Essências do campo

Essências do campo

Produtos nativos e exóticos cultivados no Rio Grande do Sul se tornam base de cosméticos, geram renda complementar para a agricultura familiar e motivam empreendedores a investir em negócios voltados à higiene e beleza

Por
Carolina Pastl (sob supervisão de Elder Ogliari)

A produção de frutas, grãos, leite, mel, folhas e flores para o abastecimento da indústria de cosméticos ou para a elaboração caseira ou cooperativada de itens de higiene, perfumaria e bem-estar complementa a renda de agricultores de diversas regiões do Rio Grande do Sul. Aos olhos do mundo, ainda não há uma região gaúcha que seja imediatamente associada a um produto. Mas o mercado local já tem referências de itens derivados da uva, vinho e leite de ovelha da Serra, do mel dos Campos de Cima da Serra, das azeitonas da Fronteira, da tradicional erva-mate e da incipiente lavanda de Morro Reuter, entre outros.

Para a professora da disciplina de Matérias-primas Dermatológicas e Cosméticas da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Irene Külkamp, há uma inclinação de mercado por produtos com essências naturais obtidos com tecnologia sustentável.

No Brasil, a produção de cosméticos gera 5,4 milhões de empregos diretos e indiretos, conforme dados de 2018 da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos. Apesar de estarem incluídos neste total, não há números específicos de produtores e trabalhadores rurais envolvidos com a atividade. Mas há em relação aos empreendimentos. Das 2.794 empresas brasileiras do setor registradas na Anvisa, 188 encontram-se no Rio Grande do Sul.

Mesmo que não haja dados desse tipo de produção no Estado, técnicos da Emater-RS/Ascar não descartam a possibilidade de, no futuro, alguma fonte de essências para cosméticos consagrar uma localidade. “Há regiões com inúmeras matérias-primas que podem e estão contribuindo para esse desenvolvimento”, complementa a professora de Agroecologia da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Adriana Trevisan.

Os cosméticos mais ligados ao Rio Grande do Sul possivelmente são aqueles à base de erva-mate. O Estado é o maior produtor brasileiro da folha, tendo colhido 232 mil toneladas em 2018, de acordo com o Instituto Brasileiro da Erva-Mate (Ibramate).

Para Aline Maliuk, especialista em cosmetologia natural e vegana, o mercado segue incipiente no país por questões fundamentalmente econômicas. A primeira é que são, na maioria das vezes, pequenas empresas que desenvolvem esse tipo de produto. A segunda é porque o Rio Grande do Sul possui concentração de monoculturas. “Com várias culturas, é possível pensar em sistemas de inovação biodiversos”, acredita Adriana, que trabalha com pesquisas para incentivar esse setor na Uergs, em Sant’Ana do Livramento.

Um programa que incentivou o cultivo e coleta voltados aos cosméticos foi criado em 2009 pelos ministérios do Turismo e do Desenvolvimento Agrário. É o projeto Talentos do Brasil Rural, iniciativa que visou fortalecer a relação entre a agricultura familiar e a atividade turística. O programa qualificou 89 empreendimentos da agricultura familiar de todo o Brasil e apoiou a estruturação de roteiros turísticos. O objetivo foi produzir cosméticos, alimentos e artesanatos para empreendimentos turísticos das 12 cidades que sediaram a Copa do Mundo no país, em 2014. No Rio Grande do Sul, o projeto qualificou e abriu mercados para produtores de mel de Vacaria.

Além dos profissionais da Emater, há agricultores, apicultores e pecuaristas que entendem que cultivos voltados ao fornecimento de essências para cosméticos pode servir, pelo menos inicialmente, como complemento de renda ao produtor.

Casos internacionais

A associação de um produto primário regional a cosméticos de fama mundial tem alguns casos consolidados. Um deles é o do Mar Morto, entre Israel e Jordânia, fonte de minerais para a indústria da beleza e bem-estar pela grande concentração de sal que sua água têm. No Sul da Itália, o limão siciliano é base de óleos essenciais famosos. Sorrento e a Costa Amalfitana possuem, inclusive, selo de Indicação Geográfica para o produto. Já a Provença, na França, é associada ao cultivo de lavanda, que está espalhado por 53 mil hectares e envolve 1,5 mil pessoas.

A Bulgária, por sua vez, responde por 70% da produção global de óleos essenciais de rosas e, por isso, é chamada de “País das Rosas”. A rosa damascena é abundante na região eéa mais valiosa para a indústria devido à alta concentração de óleo essencial que possui, que serve como base de perfumes.

Produção tem várias etapas

Para garantir o alto teor de uma substância específica encontrada num produto natural é necessário um manejo adequado, tanto no campo como na indústria, segundo a professora de Agroecologia da Uergs, Adriana Trevisan. Em laboratório, “é necessário um processo que controle a carga microbiana e padronize ingredientes”, complementa Irene Külkamp, professora da Faculdade de Farmácia da Ufrgs. Testes microbiológicos, filtrações, diluições e evaporações são algumas das técnicas possíveis. Depois, o extrato vai para uma indústria, para ser incorporado a um cosmético.

Todas essas etapas são feitas para que os produtos finais sejam registrados pela Anvisa. Assim, os ingredientes são listados por nomenclaturas cosméticas internacionais nas embalagens. “Há, claro, produtos artesanais, mas esses não possuem registro na Anvisa e podem ser fabricados de inúmeras maneiras”, esclarece Irene.

Em função do processo ser meticuloso e, muitas vezes, difícil, a especialista em cosmetologia natural e vegana Aline Maliuk acredita que essa é outra razão pela qual o mercado de cosméticos naturais ainda é incipiente dentro do meio rural.

Citando informações retiradas do Centro de Informação Biotecnológica da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, da página on-line ScienceDirect e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Aline diz que cada produto natural traz consigo diferentes benefícios à pele. Dos expostos nestas páginas, a lavanda e o vinho atuam como cicatrizantes, o leite hidrata a pele, a erva-mate e o azeite de oliva são antioxidantes naturais e os cítricos são ansiolíticos.

Erva-mate pinta o cabelo

Associada diretamente ao hábito de tomar chimarrão, costume mais simbólico do Rio Grande do Sul, a erva-mate tem dezenas de outros usos, como ingrediente de bebidas (refrigerantes, licores e sucos), insumo para alimentos (balas, bombons, sorvetes, bolos e biscoitos) e até medicinais, conforme relatos de entidades ligadas à produção e industrialização da folha. Em meio a isso, também é destinada à área de higiene pessoal e cosméticos, como componente de sabonetes, perfumes, desodorantes, cremes hidratantes e tintura de cabelo.

No Rio Grande do Sul, o cultivo da folha envolve cerca de 100 viveiros de mudas, 14 mil propriedades rurais em 286 municípios e dezenas de indústrias, segundo o Ibramate. Nem todas, no entanto, são voltadas exclusivamente à produção do componente do chimarrão. Há casos de empreendimentos que se dedicam aos cosméticos. Um deles é o da Akatu Brasil, com sede em Arvorezinha, perto do limite com o município de Ilópolis, no Vale do Taquari, um dos polos de extração da folha. Desde 2008, a empresa atua na elaboração de cosméticos à base de erva-mate. Atualmente, gera 30 empregos diretos e recebe matéria-prima de mais de 100 produtores locais.

Folhas da árvore nativa são componentes típicos da paisagem em diversas regiões do Sul do Brasil. Foto: De Valérios/Divulgação/CP

O extensionista rural da Emater de Arvorezinha, Cleber Schuster, observa que está crescendo a quantidade de subprodutos da folha na região. “Isso pode ser mais uma alternativa de comercialização, aumentando, desta forma, a demanda e o preço da matéria-prima”, ressalta.

Marca da empresa De Valérios, que produz erva-mate para chimarrão, a Akatu nasceu e se desenvolveu em meio a uma estrutura consolidada de cultivo planta. E estabeleceu que a matéria-prima de seus produtos deve sair de terra não adubada, distante de outras lavouras e na qual não há uso de agrotóxicos.

Depois de colhida, a folha é processada em laboratório. O extrato é encaminhado a diferentes indústrias, para fabricação terceirizada dos itens da linha. Os cosméticos, então, voltam às prateleiras da Akatu para venda. A maioria dos produtos da empresa destina-se ao tratamento de cabelo e o mais procurado é a tintura à base da planta.

A proprietária da empresa, Andréia Valério, diz que 20% do rendimento total da empresa sai da venda de cosméticos. E acredita que os números só não são maiores devido a “uma cultura brasileira” de não valorizar o nacional.

Cítricos do Caí no perfume francês

A Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí (Ecocitrus), de Montenegro, gera renda para 117 associados produtores de mandarinas verdes e maduras, laranjas e limões, todos orgânicos. A essência dessas frutas, que é extraída na cooperativa, é exportada, sobretudo para indústrias cosméticas francesas utilizarem em perfumaria.

Cooperativa gera renda para associados com a venda de óleos essenciais das frutas para a Europa. Foto: Laís Escher/Divulgação/CP

Maique Kochenborger, agricultor familiar ecológico e presidente da Ecocitrus, recorda que a cooperativa foi criada em 2005 por 15 fruticultores que queriam deixar de utilizar agrotóxicos.

Desde o início, para o grupo, a opção era vista como mais vantajosa, já que há fabricantes franceses de cosméticos que pagam até 40% a mais se o óleo for orgânico. Cada tonelada de frutas processada rende de quatro a seis litros de óleo essen- cial, o que representa 47% do faturamento da Ecocitrus, que somou R$ 5 milhões no ano passado.

Na avaliação do assistente técnico regio- nal em Sistema de Produção Vegetal da Emater, Derli Paulo Bonine, o óleo da casca proporciona uma renda a mais para os citricultores e exige cada vez a qualificação da produção. Além disso, o manejo da lavoura é o mesmo; portanto, não exige mais trabalho. O preço médio recebido pelos produtores para uma caixa de 25 quilos de bergamotinha verde é de até R$6,25. Para Maique, a “grande sacada” foi perceber que a fruta, que antes era descartada, hoje é vendida ao mercado europeu, que a valoriza. “Sem contar a divulgação que a região ganha com o produto sendo vendido para fora do país”, acrescenta o presidente da cooperativa.

Ovelha no tratamento de beleza

Uma empresa rural localizada no roteiro cultural Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, agregou à criação de ovelhas e aos seus atrativos turísticos a produção de alimentos e, desde 2005, de cosméticos. Seus produtos de beleza são à base da proteína do leite ovino e da substância encontrada na cera da lã do animal (a lanolina). Com isso, ampliou o faturamento com vendas no varejo ou pelo site na Internet.

Da lã retirada na tosquia dos animais é obtida a lanolina, óleo que vai compor produtos da casa. Foto: Nicole Maso/Divulgação/CP

A Casa da Ovelha conta com praticamente toda a cadeia produtiva, do cultivo do pasto e do manejo do rebanho à loja de cosméticos. A extração da matéria-prima e elaboração de condicionadores, xampus, hidratantes, sabonetes, óleos, séruns e géis são feitas por laboratório terceirizado. “A gente nasce na terra e termina no consumi- dor final”, resume Tárcio Michelon, diretor geral da Casa e do Parque da Ovelha.

Sem histórico anterior na agricultura e pecuária, a família começou a criar ovelhas há 20 anos. O rebanho inicial tinha 60 animais. O atual conta com 900 cabeças. Ao longo do tempo ocorreram mais de 4 mil nascimentos.

A empresa possui uma indústria, que processa por mês cerca de 20 mil litros de leite produzidos pelo próprio rebanho e adquiridos de quatro ovinocultores. No mesmo período, utiliza 200 litros de leite na produção de cosméticos. “Não é a grande parcela do nosso faturamento, longe disso”, reconhece Michelon, revelando que equivale a 5%, sem citar o total. “Mas hoje em dia é um diferencial procurado pelos clientes”, argumenta. Os produtos são vendidos principalmente aos turistas e clientes com necessidades especiais, como alergias.

Sobras do vinho na terapia

Depois de consagrar seus vinhos em concursos internacionais, o Vale dos Vinhedos, localizado entre Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul e Garibaldi, tornou-se também um polo turístico capaz de gerar renda para seus habitantes não só pela venda da bebida, mas também de diversos produtos agroindustriais e pela oferta de serviços. Desde 2007, o Hotel Spa do Vinho reúne o conceito de hospedagem com oferta de 40 tipos de terapias com produtos à base das sobras da uva utilizada na elaboração dos vinhos, dando mais uma destinação ao produto mais típico da região.

Variedades viníferas cultivadas em parreirais próprios são a base de bebidas e cosméticos. Foto: Deborah Dadalt/Divulgação/CP

Uma das etapas iniciais do processamento da uva é a separação do líquido, que será vinificado, da parte sólida, que é a bagaça. Neste ponto começa outra atividade, menos conhecida pelo grande público que visita as cantinas, que é a utilização do que não entrou na elaboração da bebida. Segundo uma das sócias da empresa, Deborah Dadalt, o conceito de vinoterapia é utilizar tudo o que sobra da uva quando se produz o vinho para uma proposta terapêutica. Assim, da semente da uva é produzido um óleo; da pele e do bagaço se fabrica um pó; e das folhas é criado um extrato vinoterápico, para ser colocado na água do banho. “Tudo é reutilizado”, afirma.

Para criar esses produtos, o spa conta com laboratórios especializados. “Neles ocorre a estabilização de polifenóis, flavonoides e outros antioxidantes que protegem a pele e os cabelos e a produção de extratos com a substância”, descreve Deborah. “E, por fim, são produzidos os nossos cosméticos”, resume. Além dos cosméticos, o hotel também elabora dois vinhos, com marca própria.

A uva, matéria-prima da bebida e dos cosméticos, sai de 18 hectares de parreirais próprios formados pelas viníferas chardonnay, cabernet, merlot e pinot noir.

O Spa do Vinho não divulga a participação da área de cosméticos no faturamento global, mas Deborah garante que “é muito significativo e está crescendo”. Ao mesmo tempo, acrescenta que o casamento entre a vitivinicultura e um spa foi bem sucedido. “Se fôssemos cultivar só as uvas e produzir os cosméticos, não valeria a pena de forma alguma, são produtos muito caros”, argumenta. “Só vale a pena porque temos a cadeia completa aqui”, finaliza.

Apesar de o município possuir poucos cosméticos à base de uva, vistos como “mais elitizados”, o enólogo do Escritório da Emater de Bento Gonçalves, Thompson Didone, acredita que o mercado tem potencial para o futuro.

Azeitonas como base de produtos

Apesar de ser mais conhecida na culinária na forma de azeite, a oliva também pode ser utilizada em cosméticos. No Rio Grande do Sul já há pelo menos um empreendimento rural que aposta nessa alternativa desde dezembro do ano passado. É a Casa Albornoz, localizada em Sant’Ana do Livramento.

“Com o objetivo de diversificar nossos investimentos, iniciamos o plantio de oliveiras e, depois, a produção de cosméticos”, conta a empresária Virginia Albornoz. Esse projeto familiar foi iniciado em 2013.

Frutos geram extrato para itens como hidratantes corporais, óleos capilares e sabonetes líquidos. Foto: Federico Bonani/Divulgação/CP

O empreendimento comercializa, além de cosméticos à base de azeite de oliva, o próprio azeite, mel e nozes. As azeitonas são cultivadas em Dom Pedrito, em uma área de 120 hectares, enquanto o processamento ocorre em Sant’Ana do Livramento, feito pela própria empresa. O extrato é enviado à QOD, indústria cosmética, para ser transformado em produtos de higiene e beleza, com a marca da Casa Albornoz, que serão vendidos como hidratantes corporais, óleos capilares e sabonetes líquidos, com preços entre R$ 35,00 e R$ 65,00.

O primeiro mês de vendas de cosméticos correspondeu a 2,3% do faturamento de toda a empresa em 2019. Como a linha é recente, não há dados mais consolidados de retorno financeiro. “Mas já sentimos que esses produtos chegaram para ficar”, garante Virginia. “O potencial desse mercado é enorme”.

O cultivo de oliveiras em escala tem menos de 20 anos no Rio Grande do Sul. O Estado lidera a produção nacional de azeite de oliva com 180 mil dos 230 mil litros levados ao mercado anualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura.

Morro Reuter se vincula à lavanda

Morro Reuter quer ser conhecida como a Capital Nacional da Lavanda. E não é por acaso. Nos últimos anos, o município tem incentivado o cultivo da planta nas propriedades rurais. Hoje, 23 famílias se dedicam à atividade em 12 hectares, segundo o chefe do Escritório de Morro Reuter da Emater, Evandro Knob. Do total das propriedades, 16 cultivam lavanda exclusivamente para a produção de óleos essenciais.

“No início,ocultivo tinha finalidade ornamental. Com o tempo, voltou-se à extração de óleo e seus derivados. Hoje, a lavanda já pode ser considerada geradora de uma atividade econômica”, relata Evandro. Essa produção entra na renda familiar como um complemento, já que, geralmente, os agricultores usam a propriedade também para outros cultivos.

Cultivo começou com finalidades ornamentais e depois se voltou à produção de óleos essenciais. Foto: Yamara Eichner/Divulgação/CP

Ao observar que não havia empresas trabalhando com extração de óleos essenciais de lavanda na região, a Naturoils apostou nessa atividade, em 2016. Além dessa planta, também trabalha com alecrim, capim-limão e eucalipto. “Mas nossos produtos de maior procura são o óleo essencial e o aromatizador de ambiente de lavanda”, reconhece a química Yamara Eichner, diretora da empresa.

Apesar de não contar com agricultores vinculados, a empresa incentiva o cultivo. O litro da essência de lavanda vale R$400,00. Metade deste valor fica com o produtor. O líquido extraído na Naturoils é vendido a laboratórios que fabricam cosméticos. Mas a empresa também produz cosméticos no seu próprio empreendimento. E pretende aumentar sua produção em 50% num prazo de dois anos. “É um mercado promissor”, justifica Yamara.

Mel na linha da hotelaria

O mel produzido por pequenos agricultores de Vacaria, no Rio Grande do Sul, está virando cosmético. E o destino dele são redes de hotéis de todo o Brasil.

Conhecido pelo intenso cultivo de maçãs, o município também é o maior produtor de mel do país e possui vegetação silvestre variada que contribui para isso. Seus 90 apicultores coletam, por ano, 160 toneladas. Já o volume total de mel produzido no Estado chegou a 8,5 mil toneladas em 2018 – soma das colheitas de outono e primavera –, segundo dados da Federação Apícola do Rio Grande do Sul (Fargs).

Apicultores de Vacaria viraram fornecedores de indústrias de cosméticos. Foto: Cooperativa Avapis/Divulgação/CP

A produção da Cooperativa de Apicultores de Vacaria (Avapis) também é significativa, chegando a 60 toneladas por ano. Essa foi uma das entidades selecionadas para participar do projeto “Talentos do Brasil Rural”, que une a agricultura familiar ao turismo. De acordo com a Assessoria de Imprensa do Ministério do Turismo, além da consolidação de roteiros turísticos que compreendam empreendimentos rurais da agricultura familiar, um dos principais focos da iniciativa é a oferta de cosméticos para o segmento de hotelaria. Assim, o programa ofereceu treinamentos e orientações de boas práticas aos apicultores.

A cadeia produtiva funciona em três etapas. O mel retirado dos favos é decantado em instalações da cooperativa. Depois, é encaminhado a uma indústria farmacêutica na região metropolitana de Curitiba, onde é transformado em extrato, que é enviado como matéria-prima para uma empresa que produz 14 linhas de cosméticos para redes de hotéis, como xampu, condicionador, sabonete líquido e em barra e hidratantes. “Quando comecei a trabalhar com apicultura, jamais imaginei que um dia nosso produto iria chegar a uma fabricação de cosmético e ser distribuído para o Brasil inteiro”, comenta Alair Vargas, presidente da Avapis.

Para o dirigente da associação, essa atividade é mais vantajosa que a tradicional. “Temos um custo muito maior de produção do mel in natura porque há envase, transporte e rótulo. Como matéria-prima de cosmético, o mel vai a granel, sem custo nenhum”, compara. “Houve semestre em que a cooperativa recebeu R$ 13 mil só com essa venda (de mel destinado a cosméticos)”, acrescenta.

Além do valor de venda do produto in natura e para cosméticos e, ainda, do aluguel de abelhas para polinização em pomares, a cooperativa ganha 5% a título de royalties dos produtos de beleza comercializados em hotéis. Mas, como não houve renovação do projeto, essa renda extra irá acabar ainda neste ano. Mesmo assim, Vargas afirma que a atividade deve seguir lucrativa, já que o mel continuará a ser vendido ao laboratório e, em seguida, a hotéis. Não haverá royalties, mas haverá novas destinações. Como o mel possui elementos interessantes para a indústria de higiene pessoal e cosméticos, isso pode motivar cada vez mais a procura desses produtos, acredita Vargas. Além de hidratar a pele e os cabelos, algumas substâncias do alimento podem atuar como antioxidantes.

Já Nicolas Brandt, extensionista da Emater em Vacaria, entende que o mercado de cosméticos pode ser uma alternativa financeira para o apicultor e não apenas um complemento de renda. Até porque o preço do mel vendido in natura, de R$ 18,00 o quilo na região, é considerado baixo pelos produtores.

Apesar de afirmar que a produção ainda é pequena no município, Brandt observa que a demanda pelos produtos dos apicultores está crescendo. Para o Ministério do Turismo, a parceria deu “muito certo” porque capacitou e aproximou os produtores de mel da indústria e apontou novos caminhos e clientes para a atividade.

A cooperativa também confirma esse resultado e revela que a produtividade está aumentando com as técnicas ensinadas pela equipe do governo federal. Segundo a Avapis, algumas colmeias já rendem 50% a mais. Em um futuro próximo, os 49 cooperados pretendem construir uma nova sede para aumentar a agroindústria e, consequentemente, buscar mais mercados.