A busca por um estilo de vida mais saudável é sentida em estabelecimentos comerciais. No Mercado Público de Porto Alegre, algumas lojas de produtos naturais percebem que algumas mercadorias saem mais rápido da prateleira do que outras. “Tem bastante produtos que chegam rápido e saem rápido por conta do aumento do consumo das pessoas que querem ser mais saudáveis, e também por fins estéticos por conta do verão”, relata João Pedro Chaves, vendedor na banca Cia da Nutrição. Ali, os itens mais procurados são pós de uva e beterraba, Tribulus Terrestris e maca peruana.
Desde a pandemia, o gerente da Banca 26, Jonathan Freitas, relata que percebeu um aumento na busca por produtos naturais e escuta relatos de clientes que buscam uma alimentação mais saudável. “Acredito que as redes sociais também impactam bastante na procura, às vezes com essas misturas com vários produtos que os influencers mostram”, diz.
No estabelecimento, a maior procura é por mix de farinhas, compostos pré-treino para academia e musculação e outros suplementos. "No contexto geral, o pessoal busca mais saber para que isso é bom e para que serve cada tipo de produto, já buscando colocar no seu dia a dia", afirma, mas também atende pessoas que já aparecem com receitas médicas para tratamento de saúde, como diabetes e colesterol.
Porém, ali há uma procura maior do Psyllium. A fibra contribui para o controle dos níveis de açúcar no sangue e auxilia no controle do apetite e aumento da saciedade, sendo até conhecida como “Ozempic natural”. “Teve uma busca muito alta do pessoal nas redes sociais, procurando ele por se tratar de algo emagrecedor. Eles veem isso na rede social e vêm buscar aqui”, afirma Jonathan.
O fato de a fibra ter sido apelidada de “Ozempic natural” aponta para outro fenômeno que pode estar modificando o perfil de venda de alimentos e suplementos: o uso de canetas emagrecedoras. Há pelo menos uma década, esses medicamentos vêm ganhando popularidade em clínicas, consultórios e casas pelo mundo. Injetáveis, geralmente aplicados uma vez por semana, foram desenvolvidos para auxiliar no controle do diabetes tipo 2, que atinge cerca de 20 mil pessoas no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes. Mas elas são também utilizadas para o tratamento da obesidade, que atingiu a marca de 9 milhões de pessoas no Brasil em 2024 e tem estimativa de chegar a 2,3 bilhões de adultos ao redor do mundo, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS). Mais conhecidos pelos nomes comerciais, como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro, esses fármacos, denominados GLP-1, imitam a ação do hormônio produzido pelo intestino relacionado à secreção de insulina e à sensação de saciedade por meio de mecanismos cerebrais. Nos últimos anos, porém, as canetas também estão sendo adotadas para facilitar a perda de peso rapidamente ou apenas para fins estéticos, com indicação clínica ou não, mesmo que o uso dos medicamentos requeira obrigatoriamente recomendação médica.
Fato é que tem aumentado o o número de pessoas em busca de um estilo de vida mais saudável, apontam tanto especialistas quanto os profissionais que estão na linha de frente do setor do varejo alimentício. As mudanças nos hábitos de consumo da população, em parte provocados pelo uso de medicamentos emagrecedores e pela busca pelo emagrecimento, estão exigindo uma projeção de mudança por parte das farmácias e clínicas, mas também nas prateleiras de mercados e bancas de produtos naturais. Seja nas consultas médicas, nas redes sociais ou nas conversas de boca a boca, o cenário está posto: o setor do varejo alimentar deve se preparar.
Os varejistas e marcas que quiserem ser competitivos vão precisar se adaptar a um mundo impactado, não só pelos medicamentos, mas pela mudança do consumo alimentar, afirma Fernando Gibotti, vice-presidente de Inteligência e Mercado da Rock Encantech, empresa que trabalha com dados do varejo brasileiro.
Criação de novos hábitos alimentares, com ou sem as canetas emagrecedoras
A administradora Adriane Soares de Almeida, de 54 anos, começou o tratamento com caneta emagrecedora por recomendação médica quando seu peso atingiu três dígitos. Ela não tinha outros problemas de saúde, mas recebeu orientações para diminuir o sobrepeso. Há dois meses com tratamento, Adriane percebeu que mudou completamente sua alimentação. “A médica não fez uma lista, ela disse: ‘Ó, tu sabes o que não é para comer, né?’ E desde então, estou em uma alimentação bem mais natural”, relata.
Em relação às mudanças nas compras do mercado, ela substituiu as bolachas e chocolate para alimentos mais leves, como frutas e verduras. “Primeiro que a medicação ajuda a não ter vontade de comer certas coisas. E a gente vai perdendo o hábito e vai vindo para o mais prático”, afirma. Ela reconhece que apenas a medicação não é suficiente, é necessário disciplina. Ou então, uma perda de peso mais lenta. Porém, se fosse comparar uma lista de compras da administradora de antes e depois de começar seu tratamento, a diferença seria grande. “Acho que o mercado também está tendo que se adaptar”, reconhece.
Desde novembro de 2024, a biomédica Nicolle Piva realiza o tratamento, e já passou por dois tipos de canetas emagrecedoras. Ela sempre teve aumento de peso ao longo da vida e conviveu com o conhecido “efeito sanfona” desde os seus 15 anos. Por muito tempo, chegou a usar outras medicações para emagrecer, mas parava e vinha o efeito rebote. Ela usou inicialmente uma das primeiras canetas semanais que chegaram ao mercado.
Sua perda de peso foi gradual e, em abril, fez a troca para outra marca de medicação. Até novembro deste ano, ela tinha perdido 18 quilos na balança e teve ganho de massa magra. Fazendo atividade física de três a quatro vezes por semana e promovendo uma mudança brusca na alimentação. A principal delas foi evitar os alimentos industrializados. Hoje, consome basicamente saladas, carnes magras, frutas e outros alimentos ricos em proteína. “Uma alimentação muito mais voltada ao natural e evitando ao máximo o que é embalado”, afirma. Até porque alimentos ultraprocessados e que continham gordura provocavam mal-estar. Ela evita, por exemplo, recorrer aos aplicativos de entregas de comidas e fast-foods e prefere preparar essas refeições em casa, com ingredientes próprios. Apesar da medicação ter um custo alto, pontua, ela economiza nas compras do mercado.
Para alguns pacientes, porém, a mudança no estilo de vida foi mais importante do que o próprio medicamento. O empreendedor Paulo Jobim, de 65 anos, começou o tratamento com caneta emagrecedora para diminuir o peso após uma consulta médica. Porém, com apenas duas aplicações, apresentou efeitos colaterais, como enjoo, episódios de refluxo e insônia. Ele também teve perda de apetite, que acredita ter sido potencializado pela náusea. Após cinco semanas, o morador de Porto Alegre decidiu interromper o uso do medicamento. “De fato, tive um resultado na prática. Perdi praticamente 1 quilo por semana”, relata. Com a interrupção, Paulo decidiu fazer uma experiência: não prosseguir com a caneta mas, por vontade própria, mudar seus hábitos alimentares.
Entre as principais mudanças nos alimentos que consumia, Paulo dispensou carboidratos, como massas e pães, e os doces. Passou a consumir mais proteína, ovos e salada. “A própria quantidade a gente diminui, por conta da gula.” Segundo ele, os gastos reduziram de 10% a 20% no seu bolso. “Hoje, na prática, gasto um pouco menos do que gastava antes”, afirma o empreendedor.
Efeito dos medicamentos no consumo e cuidados alimentares
Luiza Pereira Lima, especialista em sobrepeso e obesidade e diretora técnica de uma clínica de emagrecimento de Porto Alegre, explica que a medicação age em diferentes pontos do organismo, especialmente no cérebro e no sistema digestivo, e auxilia no controle do apetite e na regulação do metabolismo. A substância ativa do Ozempic, a semaglutida, atua em áreas ligadas à fome e à recompensa alimentar.
“Ela reduz o desejo por alimentos muito calóricos, ricos em açúcar e gordura”, explica. Portanto, se fala de uma modulação da fome e da saciedade. “Muitos pacientes relatam que passam a sentir menos vontade de comer fora da hora e mais facilidade em fazer escolhas alimentares mais saudáveis”. O paciente, portanto, come menos, mas também passa a fazer escolhas melhores e, com o tempo, dá mais preferência a alimentos menos ultraprocessados e mais opções ricas em proteína e fibras, já que a medicação ajuda a diminuir o sistema de recompensa do cérebro.
A médica lembra que a medicação não faz seu efeito sozinha, mas deve ser introduzida juntamente com uma mudança de estilo de vida, entrando também a questão comportamental. “Se a pessoa não tiver uma mudança de estilo de vida junto, no momento em que ela para com a medicação, a tendência é que ela ganhe todo peso.”
Comumente, pessoas que desejam emagrecer e cortar alimentos que possam engordar, decidem evitar os carboidratos. Luiza destaca, no entanto, que não é necessário vilanizá-los como o problema para o não emagrecimento e adotar a famosa dieta low carb, com pouco carboidrato. “Ela é melhor do que quem come carboidrato? Não. No longo prazo, pensando em anos de resultado de perda de peso, ela não é superior”.
Ela lembra, também, que existem muitos alimentos que se apresentam como saudáveis, como barrinhas e suplementos, mas que requerem atenção. “Para começar, o suplemento não é uma coisa inócua, inofensiva. Ele tem risco. Muita gente sai usando esses suplementos e vitaminas e na verdade estão criando um risco para si. As vitaminas têm que ser baseadas em exames de sangue, em uma variação médica, com muito critério”, aponta.
Há ainda bebidas lácteas que aparentam ser saudáveis, mas têm aditivos. Entre os suplementos indicados, a médica cita o Whey Protein, que é indicado àqueles pacientes que não conseguem alcançar, nem com alimentação, a quantidade necessária de proteína. Outro suplemento citado foi a creatina, que auxilia na recuperação muscular.
Impactos no varejo
Os varejistas e marcas que quiserem ser competitivos vão precisar se adaptar a um mundo totalmente impactado, não só pelas canetas emagrecedoras, mas pela mudança do consumo alimentar na população, afirma Fernando Gibotti, vice-presidente de Inteligência e Mercado da Rock Encantech, empresa que trabalha com dados do varejo brasileiro. O desafio está em compreender o comportamento do consumidor e acompanhá-lo em meio a essa mudança.
Ele lembra que, ainda que as canetas não sejam as únicas responsáveis por esses movimentos, é impossível desassociar o uso deste tipo de medicamento. No entanto, esse cenário corresponde a um processo histórico de consumo e aumento de peso da população, que vem de algumas décadas. O especialista lembra que a população começou a se alimentar com mais frequência e em maiores quantidades nas últimas décadas, aumentando a média de peso. Os dados confirmam: pesquisa apresentada no Congresso Internacional sobre Obesidade em 2024 apontou que 48% dos adultos terão obesidade até 2044 e mais 27% terão sobrepeso. De acordo com o Atlas Mundial da Obesidade de 2025, um a cada três brasileiros (31%) vive com obesidade.
Consequentemente, houve maior procura pelo emagrecimento e experiências com dietas que não tiveram êxito. "Nas dietas, vou chamar de tradicionais ou convencionais, a perda de peso é muito lenta”, aponta Gibotti, enquanto que, com os medicamentos, a mudança é vista mais rápido. Com a introdução dos medicamentos para regular o apetite, percebe-se uma remodelação do consumo alimentar. “As pessoas passam a consumir menor quantidade de alimentos e, além de menor quantidade, existe uma correlação que as pessoas que começam a usar canetas, ou comprimidos, começam a se preocupar mais com alimentos mais saudáveis."
Varejo também observa a busca por uma alimentação mais saudável
Outro fator observado pelo especialista é que as pessoas começaram a buscar alimentos que fazem menos mal. “Pessoas estão lendo os rótulos dos produtos, o que antes não era tão comum. A gente vê as pessoas comprando de forma um pouco mais cuidadosa”, afirma Fernando Gibotti. O fato de muitas embalagens terem introduzido a sobrecarga de açúcar, gordura e sódio nos alimentos evidencia mais ainda a preocupação dos órgãos reguladores e da própria sociedade sobre os consumos diários de alimentos, analisa o especialista.
No Brasil, a utilização das canetas ainda é incipiente, mas em países que já estão com o consumo mais avançado, há um processo de reeducação alimentar. “As pessoas, além de consumirem menos, passam a buscar produtos mais saudáveis.”
Em um estudo da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, famílias com pelo menos um usuário de GLP-1 reduziram em até 9% os gastos no supermercado, com destaque para uma queda de 11% em salgadinhos. Outro levantamento, desta vez da norte-americana Morgan Stanley, revelou que mais de 60% dos consumidores que utilizam canetas emagrecedoras diminuíram ou eliminaram por completo o consumo de doces e sorvetes. “A pessoa começa uma dieta, depois de um mês, emagrece um ou dois quilos. Ou seja, teve várias restrições e o benefício em troca foi pequeno. As drogas inibidoras de apetite trazem uma perda de peso muito mais rápida. Muitas pessoas acabam perdendo 3, 4% do peso corporal no primeiro mês de utilização. Essa é a grande mudança que essas drogas trazem quando comparado aos processos tradicionais de emagrecimento” diz o vice-presidente de Inteligência e Mercado da Rock Encantech.
Nos estudos conduzidos pela empresa, são analisadas, no Brasil, categorias de produtos que estão perdendo e aumentando as vendas. Entre esses números, bebidas alcoólicas como a cerveja tiveram queda, principalmente na faixa etária da população jovem. Houve, também, um crescimento nas frutas, legumes, verduras e produtos frescos. “De uma forma geral, a gente não consegue associar essa alta de consumo pelas drogas limitadoras de apetite, não conseguimos ter essa correlação direta”, afirma Gibotti. O principal fator que limita essa correlação direta é que, no Brasil, a medicação ainda está restrita a pessoas de maior renda, considerando que o custo das canetas ainda é alto. Nas farmácias, agulhas da caneta aplicadora estão sendo vendidas entre R$ 900 a 1.300.
Indústrias farmacêuticas estão começando pesquisas para a fabricação de uma versão genérica do Ozempic. A quebra da patente está prevista para acontecer em 2026 e estima-se que poderão oferecer os medicamentos a um preço entre R$ 200 a R$ 350 por caneta. “Quando essas drogas se popularizarem, os impactos no consumo já serão sentidos nas vendas globais das lojas de mercado. Hoje a gente tem muitas pessoas usando no Brasil, mas ainda é um grupo restrito e isso ainda não tem impactado diretamente as vendas. Começam a impactar a partir do momento que esse número de usuários cresce”.
Com esse cenário, o conselho para o varejo é se preparar e observar. Gibotti explica que muitos varejistas têm acesso ao carrinho de compra individual de cada cliente, em que pode acompanhar e fazer um balanço do abandono de determinadas categorias de compras e a evolução de outras. “Essa é a grande sacada que deve ser observada pelo varejista, poder compreender quais categorias que estão rapidamente perdendo vendas e quais estão incrementando vendas para poder melhorar o mix de oferta da loja”, diz.
“Uma vez que a gente já percebe que existe esse movimento social do aumento da utilização, quem consome de forma diferente e busca mais saúde, a gente tem orientado nossos clientes a incrementar para vez mais a oferta de produtos para o consumo imediato, mas com poucos aditivos e menos processados.”