido que durante anos formou o grupo de oposição à Arena, durante o regime militar. Ainda assim, em uníssono, nossos ilustres ex-reitores resolveram embarcar na canoa (furada) comunista. Mais furada do que a candidatura apenas a pesquisa Ibope, publicada na véspera e que – mais uma vez – errou grosseiramente.

Fico me perguntando quantos eleitores indecisos foram convencidos pela manifestação pública dos ex-reitores? Quantos mudaram de voto? Apoiavam Melo, mas votaram em Manuela? Arrisco dizer que dá para contar nos dedos. De uma mão. O que pode ser um sinal grave, por escancarar, quem sabe, um gigantesco descrédito. A Ufrgs é a principal universidade do Rio Grande do Sul. É uma das principais do país. Ela custa caro, bancada por recursos que saem do bolso de todos os contribuintes, pobres ou ricos. A palavra de um magnífico reitor deveria ter importância. Que peso teria hoje?

A manifestação da campanha escancarou aquilo que dentro e fora de universidade já se desconfiava havia tempo. Trago o assunto à tona porque o Supremo Tribunal Federal está prestes a decidir sobre como se dará a escolha de reitores nas universidades federais. A provocação partiu da Ordem dos Advogados do Brasil, presidida por Felipe Santa Cruz – candidato a vereador no Rio de Janeiro, pelo PT, em 2004. Com as recentes escolhas de Bolsonaro fica clara qual a preocupação. O sistema atual não é perfeito. Uma consulta é feita junto à comunidade acadêmica, seguida de uma eleição no conselho universitário. Uma lista tríplice é formada. A escolha final cabe ao presidente da República. Pode ser, inclusive, o último. Já dei minha sugestão: que os deputados federais daquele Estado votem e escolham, de preferência com base em critérios técnicos e reconhecida capacidade de gestão. Delegar a tarefa para professores, estudantes e funcionários é uma estrada cujo destino é o fracasso. A “vontade universitária precisa ser respeitada” é o que dizem. Pergunto: qual empresa do mundo faz eleição para que funcionários escolham o chefe? Desconheço. Sou egresso da Ufrgs. Lembro do dia em que fui aprovado no vestibular. Foi uma das maiores alegrias da minha vida. A disputa era pesada, algo como 20 candidatos por vaga. Hoje vejo com preocupação o rumo que a universidade tomou nos últimos anos.


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