EUA e China negociando, mas desconfiando

EUA e China negociando, mas desconfiando

Divergências entre as duas potências mundiais são muito grandes

Jurandir Soares

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Depois de sete meses, os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden, e da China, Xi Jinping, mantiveram um contato telefônico para, como divulgou a Casa Branca, “evitar que as divergências acabem em conflito”. Já segundo a mídia chinesa, essas divergências vinham causando “sérias dificuldades nas relações”. Uma conversa amistosa entre chefes de governo de duas potências como EUA e China é sempre importante para dirimir dúvidas. No entanto, as divergências hoje entre os dois países são muito grandes.

Biden deixou de lado pontos de política externa praticados pelo seu antecessor Donald Trump, como a ideologia do “America First”, e retomou o multilateralismo, especialmente no que toca às relações com a Otan, esfriadas ao tempo de Trump. Mas a política para com a China, assim como para com a Rússia, não se trata de uma questão de governo. É questão de Estado, a ser praticada por quem quer que esteja à frente da Casa Branca. Trump implantou uma guerra econômica com Pequim que segue sendo mantida por Biden. Assim como também a campanha para impedir que a chinesa Huawei expanda a sua tecnologia 5G para países aliados das Américas como o Brasil, ou da Europa como o Reino Unido. Uma tarefa que não é fácil, porque não há uma empresa norte-americana capaz de competir nessa área, onde, aqui no Brasil, por exemplo, a Huawei já é responsável pela maior parte das tecnologias 3G e 4G. Washington tem que apostar na sueca Ericsson ou na finlandesa Nokia como concorrentes da chinesa.

Outra área em que está se dando uma disputa muito grande é na produção de chips. Praticamente todos os produtos eletrônicos, atualmente, dependem de chips e semicondutores para funcionar. Desde itens básicos do dia a dia, como carros, celulares e computadores, até as mais avançadas tecnologias como Inteligência Artificial, foguetes, drones e caças militares. Assim, dominar a tecnologia dos semicondutores no século 21 é o mesmo que foi dominar o petróleo no século 20. Hoje, três empresas despontam nessa produção: a taiwanesa TSMC, a maior do mundo, seguida pela sul-coreana Samsung e pela norte-americana Intel. Ou seja, pelo menos nessa área há uma empresa norte-americana competindo. Hoje há uma disputa internacional muito forte neste setor. Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e União Europeia estão fazendo grandes investimentos nesse segmento, mas a China está querendo sair na frente, tendo anunciado seu ambicioso projeto “Made in China 2025”, com um orçamento de 200 bilhões de dólares, pelo qual pretende produzir até aquela ano ao menos 70% dos semicondutores utilizados em suas fábricas. Atualmente, esse volume vem de Taiwan.

Porém, o ponto mais crítico das relações sino-americanas hoje está no mar do Sul da China. Área que Pequim entende que é parte de suas águas territoriais, mas que tem extensões reivindicadas por seus vizinhos como Vietnã, Indonésia, Taiwan e Filipinas, entre outros. Dentro de sua política de Estado, Washington vem realizando constantes manobras militares navais naquela região. Começaram com Trump e seguem com Biden. E agora os norte-americanos estão tratando de ampliar a área de apoio nessa contenda, trazendo para o seu lado a Austrália. EUA e Reino Unido decidiram armar aquele país com submarino de propulsão nuclear. Algo que foi criticado tanto por um parceiro ocidental, a França, que perdeu o contrato que tinha com a Austrália, como pela China, cujo porta-voz da chancelaria disse que o anúncio põe em risco a paz e a estabilidade na região. Enfim, as conversas para um entendimento entre Washington e Pequim avançam, porém as corridas por tecnologia e por poder militar se dão em velocidades muito mais rápidas.


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