Equilíbrio na política externa

Equilíbrio na política externa

A expectativa sobre a atuação do novo chanceler brasileiro

Jurandir Soares

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Se perguntarmos qual é a função de um Ministério das Relações Exteriores, poderemos ter várias respostas, mas uma delas é fundamental: manter um bom relacionamento com o maior número possível de nações. Já no elenco de perguntas sobre o que não fazer, se poderia colocar como prioridade não brigar com os principais parceiros comerciais do país. Vê-se que esses dois pressupostos não foram observados pelo até há pouco chanceler brasileiro Ernesto Araújo. À frente do Itamaraty, ele se caracterizou por uma aliança incondicional não só com o governo de Donald Trump, mas, o que é pior, com o candidato Donald Trump. De outra parte, por críticas fortes à China, principal comprador dos produtos brasileiros. Como se esperava, acabou caindo por força dos setores que se sentiram prejudicados com a sua atuação, com destaque para o agronegócio, que tem na China o seu principal comprador.

Fica a expectativa, portanto, com relação à atuação do novo chanceler Carlos Alberto Franco França, que é apresentado como um diplomata de pouca experiência. No entanto, já se pode dizer que ele tem um grande mérito que é a moderação, elemento fundamental para o cargo. Embora não tenha ocupado nenhuma embaixada como titular, não é um neófito. Já serviu na Bolívia por duas vezes, no Paraguai e nos Estados Unidos, onde foi chefe de gabinete de um de nossos mais experimentados embaixadores, Rubens Barbosa.

Pois é justamente com os Estados Unidos que as relações do governo brasileiro se tornaram mais complicadas, tanto pelos posicionamentos do ex-chanceler Araújo quanto do presidente Jair Bolsonaro. Felizmente, o governo Joe Biden parece não ter dado importância para esses antecedentes e tem se manifestado a favor de ter o Brasil como um parceiro importante. Não só para os negócios, conforme historicamente tem sido, mas para as questões do clima. Biden elegeu o combate ao aquecimento global como uma das prioridades de seu governo e disse que quer ter o Brasil como parceiro importante. Tanto que nesta semana oficializou o convite para que o presidente Bolsonaro participe da cúpula do clima que os EUA irão pilotar, de forma remota, nos dias 22 e 23 de abril. O evento reunirá ainda o chinês Xi Jinping, o russo Vladimir Putin, o francês Emmanuel Macron e todos os demais líderes das principais potências mundiais. Lógico que o Brasil será cobrado sobre a Amazônia. Hora, pois, de o país mostrar ao mundo um plano concreto de preservação daquela área, para deixar de ser visto como um pária mundial no que toca ao meio ambiente.

Quanto à China é preciso uma relação pragmática. A questão da origem do vírus cabe à Organização Mundial da Saúde (OMS) investigar. Temos não só que manter os negócios, mas, ampliá-los. A China hoje se tornou o motor da economia mundial e deu um salto tecnológico. Seu sistema de telefonia 5G é o mais avançado do mundo, então, não podemos impedir sua entrada no país. Até porque nossos sistemas 3G e 4G já são da chinesa Huawei. E, além disso, os chineses são grandes investidores em setores de infraestrutura, dos quais somos carentes. Então, precisamos atraí-los e não afastá-los.

É este o papel que se espera do novo chanceler brasileiro. Porém, ele precisará ter cuidado para não se deixar dominar pela figura do deputado Eduardo Bolsonaro, que não conseguiu indicação para o cargo quando seu pai assumiu o governo, mas que continua querendo dar as cartas no setor. Não podemos ter outro “chanceler do B”, como tínhamos com Marco Aurélio Garcia à época dos governos do PT.

 


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