Da guerra civil ao Estado palestino

Da guerra civil ao Estado palestino

Conflito entre árabes e judeus só poderá terminar com a constituição de dois Estados

Jurandir Soares

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O atual conflito entre árabes e judeus se deu devido a uma conjunção de fatores. A começar pelo fato de que a Noite do Decreto, que encerra o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, quando eles jejuam de dia e se reúnem nas ruas à noite, coincidiu com o Dia de Jerusalém, que é quando os judeus comemoram a conquista da cidade na guerra de 1967. Nessa ocasião, os judeus mais radicais costumam ocupar a Esplanada das Mesquitas, lugar sagrado para os muçulmanos, onde situam-se as mesquitas de Omar e Al Aqsa, para demonstrar sua superioridade sobre o local. Lógico que os choques se tornaram inevitáveis. Soma-se a isto uma revolta dos palestinos pelo fato de que famílias de sua comunidade estavam sendo objeto de despejo de área no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental. Essas famílias vivem lá desde 1956, quando ali foram assentadas pela Jordânia, que então dominava a área. O lugar agora seria destinado a famílias judias, que alegam que moravam no local antes de 1948, ou seja, antes da fundação do Estado de Israel, quando tiveram que se deslocar. Acontece que a lei israelense é considerada injusta por permitir o retorno a famílias israelenses, mas sem estender o direito a famílias palestinas em mesma situação. A decisão da Corte israelense ficou suspensa, mas não evitou os choques.

Disso tudo se valeu o Hamas, grupo radical palestino situado em Gaza e considerado terrorista por Israel, EUA e União Europeia e que aproveita qualquer motivo para atacar Israel. Mas é o legítimo cutucar a onça com vara curta, porque sempre acaba levando a pior. Porém, não deixa de causar morte e destruição em Israel, embora o que aconteça em seu território seja em proporções muito maiores. Em meio aos distúrbios surgiu a declaração do prefeito de Lod, cidade onde situa-se o aeroporto Ben Gurion, o mais importante do país, temendo uma guerra civil. Isto seria uma novidade em Israel. Mas aí você pode perguntar: o que tem acontecido no país que vive em constante conflito em seu território? Pois o que sempre ocorreu foram confrontos entre judeus israelenses e os árabes palestinos que vivem na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza. Regiões em que se concentraram quando foi criado o Estado de Israel, em 1948. E o que está ocorrendo agora em cidades como Lod é um confronto entre judeus israelenses e árabes israelenses, que são aqueles árabes que resolveram ficar no território de Israel e adotaram a cidadania israelense. O que ocorre é que em várias cidades do país eles saíram às ruas em solidariedade às famílias palestinas sob ameaça de despejo no bairro de Sheikh Jarrah. É uma mobilização sem precedentes desta minoria, que compõe 21% da população do país, que tem direito a voto e que tem inclusive representação no Parlamento. Porém, embora morem e trabalhem em Israel, se sentem discriminados e consideraram que esse episódio de Sheikh Jarrah foi marcante da discriminação e para sua revolta. Daí a preocupação do prefeito de Lod, com uma guerra civil, diante dos enfrentamentos desses árabes israelenses com os judeus israelenses.

Entendo que esse conflito só terminará quando forem constituídos dois Estados: de Israel, com suas fronteiras atuais, e da Palestina, formado por Cisjordânia e Gaza. E ainda que os palestinos reconheçam a existência do Estado de Israel. O que já existe de parte da ala moderada, liderada pelo Fatah, que vive na Cisjordânia, mas não existe por parte do Hamas, que mantém a ilusão de exterminar Israel e tomar conta de todo o território. Foi pouco comentado, mas pouco antes de deixar o cargo o então presidente Donald Trump apresentou um plano de paz para a região, basicamente, nesses moldes. Não foi aceito pelos palestinos, porque não partilhava Jerusalém conforme eles pretendem. Só que também é ilusão querer essa partilha. Israel já declarou Jerusalém sua capital eterna e indivisível. Não há a mínima perspectiva de mudança desse posicionamento. Aos palestinos foi dada a alternativa: formar um Estado sem Jerusalém ou continuar sem uma pátria e mantendo uma luta desigual. Optaram pela segunda alternativa.

Mais sobre o conflito no livro de Jurandir Soares “Israel x Palestina”, à venda na Livraria do Correio do Povo.

 


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