Que tal começarmos agora?

Que tal começarmos agora?

Existem duas reformas esperando votação: a administrativa e a tributária. Ou seja, já há trabalho no horizonte

Guilherme Baumhardt

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Vi muita gente empolgada com as vitórias de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados e de Rodrigo Pacheco para o comando do Senado. Há razões para tal. Mas há motivos, também, para relembrar a famosa frase: cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Nenhum dos dois é o candidato dos sonhos daquele Brasil que trabalha e produz. Nenhum deles tem uma ficha de invejar parlamentares europeus, japoneses ou norte-americanos. Marcel van Hattem, quem sabe? Mas Lira e Pacheco são aquilo que a casa oferece para o momento e significam, por enquanto, a chance de projetos importantes serem votados.

Que o Brasil precisa de reformas, todos sabem. Até a esquerda, que vota contra, sabe disso. E a esquerda vota contra porque sabe que modernizar o país talvez signifique para ela nunca mais voltar ao poder, especialmente o Executivo. Ela continuaria elegendo meia dúzia de gatos pingados, com um discurso velho, surrado, da luta de classes, que bebe nas mesmas fontes jurássicas e que segue olhando pelo retrovisor para ver um cada vez mais distante Muro de Berlim. O fato é que na votação das reformas reside a grande interrogação acerca do comando das duas casas.

A hora é agora. Em 2019 tivemos a aprovação da reforma previdenciária. Em 2020, a pandemia bagunçou todos os planos. Em 2022 teremos novamente disputa eleitoral, o que sempre atrapalha e atrasa qualquer discussão. Ou seja, é em 2021 que a coisa precisa acontecer. Do contrário, Bolsonaro corre sérios riscos de seguir o mesmo destino do vizinho Mauricio Macri, na Argentina, que não conseguiu implantar sua agenda e viu a esquerda voltar com Cristina Kirchner e seu poste, Alberto Fernández.

Existem duas reformas esperando votação: a administrativa e a tributária. Ou seja, já há trabalho no horizonte. Além delas, há a necessidade de privatizações, não só para enxugar a máquina e modernizá-la, mas também para pagar a conta do “ano pandêmico”, que não teve um tombo tão ruim na economia quanto muitos imaginavam, mas deixou um saldo a ser pago pelas gerações futuras.

Sempre houve dentro do governo federal uma insatisfação grande com a postura dos agora ex-presidentes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. O primeiro, embora seja ruim de voto, acredita que um dia pode ser presidente da República. O segundo provavelmente voltará ao ostracismo depois de uma gestão em que parecia ser um mero espectro de Renan Calheiros. Eleito para mudar, fez tudo do jeito que Renan faria.

É agora que teremos a prova dos nove para saber se a dupla Maia/Alcolumbre de fato trabalhava contra o Brasil, ou se era a ineficiência política ou de articulação do Palácio do Planalto que trancava a agenda. Como escrevi no início, há razões para otimismo. Renova-se a esperança de votações importantes ocorrendo no Congresso. Se isso não ocorrer, de nada adiantou celebrar a vitória de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco. Não acredito que veremos a privatização de três ou quatro grandes estatais. Talvez uma ou duas. E, quem sabe, a aprovação ainda no primeiro semestre da reforma administrativa. Espero estar enganado e ver muito mais do que isso.

Se não formos além, culpar o presidente Jair Bolsonaro é o caminho mais fácil. É também o mais cômodo para deixar tudo como está e seguirmos na mesma toada. Se temos um Congresso especialmente ruim como o atual – com suas honrosas exceções –, a culpa é de quem o escolheu, ou seja, nós, os eleitores. Acompanhando de perto o que ocorrerá neste ano, quem sabe não começamos agora a debater e decidir quem serão nossos representantes no Legislativo a partir de 2023? Gastamos energia demais pensando no Executivo (prefeitos, governadores e presidente), quando na verdade nossa atenção prioritária deveria estar nas escolhas de deputados e senadores.
Nos últimos anos em termos de Congresso a nossa especialidade foi aprimorar a bagunça. Quando é para esculhambar, ninguém o faz como a gente. Temos talento.


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