Abaixo da crítica
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Abaixo da crítica

Na maioria do banheiros públicos de Porto Alegre, a situação passa longe da ideal. Enquanto em alguns as condições de higiene e as instalações se mostraram bastante adequadas, em outros o retrato corresponde ao imaginário de que são lugares em que se deve torcer para nunca precisar entrar

Por
Carlos Corrêa (colaboração de Caroline Grüne)

“É um serviço aquém do que a gente gostaria de entregar.” Assim o diretor da Divisão de Limpeza e Coleta do DMLU, Leandro Obelar, define a situação dos banheiros públicos em Porto Alegre. Espalhados por várias regiões da Capital, um total de 37 sanitários recebe milhares de usuários diariamente. Seria saudável, portanto, supor que os banheiros públicos oferecessem condições mínimas para os seus usuários. Seria, mas está longe de ser.

Ao longo das últimas três semanas, a equipe de reportagem do Correio do Povo percorreu todas as unidades listadas no site oficial da prefeitura e conversou com usuários, zeladores e autoridades para verificar como estão os sanitários da Capital. O saldo não poderia ser mais heterogêneo. Enquanto, em algumas unidades, as condições de higiene e as instalações se mostraram bastante adequadas, em outras o retrato faz jus ao imaginário de que banheiros públicos são lugares em que se deve torcer para nunca precisar ir.

A má notícia para o porto-alegrense é que mais de dois terços dos locais visitados mostraram estar muito abaixo do que se imagina como aceitável, por problemas de higiene ou por questões de (falta de) manutenção, como portas que não fecham e falta de luz. Além disso, oito dos 33 (quatro estão desativados) receberam a nota mínima, com base nos parâmetros estabelecidos pela reportagem.

 

O critério utilizado pelo CP para chegar às notas baseou-se em cinco fatores. O primeiro deles é a higiene e vai desde as condições de limpeza do local até o odor. O segundo é manutenção e avalia aspectos como as portas, torneiras, pias e assentos. O terceiro é a presença de um zelador cuidando do sanitário. O quarto é a iluminação e, por fim, o quinto é a oferta de papel higiênico e papel para as mãos. A partir disso, a reportagem utilizou-se da figura de estrelas para montar um ranking dos banheiros públicos de Porto Alegre, sendo uma estrela a pior nota e cinco a melhor.

Como será abordado neste texto mais adiante, todos os sanitários da Capital têm por norma não disponibilizar papel higiênico para os usuários. Mais que isso, os zeladores e banheiristas que o fizerem por conta própria correm risco de punição. Sendo assim, a nota máxima a ser atingida seria de quatro estrelas. E quase nenhum chegou lá.

 

 

De todas as localidades visitadas, apenas uma alcançou as quatro estrelas: o banheiro da Praça Shiga, no bairro Passo D’Areia. A praça de inspiração japonesa é constantemente utilizada como cenário para ensaios fotográficos de casais de noivos ou de gestantes. O lugar é cercado e tem horário de abertura e fechamento. No sanitário ali localizado, o espaço é grande tanto no banheiro masculino como no feminino e se destaca a higiene, assim como a manutenção das portas, pias e assentos dos vasos. Além dessa unidade, outras oito apresentaram boas condições: Belém Novo I, Brique I, Lami III, Parque Mascarenhas de Moraes, praças Dom Feliciano e Guarujá e os viadutos José Eduardo Utzig e Mendes Ribeiro.

Em geral, até mesmo o aspecto visual nelas destoa da grande maioria dos demais sanitários de Porto Alegre, com paredes de azulejos brancos sem nenhum tipo de pichação em alguns dos casos. Outro aspecto em comum é que todas têm luz elétrica. Também contradizem a lógica de que locais mais movimentados apresentam banheiros mais sujos pela dificuldade de manter a limpeza. “Em dia de jogo do Grêmio, isso aqui fica uma correria danada, enche de gente aqui no parque”, revela Vanderlei Rolim, zelador do banheiro no Parque Mascarenhas de Moraes. Ele e os demais zeladores se revezam e fazem questão de cuidar com apreço, a ponto de plantar mamão, pimentão e boldo em uma horta improvisada. Por conta própria, Vanderlei também comprou tinta e aos poucos foi pintando a fachada para cobrir pichações de outros tempos. “É bom trabalhar em um lugar que está limpo, né?”, justifica.


Abaixo das condições mínimas

Foto: Mauro Schaefer

O problema é que os nove sanitários citados foram honrosas exceções em um contexto mais amplo. Na outra ponta, algumas unidades não apresentam as condições mínimas de uso, casos dos Terminais Conceição, Nilo Wulff e Parobé, Praças México, Arnaldo Balvê e da Alfândega, Ipanema e Parque da Harmonia.

Destes, o sanitário do Terminal Conceição talvez seja aquele que mais se aproxima do estereótipo do banheiro imundo, com piso molhado, canos despejando água diretamente no chão, portas que não fecham e, acima de tudo, um odor que beira o insuportável. Não por acaso, afasta muitas das pessoas que por ali circulam. “Passo por aqui todos os dias para pegar o ônibus. Não teria nem coragem de entrar em um banheiro público. O cheiro é ruim mesmo de longe”, justifica a estagiária Débora de Souza.

As reclamações não ficam restritas aos usuários. Os próprios zeladores e banheiristas descrevem as dificuldades em trabalhar em locais que seguidamente beiram a insalubridade. Relatos de unidades onde a luz não existe há meses são constantes. Em um dos casos, na Praia do Lami, a reportagem encontrou dois funcionários, à tarde, em frente a um dos banheiros.

Não à toa, a jornada de trabalho de 12x36h, em que os banheiristas trabalham um dia e folgam no outro, exige que se crie um ambiente propício para encarar o tempo. É notável o esforço para que os locais sejam agradáveis. Extrapolando suas funções, há banheiristas que gastam do próprio bolso comprando, por exemplo, lâmpadas para os banheiros e até desempenhando papéis de marceneiros para criar mesas para refeições. “Não adianta a gente ficar aqui que nem uns morcegos para virar comida do mosquito da dengue”, reclama um dos funcionários, que prefere não se identificar, sobre a obrigatoriedade de ficar no local até 20h, sem luz, visto que por volta das 18h já é noite.

Na mesma praia, no extremo sul da Capital, a falta de luz obriga os funcionários a ficarem do lado de fora dos banheiros, criando um novo desafio: enfrentar o vento e o frio nessa época do ano. Em outro banheiro, que sofre dos mesmos problemas, os funcionários foram incisivos: “Quando anoitece, vamos embora. Não tem como ficarmos aqui nestas condições”.

Há ainda a falta de locais para alimentação em algumas unidades. Em tese, isso não poderia acontecer. Por lei, é obrigatório, em estabelecimentos com menos de 30 empregados, a existência de local para refeições. Rogerio Uzun Fleischmann, procurador do Ministério Público do Trabalho, afirma que a inexistência destes ambientes em vários banheiros de Porto Alegre é passível de denúncia.

Da mesma forma, de acordo com os artigos 175 e 176 da CLT, é obrigação do empregador proporcionar iluminação adequada e conforto térmico aos trabalhadores. Do contrário, também cabe denúncia. Aqui vale ressaltar que todos os banheiristas recebem um adicional de 40% no salário por trabalharem em condições de insalubridade, um conceito utilizado para hipóteses em que medidas individuais ou coletivas de saúde e segurança não eliminem os agentes nocivos à saúde ou não os reduzem a limites de tolerância. Nestas hipóteses, é pago adicional.

Fleischmann afirma, porém, que o objetivo não deve ser o pagamento do adicional, “mas a redução ou eliminação dos agentes nocivos”. A respeito da falta de luz no sanitário do Lami, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) alega que o problema ali ocorreu por furto de cabos. O que, diga-se de passagem, está longe de ser caso isolado. No sanitário do bairro Ipanema, na avenida Guaíba, houve furto da rede subterrânea. Os reparos estão em processo de contratação de uma empresa terceirizada, mas os prazos dependem da liberação da Secretaria da Fazenda do município.

A rotina de furtos é tamanha que acaba tendo reflexos na hora em que a prefeitura lista os materiais a serem repostos. “Para as portas, estamos buscando alternativas que não tenham tanto valor de mercado para não roubarem”, revela Leandro Obelar. De acordo com ele, todo e qualquer material que seja de metal é alvo em potencial para roubo, seja trincos ou torneiras. “Vocês perceberam que em quase todos os banheiros as torneiras são de plástico? É por causa disso, dos furtos”, observa.

No entanto, nem mesmo outros materiais estão livres, tanto é que portas inteiras foram roubadas de uma das unidades da avenida Borges de Medeiros. No banheiro da Praça Souza Gomes, na Zona Sul, grades tiveram que ser colocadas há menos de um mês nas janelas do espaço reservado aos zeladores porque o lugar havia sido arrombado e tudo que passava pela janela foi levado.

Outro problema verificado pela reportagem é que em nem todos os banheiros públicos havia um casal de zeladores. De acordo Obelar, a ideia é que sempre tenha um zelador e uma zeladora, mas eventualmente isso pode não acontecer por questões de demanda de outras unidades. “Às vezes, a mulher já precisa ter coragem de vir aqui sem zeladora. Chega aqui e não tem luz. Se fosse minha filha, na boa, não deixaria entrar”, afirma outro zelador que preferiu manter-se no anonimato.


Acabou o papel

Foto: Mauro Schaefer

No ranking de reclamações, no entanto, a ausência de energia elétrica e os problemas de higiene não chegam sequer perto de outra queixa dos usuários: a falta de papel higiênico. “Chegam a ligar para cá xingando. Já houve casos de gente dizendo que ia nos processar porque não tinha papel nos banheiros”, revela Imanjara de Paula , presidente da Cooperativa de Trabalhadores Autônomos das Vilas de Porto Alegre (Cootravipa), empresa terceirizada responsável pela limpeza dos sanitários na Capital.

Neste caso, o processo judicial contra a Cootravipa não daria em nada por um simples motivo: por contrato, a empresa não é obrigada a fornecer papel. Na verdade, a opção pelo não fornecimento é do DMLU e não é nova, existe há pelo menos 10 anos. De acordo com o diretor da Divisão de Coletas e Limpeza, isso ocorre em parte por questões de manutenção – muitos usuários colocam o papel dentro do vaso sanitário, resultando em sucessivos entupimentos – e pela dificuldade em manter o controle.

Obelar admite a validade da reclamação dos usuários, mas observa que nem mesmo deixar o papel sob os cuidados dos zeladores é uma alternativa. “Aí eu estaria mudando o objeto do contrato, que hoje é só para limpeza. O novo contrato prevê a distribuição de alguns materiais de limpeza, mas não papel higiênico. E é complicado de mensurar. Se o rolo fica dentro do sanitário, fica difícil controlar. Se fica com o zelador, fica ainda mais difícil de mensurar o quanto cada pessoa vai utilizar. O estudo é viável, mas não se chegou a um caminho ainda."

Em quase todos os banheiros públicos de Porto Alegre existem cartazes com uma mensagem clara: “É proibida a venda e a distribuição de papel higiênico. Reclamações, ligue 156”. O problema, segundo os zeladores, é que a população em geral não tem essa informação. E a ida a um banheiro não é necessariamente uma atividade programada, quem vai é porque precisa. “Se chega uma pessoa idosa, uma criança, uma gestante, não vou dar? É desumano. Eu dou, paciência”, afirma um dos banheiristas.

O colega ao seu lado revela que no início da semana passada, contudo, houve uma reunião na Cootravipa em que foi reforçado que esse tipo de ação é proibida. “Eles disseram que se a gente acha que está fazendo isso escondido, é um engano, porque eles vão ficar sabendo. E se pegarem, a pessoa vai para a rua sem dó.”

Questionada sobre a existência do encontro, a presidente da empresa confirma, mas diz que o tema era outro. “A reunião que tivemos foi para falar sobre o novo contrato. Mas sim, tivemos uma reunião há uns 10, 12 meses em que foi reforçado que isso era proibido. Somos bem criteriosos e temos um estatuto interno em que as normas precisam ser seguidas. Eventuais punições passam por um conselho de ética, é um processo interno nosso”, afirma Imanjara, que admite, no entanto, o problema causado pela falta de papel. “A única solução seria a prefeitura fornecer ou licitar serviços como esse fornecimento. Ninguém está programando ir ao banheiro. O que fazer? Bom, teria que ter uma cota, isso teria que estar planilhado.”

A nota baixa no ranking elaborado pelo Correio do Povo pode dar a impressão de que uma parcela significativa dos banheiros públicos está neste estado em decorrência do trabalho dos zeladores e banheiristas. Tal interpretação não poderia ser mais equivocada. Na grande maioria dos casos em que a unidade mostra-se abaixo do que se imagina como ideal, o quadro se dá apesar do esforço dos responsáveis. Não por acaso, os fatores que mais contribuíram para as notas serem mais baixas são falta de luz e de manutenção, itens que não dependem dos zeladores.

A rotina varia de acordo com a demanda de cada unidade, mas em geral os lugares passam por limpezas pelo menos três vezes ao dia. Em um dos sanitários do Brique da Redenção, por exemplo, o zelador revela que esse número passa para cinco limpezas por dia aos finais de semana, quando o movimento é bem maior, além de uma mais encorpada toda segunda-feira.


Empenho dos zeladores

Foto: Mauro Schaefer

Na Praça Dom Feliciano, o fluxo de pessoas é grande em virtude da proximidade com o Hospital Santa Casa. Zelador há oito anos ali, Edegar Santos da Silva fala com orgulho do local, que ele classifica como um dos mais limpos de Porto Alegre. “Vão reformar o meu banheiro?”, disse esperançoso ao perceber a chegada da reportagem.

De acordo com ele, até pouco tempo, o maior problema era a violência na praça. “Teve época que estava muito complicado, com muitos assaltos. Depois, de um ano para cá, começou a melhorar.” Casos de violência pipocam nos relatos. “Esses tempos pegaram uma pessoa no banheiro da Borges.” “Teve esfaqueamento no do Terminal Parobé.” À Brigada Militar, registros assim são frequentes, ainda que poucos se confirmem. “Em uma ocasião ou outra acontece algum episódio, mas as pessoas não registram queixa e trabalhamos com base em dados estatísticos”, afirma o tenente-coronel Luciano, do 9º Batalhão, que monitora a região Central da Capital.

Para lidar com situações mais tensas, zeladores e banheiristas usam dois caminhos. O primeiro é o diálogo. “Tem que agir com diplomacia, afinal de contas, violência só gera mais violência. E a gurizada entende”, relata um zelador. A outra saída é a invisibilidade. “Sabe como funciona, a gente tem que ser cego, surdo e mudo às vezes”, afirma um dos banheiristas. “Não me assusta mais porque já estou acostumada. Quando eu vejo que começa uma briga, eu saio de perto, vou para outro lugar. Preciso trabalhar aqui no dia seguinte, vou fazer o quê?”, justifica uma zeladora.

O jogo de cintura para lidar com determinadas situações transcende a questão da violência. Além da ausência de manutenção, a grande reclamação dos zeladores é a falta de respeito de quem utiliza os sanitários. “Não é raro, as pessoas fazem suas necessidades no chão, nas lixeiras, passam nas paredes. Não tem o que fazer, vamos lá e limpamos, fazer o quê?”, lamenta uma banheirista que trabalha na Zona Sul.

Um dos banheiros públicos do Parque da Harmonia conta com chuveiros (na verdade canos de onde sai água fria), o que atrai moradores de rua. “Têm muitos que fazem bagunça, querem arrumar confusão, lavar roupa embaixo do chuveiro, o que não é permitido. A gente tem que saber lidar. Mas teve colega que não pode mais trabalhar aqui porque foi ameaçado com faca”, conta Alexandre Corrêa, zelador no local.


Unidades fechadas

Foto: Mauro Schaefer

Ao longo do levantamento do CP, foram encontradas quatro das 37 unidades fechadas: ABC, na Restinga; Belém Novo I, no Belém Novo; e Borges de Medeiros II e Parque da Harmonia II, no Centro. As razões, de acordo com o DMLU são bem distintas. Em dois casos, Belém Novo e Harmonia, o fechamento é sazonal e, quando a demanda exige, a reabertura é feita. O zelador responsável pela unidade na Zona Sul explica que, aos finais de semana, quando há mais fluxo de público, o banheiro é aberto. “Porque aí lota e não tem como deixar fechado”, diz. De acordo com ele, que preferiu não se identificar, o sanitário está em boas condições. “Luz tem sim. Só não tem no feminino”.

Já no caso do Parque Harmonia, o entendimento do DMLU é que não há a necessidade de dois banheiros abertos durante grande parte do ano, até para não gastar com pessoal. Quando informado, no entanto, que, no dia do levantamento do CP, havia no local um zelador para a unidade fechada, Obelar disse estranhar o fato. Posteriormente, a assessoria de comunicação do órgão entrou em contato com a reportagem para afirmar que foi ao local e não havia verificado a presença de zelador ou banheirista para a unidade fechada.

No caso do banheiro da avenida Borges de Medeiros, o fechamento não é definitivo. Enquanto uma das unidades, na parte de baixo do Viaduto Otávio Rocha, próximo à rua Jerônimo Coelho, permanece aberta, a outra, quase na esquina com a rua Fernando Machado, está desativada para estudo de revitalização. As análises de custo por parte do município começaram há um mês, mas não há prazo para a reabertura.

O último caso é do sanitário da rua Arisoly Fagundes, no bairro Restinga. De acordo com moradores da região, a unidade está fechada há mais de um ano. Na verdade, o comerciante Ismar Almeida denuncia que “uma pessoa tem as chaves” e que apenas clientes dessa pessoa podem utilizar. “Já entramos com pedido, não precisa nem zelador, nos comprometemos a cuidar, mas a prefeitura alega que dá muita despesa.” Conforme o DMLU, uma equipe foi enviada ao local e a fechadura foi trocada, mantendo-o desativado.