O risco argentino

O risco argentino

A fuga de capitais não para, as reservas internacionais despencaram, e o governo argentino insiste no rumo socialista

Rodrigo Constantino

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Que inveja de quem tem um presidente! A frase foi dita pela cantora Zélia Duncan quando Alberto Fernández, presidente da Argentina, anunciou medidas drásticas de isolamento e controle para conter o avanço do coronavírus. Nossos artistas e intelectuais sempre demonstraram encanto por um típico governante autoritário latino-americano. Para contrapor uma figura dessas ao nosso presidente Bolsonaro, então, acusado de obscurantista e inepto na crise da pandemia, a tentação era irresistível.

A Argentina virou, para muitos, um exemplo de conduta pautada pela ciência, enquanto o Brasil ficava largado ao caos. Ocorre que os óbitos no país vizinho seguem em alta, batendo novos recordes, e a Argentina se transformou num dos patinhos feios do mundo. O lockdown mais rigoroso do planeta não produziu o efeito desejado, aparentemente. A tal “ciência” não era muito científica, pelo visto. Não obstante, há pouca gente falando disso. Por que será?

Pergunta retórica, claro. Sabemos a resposta. Falar do caso argentino implica reconhecer muitos erros grosseiros dos nossos jornalistas, aqueles que endossavam as receitas mais radicais da Seita da Terra Parada. Então quer dizer que manter todos trancados em casa não evita mais mortes? Além de tudo produz uma catástrofe econômica, já que o PIB argentino caiu quase 20% no segundo trimestre? Ou seja, enorme estrago sem o devido benefício na saúde?

Isso para não falar do restante. A fuga de capitais não para, as reservas internacionais despencaram, e o governo argentino insiste no rumo socialista, controlando preços, aumentando impostos, afugentando investidores. Ninguém poderá mostrar surpresa quando o destino argentino for semelhante ao venezuelano. E não custa lembrar que Chávez e mesmo Maduro foram vistos por nossos intelectuais, artistas e jornalistas como “estadistas” em busca da “justiça social”. A esquerda nunca aprende.

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A tragédia argentina, em construção bem diante dos nossos olhos, serve de alerta para o risco de um governo supostamente liberal que trai suas bases. Macri foi eleito com uma plataforma reformista, abandonou o projeto no meio do caminho, e o Foro de São Paulo voltou ao poder, com o “poste” de Kirchner no comando. Bolsonaro tem usado o caso do vizinho para lembrar que seus eleitores de direita são reféns do seu governo, pois a alternativa é a volta do PT.

O presidente tem um ponto, e merece reconhecimento pela sinceridade. As críticas de sua base eleitoral aumentaram após a escolha do substituto de Celso de Mello para o STF. Quem atacar demais pode estar ajudando para a volta da esquerda radical. Mas a ótica pode ser outra também: Bolsonaro, ao se afastar de suas promessas de campanha, está alimentando o risco da volta do PT. E isso todos devemos evitar ao máximo, por motivos óbvios!


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