Como Waze e outros apps mudam a relação com o trânsito
capa

Como Waze e outros apps mudam a relação com o trânsito

Uso dos aplicativos facilita a mobilidade, mas também lança dúvidas sobre a utilização dos dados disponibilizados por poder público e cidadãos (foto: Ricardo Giusti)

Por
Samantha Klein

Depois de uma completa mudança de vida aos 50, Andrea Medina não pretende mais trocar de profissão. A transformação começou quando ela voltou do Rio de Janeiro para Porto Alegre e se viu sem emprego e renda. Acostumada a cuidar de crianças, passou a cuidar dos passageiros que transporta. Sem nunca ter utilizado GPS antes de trabalhar como motorista de aplicativo, ela teve avaliação máxima da empresa em que atua após um ano.

“Depois de meses desempregada, aluguei um carro, instalei o aplicativo e comecei a dirigir conhecendo pouco da cidade”, disse. A condutora admite que é dependente do GPS, utilizando o Google Maps diariamente, mas pretende instalar também o Waze. “Nos horários de pico o GPS é fundamental porque ele te indica as melhores ruas a serem percorridas por dentro dos bairros e te faz evitar congestionamentos”.

Mesmo sem ainda utilizar o Waze, Andrea sabe que um colega que trabalha como motorista dos apps encontrará, às 18h de qualquer dia da semana, aproximadamente 7 mil Wazers e mais de 500 alertas próximos no bairro Bom Fim de Porto Alegre. Além de mostrar os pontos de fluxo mais carregados, pipocam na tela do celular avisos sobre buracos na região e anúncios. Endereços de postos de gasolina, localização de médicos, um motel, drive-thrus e um sushi conceituado são acessíveis a um clique. Basta acessar o logo do estabelecimento e seguir o percurso sugerido até o restaurante escolhido pelo passageiro. 

Mais tarde, ao voltar para casa ao final da jornada de 12h, o motorista que usa o aplicativo Waze nem precisa escrever qualquer endereço, já que esse está salvo no sistema. Com o lema “vamos vencer o trânsito juntos”, o Waze “indica a melhor rota com ajuda de outros motoristas”, segundo a definição da empresa. Para melhorar o seu desempenho, companhia israelense comprada por 1,3 bilhão de dólares pela Google, tem parcerias com mais de 70 cidades brasileiras. O acordo permite que as prefeituras ajudem o motorista com a inserção de bloqueios programados de vias. 

Com funcionalidade diferente, mas convergente, a chinesa Didi, detentora da 99, chegou com um novo produto em Porto Alegre. Ao atender um chamamento público da Prefeitura realizado em 2017, a gigante de tecnologia inovou ao criar um mapa que mostra os pontos críticos de trafegabilidade da cidade com base na movimentação dos carros que já trabalham para a empresa.

Mapa de Fluidez mostra sinaleiras críticas e pontos onde trânsito é normal

“A proposta era elaborar um mecanismo para analisar os semáforos e a formação de filas, assim como a velocidade média de tráfego em cada rua. Nós fornecemos a geolocalização de cada uma das sinaleiras e eles construíram esse mapa em cima dessa base. Hoje conseguimos ver a formação das filas em cada sinaleira e modificar os tempos de verde com base nessas informações precisas”, destaca o gerente de inovação da Empresa Pública de Trânsito e Circulação (EPTC), Augusto Langer. 

As parcerias firmadas pela gestão pública com as gigantes de tecnologia não têm custo. Além disso, as companhias se comprometem em não expor qualquer tipo de dado. “Particularmente não tenho preocupação nenhuma já que disponibilizamos informações públicas do setor de eventos. Quanto à parceria com a 99, a única coisa que a companhia recebeu foi a geolocalização das sinaleiras. Não há dados críticos ou sensíveis que a gente esteja disponibilizando”, ressaltou Langer.

Apesar das gigantes de tecnologia propagarem a gratuidade dos serviços, as críticas são de que nenhuma tecnologia é exatamente neutra. O coordenador do curso de comunicação digital da Unisinos, Daniel Bittencourt, que estuda apps de mapas sociais, destacou que as pessoas têm pouca criticidade quando se trata desse tipo de serviço. 

“A questão não é discutir se o lema deles é legal ou não. O fato é que a Waze, por exemplo, é uma empresa privada pertencente à maior holding de empresas digitais do mundo, a Google. E essa companhia tem seus interesses econômicos muito bem definidos”, ressaltou. Bittencourt salientou ainda um caso relacionado ao armazenamento de dados. “Criticou-se muito quando o Serasa, que é uma empresa que cobra devedores fez cadastro biométrico dos devedores, mas quando o assunto é gigantes da tecnologia o senso crítico é muito menor”.

"A questão é a nuvem privada de uma corporação gigantesca que vai saber como usar esses dados quando necessário"

Trânsito no final da tarde em Porto Alegre. Foto: Fabiano do Amaral

O professor afirmou que as empresas coletam dados e armazenam todo esse material na nuvem. Assim, tem-se uma zona cinza a respeito do que será feito com esse material. “Não falo do dado individualmente, já que no caso individual descobrem-se algumas tendências de deslocamento, locais frequentados ou buscas na internet. A questão é a nuvem privada de uma corporação gigantesca que vai saber como usar esses dados quando necessário. Hoje as empresas monetizam seus serviços através da publicidade contextual, mas não se sabe o que será feito em um futuro”, destacou. 

Já a Waze garante que compartilha dados dos usuários de forma limitada. Em nota, a companhia diz que "o Waze coleta dados agregados e anônimos dos usuários e compartilha essas informações de forma limitada com o Google e seus parceiros - entre eles, as cidades participantes do programa Waze for Cities. O app não compartilha informações pessoais sobre os motoristas".

Ao mesmo tempo em que a tecnologia modificou a relação das pessoas com o trânsito, com o trabalho e as relações sociais, gestões públicas buscam cada vez mais sanar parte dos problemas das cidades a partir de soluções oferecidas por empresas de tecnologia. A moeda de troca é a informação. 

Parcerias 

Testado durante os jogos da Copa América em Porto Alegre, em meados de setembro, a Prefeitura aderiu ao Waze for Cities, parceria firmada com o aplicativo Waze para compartilhar informações com os usuários. A EPTC está utilizando a plataforma para informar bloqueios e comunicar eventos com impacto significativo na mobilidade. "O grande diferencial é que conseguimos informar com exatidão e credibilidade. É a EPTC que planeja e monitora quem está informando", disse o gerente de Desenvolvimento e Inovação do órgão de trânsito, Augusto Langer.

"A ideia de desatar os nós do trânsito é urgente"

De janeiro a setembro deste ano, foram registrados mais de 3 mil pedidos para uso de via pública para eventos, serviços de manutenção ou obras. Langer apontou que a partir da parceria, o planejamento da EPTC foi aprimorado. Os usuários do aplicativo recebem os alertas automaticamente como já acontece, a diferença é a precisão das informações. “Fornecemos com exatidão o início e o fim de um bloqueio, assim como liberações para fechamento de ruas e avenidas.” 

A Prefeitura firmou na semana passada uma parceria com a chinesa 99, baseada na movimentação dos motoristas que utilizam o aplicativos na Capital. É o Mapa de Fluidez, um sistema gerado a partir do GPS de motoristas de aplicativos ligados à 99. Sempre que os condutores estiverem em deslocamento, o mapa é gerado automaticamente.

Com o sistema de inteligência artificial, informações de velocidade média dos motoristas, os pontos em que estão parados e os semáforos onde há maiores atrasos serão gerados e disponibilizados aos agentes da EPTC. Atualmente, Porto Alegre conta com 1.399 semáforos e 2,8 mil quilômetros de vias.

O sistema desenvolvido pela Didi, detentora do aplicativo, está coletando informações desde julho, já a EPTC deverá utilizar o mapa a partir de novembro. O sistema em tempo real ficará disponível na central de monitoramento do órgão de trânsito. "A ideia é que os agentes possam agir com base em informações sempre atualizadas. Hoje as intervenções no trânsito são feitas com base em rondas e nas 300 câmeras da EPTC e parceiros como Guarda Municipal e Brigada Militar", explicou o gerente de Controle e Monitoramento da Mobilidade da EPTC, Vinícius Fachin Ros. 

 “Quando celebramos esse tipo de contrato é porque a prefeitura não conseguiu dispensar energia suficiente em questões cotidianas"

O professor do Laboratório de Sistemas de Transportes (Lastran/UFRGS), João Albano Fortini, salientou que as tecnologias precisam ser testadas. Os indicativos, segundo o especialista, é que funcionarão: “Novos instrumentos viabilizam que o gestor acompanhe aquilo que realmente está acontecendo quase em tempo real para enviar agentes aos locais de acidentes ou trocar sinaleiras o mais rápido possível. A EPTC já tem uma boa condição de monitoramento, portanto, essas novas ferramentas deverão acrescentar. A ideia de desatar os nós do trânsito é urgente”.

Por outra via, Daniel Bittencourt criticou a falta de poder de planejamento próprio das gestões municipais: “Quando celebramos esse tipo de contrato é porque a prefeitura não conseguiu dispensar energia suficiente em questões cotidianas. Os governos estão entregando a responsabilidade pela solução de problemas de urbanidade e convivência a companhias internacionais. E nem tem como competir porque a Waze está coletando informações em Porto Alegre há dez anos enquanto as gestões não conseguem fazer predição de chegadas e partidas de ônibus”. 

 

Usuários substituem táxis e transporte coletivo por corridas via apps. Foto: Samuel Maciel

Comportamento

O uso de aplicativos e serviços tecnológicos de trânsito por uma parcela maior da população ganha força a partir da disponibilização de uma internet de maior qualidade no País. O mesmo efeito foi sentido em outros países em desenvolvimento após a disseminação da conectividade. Paralelamente, empresas como a Waze cresceram com o impulsionamento do Google. Criado em 2008 por dois engenheiros israelenses, o aplicativo hoje tem 114 milhões de usuários. 

Dessa forma, as tecnologias provocaram intensas modificações na mobilidade ao mesmo tempo em que não houve redução do número de carros nas vias públicas, conforme destacou João Albano Fortini. Segundo o especialista, o ideal seria a ampliação do investimento em obras de mobilidade e qualificação do transporte público como solução para os gargalos do trânsito, mas reconhece que a mudança no comportamento em relação à mobilidade é irreversível.

Mudanças ainda mais profundas deverão ser percebidas em um curto espaço de tempo, segundo o sociólogo Eduardo Biavati. “Não há vida fora da mobilidade, o que significa que ninguém pode evitar o trânsito, seja de pessoas ou mercadorias. Os apps fizeram um reposicionamento completo do modo como esse aspecto era organizado. O impacto ocorreu não somente em relação às pessoas quem têm carro, mas todo o transporte público e o mercado regulado de permissão para transportar passageiros, no caso, os táxis foi transformado”, destacou. “É uma hecatombe para quem estava acostumado a um modelo”, complementou. 

Biavati não vê problemas na utilização massiva do GPS e dos apps para os deslocamentos. “Ao chamar um táxi tradicional não sei se ele pegou a rota mais rápida ou mais curta, se gastou mais gasolina ou liberou mais fumaça, nem o nome do taxista eu sei. Claro que como passageiro posso perguntar, mas sei disso tudo com antecedência ao utilizar um aplicativo. Sei inclusive se enfrentaremos congestionamento ou não”, sustentou. ”Por mais que haja perdas e se discuta muito a uberização da economia, há grandes ganhos com a tecnologia que evolui rápido demais”.