Histórico, inovador e humano
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Histórico, inovador e humano

Correio do Povo completa 124 anos reafirmando compromissos com novos tempos e com sua essência

Por
Henrique Massaro

Histórico, sempre atento às inovações tecnológicas e que não abre mão do seu lado humano. É com a convicção da importância da união dessas três características tão singulares que o Correio do Povo completa 124 anos da data em que chegou às mãos dos gaúchos pela primeira vez. Hoje o diário há mais tempo em atividade no Rio Grande do Sul e um dos mais tradicionais do Brasil continua sendo “uma folha lida e apreciada por todos, sem poupar esforços nem medir sacrifícios”, valores definidos por Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior em 1895 e que permanecem atuais em 2019.

Prova disso é que, diante das tantas adaptações impostas pelas mudanças dos tempos a jornais de todo o mundo, o Correio do Povo se posicionou e, da mesma forma que fez em diferentes momentos de sua história centenária, se mostrou pronto para se reinventar sem deixar sua essência de lado. Como em outras épocas cruciais de transições tecnológicas, a exemplo das renovações de maquinário, em adaptações de projetos gráfico ou até mesmo nas trocas das máquinas de escrever pelos primeiros computadores da redação, o jornal também acompanha as cada vez mais rápidas exigências de uma era digital.

 

O Correio do Povo aspira a honra de se fazer uma folha lida e apreciada por todos, e para isso não poupará esforços nem medirá sacrifícios. (...) Com tais intuitos, de que jamais se apartará, o público o verá sempre disposto a bem servi-lo.

 

 

A importância de se manter as notícias impressas diariamente nas mãos de milhares de leitores fiéis é a mesma de disponibilizar o conteúdo produzido ao alcance de um clique nos computadores, tablets e smartphones. Mais do que isso, neste final de segunda década do século 21, é fundamental que, tanto o papel quanto as novidades que surgem no meio virtual estejam integradas. Por isso, além de uma versão impressa que faz parte da história gaúcha e um site já consolidado, o jornal nos últimos anos aposta também na multiplicidade das mídias disponíveis. É com este vigor que o Correio do Povo entra no seu ano de número 125.

Com o leitor onde ele estiver

Importantes decisões – regionais, nacionais e internacionais – da dupla Gre-Nal, o julgamento do ex-presidente Lula, a posse da Presidência da República em Brasília e o julgamento do Caso Bernardo em Três Passos são algumas das importantes coberturas em que as equipes de reportagem do Correio do Povo estiveram presentes nos últimos anos e que puderam chegar rapidamente aos leitores graças a um site constantemente atualizado. Desde 2009 no ar, o endereço do CP na Internet também passou a se preocupar em noticiar em primeira mão e integrar o trabalho feito pelos jornalistas.

“Trabalhamos de uma forma integrada tanto fisicamente, quanto modelo de trabalho e de ferramentas de redes sociais”, explica o coordenador do site, Márcio Gomes. De acordo com ele, a integração começa desde o posicionamento da equipe do on-line no centro da redação, o que facilita o conteúdo produzido para o jornal impresso estar em mais sintonia ao meio digital. Na rotina de trabalho diário, as reportagens também já são produzidas pensando nas possibilidades de abordagem rápida e dinâmica que o site oferece e em um sistema integrado com ele, o que facilita na agilidade. As matérias e fotografias também são aproveitadas em diferentes mídias sociais, como Facebook e Twitter, que muitas vezes são o caminho para a chegada de novos leitores.

 

Seja no papel, no site, nas redes sociais, em vídeos ou podcasts, o conteúdo produzido pela redação é pensado para informar os leitores onde quer que eles estejam | Foto: Alina Souza

Esse fluxo de acessos, tanto oriundo das redes sociais quanto dos inúmeros leitores que acessam diretamente o site do Correio do Povo, se mostra cada vez maior. Somente em um ano, o crescimento foi de mais de 70%. De 1º de janeiro até o final de setembro do ano passado, foram registrados aproximadamente 10,3 milhões de usuários. Em 2019, durante o mesmo período, este número passa de 17,6 milhões. A marca registrada do CP e o bom rankeamento como fonte de notícias em sites de busca são alguns dos elementos que explicam o expressivo crescimento. Depois de uma grande mudança visual em 2014, a página ainda passou por algumas modernizações mais recentes e agora possui, por exemplo, uma aba de especiais, com um desenho próprio voltado para as reportagens que são publicadas no +Domingo. Novas atualizações também estão sendo elaboradas para serem aplicadas em breve.

Desde que foi criada, em janeiro de 2018, a editoria de Multimídia fez com que os números também nas mídias sociais aumentassem consideravelmente. Somente no YouTube, os vídeos postados já somam 19,4 milhões de visualizações. No período de um ano, o canal Correio do Povo play cresceu mais de 587%. Na plataforma, destaca-se desde notícias factuais até produções maiores, como os webdocumentários. É o caso da reportagem em audiovisual sobre um dia de revista no Presídio Central, que já passa de 515 mil visualizações. Entre as produções, o coordenador multimídia Jonathas Costa chama a atenção para a sintonia dos profissionais envolvidos, desde repórteres na redação em Porto Alegre até correspondentes em municípios do Interior. “O esforço tem sido em entregar o conteúdo nas diferentes plataformas, que estão em constante transformação”, avalia.

Além do YouTube, chama atenção os avanços obtidos no Instagram, que em um ano cresceu 233%. Como aposta neste segmento, a partir de hoje o Correio do Povo lançará um novo programa nos stories do Instagram. Além de utilizar o slogan do jornal, o Direto ao Ponto, que já norteia as produções multimidiáticas, será o nome do quadro que abordará as principais notícias do dia. Outra novidade de multimídia e dos demais profissionais da redação sendo lançada oficialmente junto do aniversário é a de podcasts.

Trabalho da equipe de fotografia do Correio do Povo ganha espaço no FotoCorreio | Foto: Alex Rocha / PMPA

Novos olhares

O ambiente de múltiplas mídias e conexões é também o que permite novos olhares para o trabalho dos repórteres fotográficos. Através do blog FotoCorreio, os profissionais podem expor suas melhores fotografias acompanhadas de um texto que, não necessariamente, tem por intuito explicar a imagem. São “crônicas visuais”, como explica a fotojornalista Alina Souza, uma das responsáveis pelo projeto. “É uma forma de ver o texto na fotografia e a fotografia no texto.”

Desde 2016, o FotoCorreio passou a ter espaço também dentro do +Domingo. A iniciativa é um dos exemplos do avanço do conteúdo do papel para a web. Com um QR Code o leitor posiciona o smartphone e pode ver versões ampliadas do trabalho dos fotógrafos, muitas vezes premiado. “É uma forma de atentarmos para os detalhes do dia a dia ou trazermos um recorte mais profundo sobre determinada pauta. Convidamos o leitor a viajar nas tantas dimensões, sentidos e metáforas contidos em uma imagem”, afirma Alina Souza.

Mulheres em pauta

 Em meio às possibilidades do meio digital, o Correio do Povo também reforçou a entrega de conteúdos segmentados. No ar desde agosto, o Bella Mais é espaço voltado para o universo feminino. Com um time de 15 colunistas, os materiais são produzidos por mulheres e tratam de temas como moda e beleza, bem-estar, estilo de vida e negócios. “É uma conversa verdadeira e horizontal, queremos conversar no mesmo nível da mulher e não acima dela, ditando tendências e o que fazer”, explica a colaboradora Fabiane Madeira. De acordo com ela, nos próximos meses a ideia é trazer alguns especiais e implementar um conselho de leitoras, com o objetivo de ouvir de perto as demandas das gaúchas e poder produzir pautas que atendam necessidades cada vez mais diversificadas.

A coordenadora do projeto, Kátia Alves, comenta que a multiplicidade de olhares é uma das essências do Bella Mais, que, na concepção inicial, deveria abordar finanças e negócios mas acabou sendo expandido para todo o universo feminino. Segundo ela, a iniciativa tem sido bem recebida, principalmente nos retornos em redes sociais como Instagram e Facebook. “As mulheres têm entrado em contato e respondido bastante às nossas pautas”, afirma. Ainda ressalta que os próximos passos devem ser a promoção de atividades presenciais, como talks que tragam informações de assuntos como empreendedorismo e empoderamento para as leitoras.

 

Funcionários constroem o legado do jornal

 

Constante nos últimos anos em função das necessidades de um mundo digital, os investimentos feitos para acompanhar a evolução dos tempos são marca do Correio do Povo ao longo de toda sua história. Algo que pode ser visto desde o vanguardismo comandado por Caldas Júnior ainda no final do século 19, passando pela consolidação do nome ao longo de mais de 50 anos com Breno Caldas, pela reestruturação na década de 1980 comandada pelo empresário Renato Bastos Ribeiro – falecido no último dia 20 de setembro – até a transição para o Grupo Record, em 2007.

O diretor presidente do Correio do Povo, Sidney Costa, ressalta que a marca do CP sempre se mostrou resistente ao tempo, tanto que, em meio às mudanças de comando, se manteve vivo na preferência e memória dos gaúchos, e sempre fiel à essência afirmada por Caldas Júnior. Além dos investimentos em softwares e integração, o jornal recentemente trocou equipamentos e mobiliários da redação, modernizou a frota e promoveu renovações em termos de Tecnologia da Informação. “Temos projetos e vamos começar a fazer várias outras ações para continuar sendo um jornal vanguardista, sem perder a identidade”, afirma. Mas, além das questões históricas e das constantes reinvenções, o Correio do Povo tem em seus valores a importância do fator humano, combinando profissionais jovens àqueles experientes e que presenciaram diferentes fases da empresa. “Na verdade, não são as máquinas, as mudanças no parque gráfico ou a inovação de equipamento e tecnologia que conservaram o Correio do Povo, mas sim as pessoas que trabalham nele”, afirma o diretor presidente.

Parte da importância histórica que o jornal representa para o Estado pode ser vista já em sua sede. Na esquina das ruas Caldas Júnior e dos Andradas desde meados do século 20, o edifício Hudson, que também abriga a Rádio Guaíba, formou grandes nomes da imprensa gaúcha e nacional, e recebeu uma série de representantes políticos ao longo dos anos. Símbolo da imponência do CP para quem quer que passe por ele é o clássico elevador, que, há décadas em funcionamento, leva, por exemplo, ao Salão Nobre localizado no segundo piso. O espaço já recebeu diversos presidentes da República, seja durante o mandato presidencial ou em campanha. Antes da instalação da Assembleia Legislativa no Palácio Farroupilha, em 1967, o salão nobre também sediou velórios de autoridades e intelectuais gaúchos.

Há quase 50 anos, um dos responsáveis por manter as instalações do histórico edifício em pleno funcionamento é Deroci Euzébio da Silva, 72 anos, o funcionário mais antigo do Correio do Povo. Ele chegou ao jornal em 1º de setembro de 1972 e, antes disso, já havia trabalhado por seis anos na fazenda de Breno Caldas, a quem até hoje chama de segundo pai. Responsável pela manutenção predial, ele mostra com orgulho os antigos trilhos de rotativas que instalou ainda localizados onde hoje fica uma das garagens do jornal e conta que ajudou a construir a parte do prédio localizada na rua dos Andradas. 

Quase há tanto tempo quanto Deroci, o gerente de Recursos Humanos Renato Guzzo também é testemunha de três épocas diferentes. Admitido em 1º de abril de 1979, ele lembra, por exemplo, de levar o pagamento de personalidades como o poeta Mario Quintana, que por anos escreveu para o jornal, e do prédio estremecendo com o funcionamento das máquinas que chegavam a rodar quatro edições por dia: Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha Esportiva. Já nos tempos de Grupo Record, seguiu acompanhando a dedicação de diversos profissionais, dos experientes como ele até os mais jovens. “É uma empresa em que se veste a camisa e que vale a pena investir”, defende.

 

Histórico e eterno

 

Todos os clássicos Gre-Nal, o lançamento da bomba atômica, o julgamento dos nazistas, a chegada do homem à Lua e o atentado terrorista de 11 de Setembro. Todos esses acontecimentos históricos têm em comum o fato de terem sido noticiados no Correio do Povo, que, em meio a uma manchete e outra, passava também por suas mudanças históricas – das primeiras máquinas ao sistema de linotipia; da censura do governo às sucessões de comando; da implementação pioneira do serviço de radiofotos à criação de novos cadernos; do analógico ao digital. Além de ter divulgado diferentes épocas da história, o jornal mais antigo em atividade no Rio Grande do Sul também preserva tudo o que já foi escrito em suas páginas ao longo de 124 anos.

No arquivo do Correio do Povo, há um verdadeiro convite a uma viagem no tempo. Somente no acervo fotográfico, o CP Memória, há milhões de imagens que contam a história do Estado, do Brasil e até do mundo. Manualmente ou pelo computador, os arquivistas encontram a referência e de arquivos armazenados há décadas e podem digitalizar as fotografias para reprodução. No verso de cada uma delas, jornalistas que tentam realizar uma reportagem de reconstrução de fatos históricos, por exemplo, conseguem ver a data em que ela foi publicada em um dos jornais da Empresa Jornalística Caldas Júnior, o que leva a busca a um novo patamar.

No andar de cima de onde fica localizado o CP Memória, no Arquivo de Jornais, próximo ao estúdio da Rádio Guaíba, estão armazenadas todas as edições das folhas da Manhã, da Tarde, e Esportiva, além, é claro, de exemplares do Correio do Povo desde o dia 1o de outubro de 1895. Guardados e organizados em ordem cronológica, os periódicos servem de fonte de pesquisa para escritores e repórteres, e estão em processo de digitalização.

Depois de chegar no Arquivo, em 2009, o atual responsável Ramon Ferreira precisou dar sequência ao trabalho de conservação e organização dos jornais daquele ano em diante, já que os anteriores haviam sido organizados pela arquivista Francisca Espinosa. A saudosa dona Chica, como era conhecida, era personagem da história da preservação das publicações. Em 1972, protagonizou a salvação de parte de uma edição apreendida pelo Exército na saída das oficinas, escondendo alguns exemplares e fazendo com que não fossem esquecidos. “Ela tinha uma enciclopédia na cabeça”, comenta Ferreira, ao recordar a memória para datas da antiga chefe.