Problema real, remédio ineficiente

Problema real, remédio ineficiente

Temos um problema. Ignorar que existem casos e situações de racismo no Brasil é tapar o sol com a peneira

Guilherme Baumhardt

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O assassinato de João Alberto Silveira Freitas embrulha o estômago, revolta, causa náusea. Qualquer um com o mínimo de bom senso vê ali um crime, uma covardia. Não há até agora qualquer fato, um depoimento, uma imagem sequer que possa servir de tentativa para justificar o injustificável. João já havia sido imobilizado, estava no chão, quando foi provavelmente asfixiado – conclusão inicial da perícia.
Temos um problema. Ignorar que existem casos e situações de racismo no Brasil é tapar o sol com a peneira.

Se queremos ou não resolver isso, é outra discussão. As soluções apontadas pela esquerda até aqui passam todas pelas tais “ações afirmativas”. E entramos numa seara perigosa, que prevê inclusive a censura. Eu, por ser branco, na visão de alguns, não poderia sequer opinar a respeito do tema. Mesmo que minha opinião seja de repúdio a toda e qualquer forma de racismo ou preconceito. Ser um liberal não basta. Há alguns anos o conceito de “lugar de fala” ganhou força. Sem menosprezar a pesquisa e autores que se debruçam sobre o tema, trata-se de um academicismo que mais afasta do que aproxima.

O psicanalista e colunista do jornal Folha de S.Paulo Contardo Calligaris dedicou um texto recentemente ao assunto. Em síntese: quando nos atemos mais a quem fala e menos no conteúdo, estamos cometendo um equívoco. Negar um argumento com base na cor da pele da boca de quem proferiu a frase é limitante – para não dizer uma burrice. Estamos dando mais peso à forma (ou cor) do que ao conteúdo. Exemplo prático: na condição de branco e de classe média, meu “lugar de fala”, os argumentos que posso levar a um debate estariam obviamente numa condição (moralmente?) inferior ao de um debatedor negro e pobre. E se minha defesa partir de princípios de liberdade e de igualdade de condições, algo que defendo desde sempre? E se meu interlocutor for um defensor de um regime segregacionista? E se, na visão dele, brancos e negros devem mesmo viver em um apartheid, como já vimos na África do Sul?

O “lugar de fala” entra em colapso quando vemos, por exemplo, o atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, disparar críticas ao... Movimento Negro! Camargo, que é negro, pega pesado, carrega nas tintas. É um direito dele, enquanto esgrima com seus opositores, majoritariamente do campo de esquerda, que se coloca sempre em uma condição de exclusividade e monopólio na defesa dos direitos de minorias. Será?

Fernando Holiday, negro, gay, vereador na cidade de São Paulo, foi alvo de um atentado a tiros. Felizmente saiu ileso. Não bastasse isso, já foi chamado também de “capitãozinho do mato” pelo eterno candidato (derrotado) à presidência Ciro Gomes. Não se viu manifestação de grupos de esquerda em defesa do jovem Holiday. Repito: negro e gay.

Por razões políticas, abraçamos bandeiras que mais distanciam do que aproximam. Políticas de cotas (já escrevi sobre isso) nos levam a bretes em que universidades formam tribunais raciais. O caminho não é por aí, mas sim por melhorar o ensino a quem não pode pagar por uma escola privada, hoje ilhas de excelência, muito mais eficientes que o sistema público, ruim, caro (basta olhar o custo por aluno no sistema público na comparação com instituições particulares) e que é o único acessível a pobres – muitos deles negros. A seletividade de determinados grupos políticos, porém, pode nos levar a armadilhas ainda piores. Se você enxerga um crime baixo, vil, covarde o cometido contra João Alberto, no estacionamento de um supermercado em Porto Alegre, temos o mesmo sentimento, que mistura raiva, tristeza. Se além do assassinato houve motivação extra causada pela cor da pele da vítima – algo que a delegada que investiga o caso descarta até aqui –, seguimos no mesmo barco e com indignação ainda maior. Mas se você não vê problema nas agressões sofridas pelo vereador gay e negro de São Paulo, bem, aí talvez tenhamos réguas diferentes. E, você meu amigo, não está nem aí para negros ou gays. Você tem um lado. E ele parece ser exclusivamente político. Se você usa pessoas como bandeiras e combustível para uma causa, a lata de lixo da história lhe espera.


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