Uma impensável aliança

Uma impensável aliança

Afeganistão poderá ainda criar laços com os Estados Unidos, depois de serem corridos do país?

Jurandir Soares

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O mundo acompanha com expectativa como se estrutura o Afeganistão após a retomada do poder pelo Talibã. Haverá moderação conforme o prometido ou o retrocesso será total? Pelo que se tem observado, temos um pouco de cada coisa. As mulheres puderam continuar estudando, inclusive na universidade, desde que as aulas sejam ministradas também por mulheres. Podem também trabalhar. Só que esta questão do trabalho é relativa, porque uma moça que era âncora de uma tevê estatal foi detonada de seu cargo. Isto se deu porque no seu trabalho havia a interação com homens. Então, ainda predomina muito atraso.

Agora, o que marcou foi o desfile dos talibãs com veículos norte-americanos e portando armas norte-americanas. Assim como os soldados talibãs que passaram a patrulhar o aeroporto de Cabul, vestindo os trajes dos militares norte-americanos. O fato é que os talibãs ficaram muito bem armados. Desde os avançados helicópteros Black Hawk até óculos de visão noturna, passando por aviões de combate. Para os Estados Unidos é interessante que o Talibã esteja bem armado, para combater o inimigo maior que apareceu na região, o EI-K, Estado Islâmico Khorasan, versão afegã do temível e nefasto Estado Islâmico, responsável pelo atentado que matou cerca de 200 pessoas, inclusive 13 soldados norte-americanos durante a retirada de Cabul.

Já para o Talibã é importante manter boas relações com os Estados Unidos, por interesses financeiros. Querem a liberação pelo FMI de um empréstimo de 500 milhões de dólares, que havia sido concedido para o governo anterior e que o dedo do Tio Sam pode bloquear. Assim como também querem o acesso às reservas do Afeganistão no exterior, avaliadas em 9,4 bilhões de dólares. E quem está fazendo a intermediação nessas negociações é o Catar, que já foi o mediador do acordo que o então presidente Donald Trump firmou com o Talibã, em fevereiro de 2020, e que teve como sede a cidade de Doha. Não é sem razão que, após a saída norte-americana, o primeiro avião a pousar em Cabul foi o do Catar, levando técnicos para trabalhar na reconstrução do aeroporto da capital.

Assim é que, poucos dias depois da humilhante retirada dos Estados Unidos do Afeganistão, dá-se uma impensável aliança com aqueles que os forçaram a sair correndo do país.

 


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