O Oscar continua relevante?
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O Oscar continua relevante?

Em tempos de Netflix, a Academia vem tentando se adaptar a uma nova realidade nos aspectos comercial e artístico e fez mudanças para tentar sanar as críticas relacionadas à falta de representatividade de mulheres, negros e outras minorias

Carlos Corrêa e Lou Cardoso

Quando o diretor Guillermo Del Toro e os produtores de “A Forma da Água” subiram ao palco do Dolby Theater, em março do ano passado em Los Angeles, para receber o Oscar de Melhor Filme, cerca de 26.5 milhões de norte-americanos estavam assistindo à entrega dos prêmios pela TV. Pode parecer muito, mas foi a pior audiência registrada pela mais prestigiada premiação do cinema nos últimos anos. Sob pressão e com o sinal amarelo ligado há mais tempo, a Academia vem tentando adaptar-se a uma nova realidade na busca por cativar audiências que não parecem mais tão interessadas em saber quem foi considerado o melhor ator ou a melhor atriz do ano. Portanto, quando neste domingo, as maiores estrelas do cinema estiverem reunidas mais uma vez no mesmo teatro para descobrir os vencedores de 2019, um questionamento (nem tão) silencioso se levanta: o Oscar ainda é relevante? Bem, a resposta não é tão simples e aqui cabe tanto um “sim” como um “não”. No entanto, o que é possível afirmar sem muito receio de errar é que essa relevância já foi maior, muito maior.

Há pelo menos dois cenários a serem avaliados a partir daqui: do ponto de vista artístico e comercial. O primeiro sempre foi e sempre será subjetivo. Conquistar a estatueta dourada segue sendo um sinal de prestígio no universo cinematográfico. “Teoricamente, é um sinal de qualidade sim. Há muita concorrência, os filmes são mais caros e portanto mais disputados também. Mas necessariamente não quer dizer que todo filme que passa lá é bom ou ótimo”, afirma o crítico e jornalista Rubens Ewald Filho. Mas a premiação transcende o cinema e a chegada dos artistas no tapete vermelho está aí para comprovar isso. Contudo, ao longo de 91 anos, a Academia se notabilizou por um perfil conservador em relação a mudanças. Havia um padrão a ser cumprido para sair vencedor e não por acaso até hoje determinadas produções são descritas como “filme de Oscar”, o que remete geralmente a histórias épicas, de superação, com uma fotografia deslumbrante e geralmente situadas em momentos marcantes da história. Só que os tempos mudaram e a necessidade de adaptação da Academia se tornou vital. “O Oscar está atualmente em uma fase de transição, tentando entender a própria relevância. É uma instituição hollywoodiana, já faz parte do sistema dessa indústria, mas a mesma indústria mudou muito ao longo dos anos”, observa a jornalista e crítica de cinema Natália Bridi, do site Omelete.

‘O Oscar está atualmente em uma fase de transição, tentando entender a própria relevância’, Natália Bridi, jornalista

Justiça seja feita, nessa fase de transição, uma série de tentativas têm sido feitas. Primeiro, abrindo o leque de votantes e possibilitando uma diversidade maior. Depois, cogitando algumas mudanças para deixar um espetáculo de três horas um pouco mais ágil para uma audiência cada vez mais acostumada a vídeos curtos do YouTube. E aí talvez comecem alguns dos problemas. A Academia sabe que precisa mudar, mas algumas tentativas tiveram péssima recepção, como a possibilidade de criar uma categoria para “melhor filme popular”, de olho nas grandes bilheterias. “Sinto que esta edição vai ser uma cobaia com todas as mudanças que estão planejando. É uma premiação que ainda é relevante e está tentando um caminho diferente, e está testando esse caminho, mais popular. Agora, não sei se vai dar resultado”, afirma a jornalista e crítica Barbara Demerov, do site Adoro Cinema. Por enquanto, o que se vê é muita contestação. “Confesso que nunca vi o caos que foi se instituindo no Oscar de uns dois ou três anos para cá. Tudo anda piorando e só o que importa é que a festa seja curta para não perder audiência. Desta forma, o Oscar vai ficando cada vez menos importante. Que triste, porque justamente este ano temos bons filmes”, lamenta Ewald Filho.

Audiência da premiação em 2018 foi a pior dos últimos anos. Foto: Frederic J.Brown/AFP

Pelo viés comercial, a análise é um pouco mais objetiva: de fato, o Oscar não é mais relevante como um dia já foi. “Só para salas de arte, mais diferenciadas. Para as mais populares não, já perdeu essa grande força. É um fenômeno que foi possível perceber nos últimos cinco, dez anos”, revela o diretor de programação do GNC Cinemas, Hormar Castello. Criador do complexo Guion Center, o jornalista Carlos Schmidt tem uma linha de pensamento semelhante, lembrando que é uma premiação que ainda mobiliza milhares de pessoas na indústria, mas que já foi muito mais forte. “Se eu disser que não é relevante, estou mentindo. Tem um batalhão de gente trabalhando para ser indicado. Continua relevante, mas perdeu um pouco do sentido”, afirma, lembrando que a maioria dos filmes exibidos nas três salas do Guion são produções premiadas de qualquer forma, seja com o Oscar ou outro selo de festival.

 

A queda da audiência do Oscar nos últimos anos não é um fenômeno isolado. Outros eventos de grande porte como o Grammy e o Superbowl também têm registrado um declínio, fruto em parte da procura do público por outras plataformas como YouTube e Twitter, onde se dá grande parte da repercussão destes shows.

Enquanto para filmes com bilheterias na casa dos nove dígitos uma indicação ao Oscar soa como um bônus ou o reconhecimento da indústria, para outros menores uma simples indicação ainda é representativa na medida em que segue abrindo portas. “As distribuidoras compram os filmes em festivais como o de Toronto na esperança de que o longa escolhido receba uma indicação, o que garante um retorno na bilheteria que não seria possível sem esse ‘selo do Oscar’”, lembra Natália. Um caso pontual neste sentido foi o de “Boy Erased”. O filme chegou a estar entre os cotados para algumas indicações como Ator para Lucas Hedges e Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman. Como não foi lembrado pela Academia, a distribuidora o retirou do seu calendário de lançamentos no Brasil, dando margem à polêmica de que teria havido censura pelo tema – a história trata de um jovem gay obrigado a uma “terapia de conversão” -, quando na prática a Universal Pictures avaliou que a relação custo-benefício não valeria a pena pela perspectiva de pouco público. “Foi uma decisão mercadológica. As distribuidoras veem que o gasto não vai compensar a bilheteria”, aponta Barbara. “É melhor ainda quando joga holofotes em obras de países e cinematografias que dificilmente entrariam em cartaz ou seriam tema de conversa num churrasco de domingo. Portanto, muitas pessoas assistirão e, consequentemente, se sentirão impelidas a verem aquelas obras que lá estão sendo debatidas e faladas”, completa o diretor Emiliano Cunha.

“Roma” chega à premiação com 10 indicações e na condição de favorito. Foto: Divulgação

Se a abertura de espaço para um serviço de streaming na principal categoria do Oscar foi uma tentativa de se adaptar aos novos tempos ou o receio de ser engolido por essas mudanças, é algo que só quem participou da decisão pode afirmar. O certo é que as dez indicações de “Roma” na edição deste ano, incluindo nas principais como Melhor Filme, Diretor, Atriz e Roteiro Original não deixam dúvida de que o conservadorismo da Academia teve que ser deixado de lado. A produção de Alfonso Cuarón chega para o prêmio na condição de favorita, algo impensável até poucos anos atrás. “Para o Oscar, aceitar finalmente o streaming é um atestado da compreensão de que Hollywood mudou e a forma como o público consome essa produção também. Um filme em preto e branco, falado parte em espanhol, parte no dialeto Mixtec e sem atores conhecidos no elenco não teria sido feito hoje em dia, quanto mais chegaria a um grande público, sem uma plataforma como a Netflix”, lembra Natália Bridi. “O Oscar é um festival que premia os filmes que a Academia achou mais relevante no que tange Arte e Indústria. E negar que o Netflix e outras plataformas fazem, hoje, parte da indústria do cinema é uma luta vã”, opina o diretor Emiliano Cunha.

Engana-se, no entanto, quem acredita que a aceitação às plataformas de streaming nas principais premiações do cinema está acontecendo sem protestos. Quando, ainda em 2017, dois filmes (“Okja” e “Os Meyerowitz”) concorreram aos prêmios principais no Festival de Cannes, diretores renomados como Pedro Almodóvar e Steven Spielberg se posicionaram contrários. “Parece um enorme paradoxo dar uma Palma de Ouro ou qualquer outro prêmio a um filme que não pode ser visto na tela grande. Respeito as novas tecnologias, mas enquanto continuar vivo vou defender algo que as novas gerações parecem não conhecer: a capacidade hipnótica de uma tela”, disse à época o espanhol. No ano seguinte, o festival alterou seu regulamento, exigindo uma janela de um ano e meio entre a exibição do filme no cinema e seu lançamento em streaming para que pudesse concorrer. A Netflix então abriu mão de Cannes, não sem marcar território. “O festival optou por celebrar a distribuição em vez de celebrar a arte do cinema”, retrucou o diretor de conteúdo da plataforma, Ted Sarandos.

“Respeito as novas tecnologias, mas enquanto continuar vivo vou defender algo que as novas gerações parecem não conhecer: a capacidade hipnótica de uma tela”, Pedro Almodóvar, diretor
“O festival (de Cannes) optou por celebrar a distribuição em vez de celebrar a arte do cinema”, Ted Sarandos, diretor de conteúdo do Netflix

A indicação de “Roma”, com status de favorito, parece indicar que a Netflix ganhou a queda de braço e mesmo movimentos como o da rede de cinemas britânica Vue, que ameaça boicotar o Bafta, principal premiação do cinema no Reino Unido, por ter permitido que a produção de Alfonso Cuarón participasse da disputa – e ganhasse quatro troféus – soam como uma última esperneada antes da aceitação irrestrita. “Os donos das salas de cinema querem que os filmes mais famosos e que dariam mais renda sejam exibidos só no cinema. Mas o mundo está mudando e a verdade é que filmes como esse não são produzidos por estúdios que investem em blockbusters. As formas são inevitáveis, vai continuar assim daqui para frente. Cannes que pare de ser chata”, diz Ewald Filho.

Em Porto Alegre, os responsáveis pelas salas de cinema de Porto Alegre encaram a questão sob diferentes prismas. Para Hormar Castello, do GNC Cinemas, há espaço para todos, já que são públicos distintos. “São mercados que se complementam”, afirma. Já Carlos Schmidt, do Guion, vê a ascensão dos serviços de streaming como uma ameaça em potencial para a forma como o cinema como programa é visto hoje. “Acho que essa obsoletagem programada é preocupante. A Netflix vem na contramão no que vinha se fazendo em termos de produção, eles produzem pra eles mesmos. É um pré anúncio de morte da exibição como era antes”, prevê, lembrando que outro concorrente é a pirataria, já que uma série de sites oferecem filmes que sequer chegaram ainda às salas do país. Desde que alguns ajustes sejam feitos ao longo do processo, Leonardo Bomfim, da Cinemateca Capitólio, vê com bons olhos as novas tecnologias. “As plataformas de streaming são incríveis, você pode ver um filme em boa qualidade em qualquer lugar. Muitos que não são distribuídos comercialmente, inclusive. Elas alimentam a cinefilia e dialogam muito bem com a programação das salas de cinema, que naturalmente não dão conta de tudo. Mas essa ideia da exclusividade, de impedir que o filme seja exibido em sala de cinema, eu acho muito problemática”, pondera.

Alfonso Cuarón (E) dirigiu, roteirizou e fez a fotografia de Roma. Foto: Divulgação

No caso de “Roma”, houve a possibilidade para que quem assim preferisse, pudesse assistir ao filme no cinema, no caso na Cinemateca Capitólio. “As sessões foram bem interessantes. É um filme que divide bastante o público, mas vi que muitas pessoas já tinham assistido na televisão e quiserem rever na telona. A experiência é outra, tem todo um trabalho sofisticado de som que se perde sem o equipamento adequado. Isso sem falar na opção do Cuarón de manter a câmera distante. Dependendo do tamanho da televisão, nem dá pra ver o rosto das pessoas. No cinema, Roma acontece de verdade”, garante o programador da sala, descrevendo um perfil de audiência um tanto quanto diferente: “Foi curioso ver que o público das sessões na Cinemateca era bem diferente do habitual. Recebemos reclamações inéditas: não ter pipoca pra vender, a poltrona não ser numerada. O público realmente interessado em “Roma” é o público acostumado com o padrão dos multiplexes”, revela.

Para além da questão comercial, há o entendimento de que as plataformas de streaming são vistas muito mais como um pró do que como um contra, uma vez que são novos atores no processo investindo nas produções, com a vantagem de ter uma distribuição muito maior. “Elas são amigas do cinema, proporcionam mais opções e estão produzindo filmes e séries muito boas. A maioria dos consumidores do Netflix também vai ao cinema. As salas continuam sendo a melhor opção, pelo menos para mim, mas as pessoas têm o direito de consumir produtos audiovisuais onde e quando quiserem”, afirma o diretor Carlos Gerbase, que completa: “O streaming é uma boa alternativa para vender filmes e séries brasileiras. Há vários modelos de negócio, e os produtores estão ainda aprendendo a escolher. Creio que, com o passar dos anos, e a entrada de novas empresas no setor, será a principal fonte de renda, como já foi em DVD. Aliás, quase todo mundo esquece que, no Brasil, o mercado de DVDs já foi mais rentável que o das salas de cinema”.

Lupita Nyong’o conquistou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante em 2014. Foto: Kevin Winter/AFP

Em 91 anos de história, a Academia demorou para prestar atenção na sua fórmula de premiados e indicados. Por conta do ativismo social que despertou forças através da Internet, a mudança só ocorreu, de fato, em 2016, após manifestações e boicotes de importantes nomes da indústria pela falta da representatividade negras, de mulheres e outras minorias na lista de indicados na premiação. Para promover a diversidade e dobrar este número até 2020, a Academia então anunciou algumas medidas como a duração de 10 anos para cada membro ter o privilégio de participar da votação, que pode ou não ser renovado, dependendo se a pessoa continuou na ativa na indústria cinematográfica neste período. Além disso, o voto vitalício só será concedido ao membro que passar por três renovações, receber uma indicação ao Oscar ou conquistar uma estatueta. A regra se aplica, especialmente, para os votantes mais velhos na tentativa de diminuir a sua influência no meio da votação. O Conselho de Governadores também receberá a indicação de três novos membros que poderão participar das principais decisões durante três anos, e a Academia realizará uma campanha global para identificar e recrutar novos e qualificados membros pertencentes a minorias. No processo de renovação, artistas brasileiros como o ator Rodrigo Santoro e o diretor Kleber Mendonça Filho passaram a ter direito a voto também. 

Na teoria tudo muito bem, tudo muito bom, mas a partir das novas medidas houve de fato uma evolução na busca por mais igualdade entre os indicados? Os números mostram que artistas negros passaram a ter mais visibilidade, mas em relação às mulheres, as mudanças foram muito pequenas. Na comparação com as três edições anteriores à alteração de regras em 2016, é visível a ausência de negros e mulheres indicados nas nove principais categorias. Em 2014, sete foi a soma total dos indicados, sendo que duas são mulheres brancas, quatro homens negros e uma mulher negra. Destes, apenas dois saíram premiados naquele ano pelo filme “12 Anos de Escravidão”: Lupita Nyong’o como Melhor Atriz Coadjuvante e John Ridley em Melhor Roteiro Adaptado.

Já em 2015, a premiação foi uma típica “festa do homem branco”. Naquela ocasião, nenhum cineasta, produtor(a) ou ator/atriz negro(a) foi lembrado nas principais indicações. Afora as categorias de Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante, apenas uma mulher concorreu por uma outra função: Sandra Adair pela edição do filme “Boyhood”. No ano da mudança, em 2016, as novas regras não chegaram a, de fato, serem colocadas na prática. Contudo, as mulheres tiveram um certo reconhecimento com um total de sete indicações, sendo duas em Melhor Roteiro Original, duas em Roteiro Adaptado e três em Melhor Edição. Em 2017, a representatividade enfim chegou com um pouco mais de força. Entre homens e mulheres negras, o número chegou a 12 indicações, sendo que dois saíram premiados nas categorias de Melhor Ator e Atriz Coadjuvante: Mahershala Ali por “Moonlight” e Viola Davis por “Um Limite entre Nós”. Apenas uma mulher foi indicada entre tantos homens nas categorias técnicas: Allison Schroeder pelo Roteiro Adaptado do filme “Estrelas Além do Tempo”. Em 90 anos de história, esta foi a edição no qual foi a primeira vez que um homem negro e uma mulher negra foram indicados nas categorias de Melhor Fotografia - Bradford Young por “A Chegada” - e Melhor Edição - Joi McMillon por “Moonlight”. Comprovando ser mais uma edição histórica, esta também foi a primeira vez em que três mulheres negras foram indicadas ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer por “Estrelas Além do Tempo” e Naomi Harris por “Moonlight”, além da vencedora Viola Davis.

No ano passado, subiu para 13 o total de indicados entre negros e mulheres, mas apenas um saiu premiado naquela noite: Jordan Peele, que levou o Melhor Roteiro Original pelo filme “Corra”. Ainda em 2018, a premiação indicou, pela primeira vez, uma mulher negra ao prêmio de Melhor Roteiro Adaptado - Dee Rees por “Mudbound” - e Rachel Morrison foi também a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção de Fotografia pelo mesmo filme. A premiação deste domingo, no entanto, deu uma diminuída nas suas indicações entre negros e mulheres, caindo para oito o total das nomeados, sendo que apenas em Melhor Roteiro Adaptado junta estão três homens negros e uma mulher branca.

Apesar do pouco avanço, desde das novas regras aplicadas, as mulheres negras não chegaram ao mesmo nível de igualdade em comparação aos homens negros. Desde 2002, quando Halle Berry foi a primeira negra a levar o Oscar de Melhor Atriz pelo filme “A Última Ceia”, nenhuma outra mulher negra repetiu o feito. E tampouco aumentaram o número de indicações. Desde do início dos anos 2010, apenas Gabourey Sidibe (“Preciosa, 2010), Viola Davis (“Histórias Cruzadas”, 2012), Quvenzhané Wallis (“Indomável Sonhadora”, 2013) e Ruth Negga (“Loving”, 2017) foram indicadas, sendo que os homens negros foram lembrados 11 vezes e saíram mais premiados do que as mulheres. Só Denzel Washigton foi indicado três vezes (conquistou em 2002 por “Dia de Treinamento”), Jamie Foxx foi indicado e premiado por “Ray” em 2005, assim como Forrest Whitaker em 2007 por “O Último Rei da Escócia”.

“Não adianta fazer campanha e não exercer. É muito difícil”, Barbara Demerov, jornalista

Para Barbara Demerov, apesar destas manifestações a favor de maior representatividade feminina, o reconhecimento ainda é baixo. “As mulheres estão super em baixa. Ano passado tivemos apenas uma mulher indicada a Melhor Direção com Greta Gerwig. Não adianta fazer campanha e não exercer. É muito difícil”, lamenta. Contudo, ela enxerga que a mudança só virá por meio das próprias mulheres. “Tanto é que tem mulheres prometendo que vão trabalhar com mulheres para ajudar nesse ciclo, uma mão ajuda a outra. Tem que começar por alguém”, observa.

A indicação de filmes de sucesso como “Pantera Negra” indica a busca de aproximação junto ao público por parte da Academia. Foto: Divulgação

Mudar as formas de votação e de quem vota foi apenas uma das manobras do Oscar abrir as suas portas na busca por mais diversidade. Contudo, a premiação também luta para mudar a sua imagem como espetáculo. A longa duração, chegando a mais de três horas em pleno domingo a noite, não é um dos meios mais atrativos para levar o público para frente da televisão. “Não gosto da cerimônia. Acho chata, previsível, cafona. Durmo antes da segunda música. Ou antes”, reclama Gerbase. Com base em afirmações como essa, a própria Academia havia anunciado que a entrega dos prêmios de Melhor Fotografia, Edição, Maquiagem e Curta-Metragem ocorreria durante o intervalo comercial e não durante a transmissão ao vivo da cerimônia. Só que a decisão gerou uma onda de manifestações de diversos cineastas que não concordaram com a exclusão destas categorias. Diretores como Alfonso Cuarón, Spike Lee, Quentin Tarantino e Martin Scorsese chegaram a assinar uma carta aberta pedindo que a premiação transmitisse a entrega destes prêmios ao vivo e não durante o intervalo comercial. Surtiu efeito. A organização voltou atrás na decisão, no último dia 15, e a cerimônia contará com a entrega ao vivo de todas as categorias.

Mesma situação ocorreu com a apresentação das músicas indicadas na categoria Melhor Canção Original, na qual até então, apenas três indicados cantariam na premiação. Lady Gaga, uma das indicadas, bateu o pé contra a decisão e pediu para que todos os concorrentes se apresentassem ao vivo, do contrário, a própria não subiria no palco neste domingo. Mais uma vez, a Academia cedeu às manifestações contrárias as suas tentativas de renovação e manteve a tradição. Apesar destas tentativas, o Oscar não se adaptou as novas formas de consumir audiovisual no conforto de casa. Conforme alerta Natália Bridi, “a forma como se consome TV mudou. Esperar repetir os números do passado é não reconhecer que isso aconteceu”. “A relação do público com a televisão não é passiva como antigamente, com o usuário podendo escolher o que ver, quando ver é como ver (na TV, no tablet, no computador, no celular). Sem mencionar que a audiência não se mede mais apenas pelo programa em si, mas pelo alcance do assunto nas redes sociais, a capacidade de comandar os assuntos no dia seguinte”, relata.

“Bohemian Rhapsody” é um dos três indicados a Melhor Filme com bilheteria superior a US$ 200 milhões. Foto: Divulgação

Outra medida para se aproximar da audiência foi a já citada e fracassada tentativa de criar a categoria “Melhor Filme Popular”, que acabou não saindo do papel. Coincidência ou não, este ano, pelo menos três filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme renderam uma boa bilheteria e são considerados filmes populares: “Nasce uma Estrela”, “Bohemian Rhapsody” e “Pantera Negra”. Este último, inclusive, fez história ao ser o primeiro filme de super-herói indicado ao principal prêmio. Segundo Barbara Demerov, a premiação quer abrir os horizontes ao gênero comercial. “A Academia quer incluir mesmo, estão mais abertos”, diz. Entretanto, para a jornalista a premiação ainda carrega um viés social mais forte do que premiar um filme pop por causa do seu alcance. “’Bohemian’ não entendo a indicação e é um desperdício de lugar. Gostaria que “Infiltrado na Klan” ganhasse por conta do apelo político da época que vivemos hoje, mas ainda acho que “Roma” vai ganhar por conta da relevância”, arrisca.

Já Natália Bridi recorda que não é de hoje que filmes comerciais marcam presença na premiação. Como foi o caso de “Star Wars - Uma Nova Esperança”, indicado em dez categorias, incluindo Melhor Filme, e que levou seis estatuetas (além de um prêmio especial pela criação dos efeitos de som) em 1978. Poucos anos depois, “E.T.: O Extraterrestre” foi indicado em nove categorias, incluindo Melhor Filme, e levou quatro estatuetas. “A grande mudança seria dar de fato o prêmio principal para um desses filmes, principalmente o ‘Pantera Negra’, já que os ‘filmes de herói’ se tornaram uma parte oficial da produção hollywoodiana”, explicou.

Confira todos os indicados ao Oscar 2019

“Green Book” concorre a cinco estatuetas. Foto: Divulgação

Melhor Filme

“Bohemian Rhapsody”

“Infiltrado na Klan”

“Nasce uma Estrela”

“Green Book”

“Roma”

“Vice”

“A Favorita”

“Pantera Negra”

Melhor Diretor

Spike Lee  - “Infiltrado na Klan”

Yorgos Lanthimos  - “A Favorita”

Alfonso Cuarón - “Roma”

Adam McKay - “Vice”

Pawel Pawlikowski - “Guerra Fria”

Melhor Atriz

Lady Gaga - “Nasce uma Estrela”

Glenn Close - “A Esposa”

Yalitza Aparicio - “Roma”

Olivia Colman - “A Favorita”

Melissa McCarthy - “Poderia me Perdoar?”

Glenn Close é a favorita com “A Esposa”. Foto: Divulgação

Melhor Ator

Christian Bale - “Vice”

Bradley Cooper - “Nasce uma Estrela”

Willem Dafoe - “No Portal da Eternidade”

Rami Malek - “Bohemian Rhapsody”

Viggo Mortensen - “Green Book”

Rami Malek deve levar o prêmio de Melhor Ator. Foto: Divulgação

Melhor Atriz Coadjuvante

Amy Adams - “Vice”

Regina King - “Se a Rua Beale Falasse”

Emma Stone - “A Favorita”

Rachel Weisz - “A Favorita”

Marina de Tavira - “Roma”

Rachel Weisz concorre por “A Favorita”. Foto: Divulgação

Melhor Ator Coadjuvante

Adam Driver - “Infiltrado na Klan”

Mahershala Ali – “Green Book”

Richard E. Grant – “Poderia me Perdoar?”

Sam Elliott - “Nasce uma estrela”

Sam Rockwell – “Vice”

Mahershala Ali é o favorito a Melhor Ator Coadjuvante. Foto: Divulgação

Melhor Trilha Sonora

Ludwig Goransson - “Pantera Negra”

Nicholas Britell - “Se a Rua Beale Falasse”

Marc Shaiman - “O Retorno de Mary Poppins”

Terence Blanchard - “Infiltrado na Klan

Alexandre Desplat - “Ilha dos Cachorros”

Melhor Roteiro Original

Deborah Davis e Tony McNamara - “A Favorita”

Paul Schrader - “First Reformed”

Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e Peter Farrelly - “Green Book”

Alfonso Cuarón - “Roma”

Adam McKay - “Vice”

Melhor Roteiro Adaptado

Eric Roth, Will Fetters e Bradley Cooper - “Nasce uma Estrela”

Joel Coen e Ethan Coen - “A Balada de Buster Scruggs”

Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e Spike Lee - “Infiltrado na Klan”

Barry Jenkins - “Se a Rua Beale Falasse”

Nicole Holofcener e Jeff Whitty - “Poderia me Perdoar?”

Melhor Maquiagem e Penteado

Goran Lundstrom e Pamela Goldammer - “Border”

Jenny Shircore, Marc Pilcher e Jessica Brooks - “Duas Rainhas”

Greg Cannom, Kate Biscoe e Patricia DeHaney - “Vice”

Melhor Figurino

Mary Zophres - “A Balada de Buster Scruggs”

Ruth E. Carter - “Pantera Negra”

Sandy Powell - “A Favorita”

Sandy Powell - “O Retorno de Mary Poppins”

Alexandra Byrne - “Duas Rainhas”

Melhor Fotografia

Robbie Ryan - “A Favorita”

Caleb Deschanel - “Never Look Away”

Alfonso Cuaron - “Roma”

Matty Libatique - “Nasce uma Estrela”

Lukasz Zal - “Guerra Fria”

Lady Gaga deve levar o prêmio de Melhor Canção. Foto: Divulgação

Melhor Canção Original

“All the Stars” - “Pantera Negra”

“I´ll Fight” - “RBG”

“The Place Where Lost Things Go” - “O Retorno de Mary Poppins”

“Shallow” - Nasce uma Estrela

“When a Cowboy Trades His Spurs for Wings” - “A Balada de Buster Scruggs”

Melhor Documentário

“Free Solo”

“Hale County this Morning, this Evening”

“Minding the Gap”

“Of Fathers and Sons”

“RBG”

“Homem-Aranha no Aranhaverso” concorre a Melhor Animação. Foto: Divulgação

Melhor Animação

“Os Incríveis 2”

“Homem-Aranha no Aranhaverso”

“Ilha dos Cachorros”

“Mirai”

“WiFi Ralph”

Melhor Filme Estrangeiro

“Cafarnaum”

“Guerra Fria”

“Never Look Away”

“Roma”

“Assunto de Família”

Melhor Mixagem de Som

Steve Boeddeker, Brandon Proctor e Peter Devlin - “Pantera Negra”

Paul Massey, Tim Cavagin e John Casali - “Bohemian Rhapsody”

Jon Taylor, Frank A. Montaño, Ai-Ling Lee e Mary H. Ellis - “O Primeiro Homem”

Skip Lievsay, Craig Henighan and Jose Antonio Garcia - “Roma”

Tom Ozanich, Dean Zupancic, Jason Ruder e Steve Morrow - “Nasce uma Estrela”

Melhor Edição de Som

Benjamin A. Burtt e Steve Boeddeker - “Pantera Negra”

John Warhurst e Nina Hartstone - “Bohemian Rhapsody”

Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan - “O Primeiro Homem”

Ethan Van der Ryn e Erik Aadahl - “Um Lugar Silencioso”

Sergio Diaz e Skip Lievsay - “Roma”

Melhor Direção de Arte

Hannah Beachler e Jay Hart - “Pantera Negra”

Fiona Crombie e Alice Felton - “A Favorita”

Nathan Crowley e Kathy Lucas - “O Primeiro Homem”

John Myhre e Gordon Sim - “O Retorno de Mary Poppins”

Eugenio Caballero e Barbara Enriquez - “Roma”

“Vingadores Guerra Infinita” pode vencer em Melhores Efeitos Visuais. Foto: Divulgação

Melhores Efeitos Visuais

Dan DeLeeuw, Kelly Port, Russell Earl e Dan Sudick - “Vingadores - Guerra Infinita”

Christopher Lawrence, Michael Eames, Theo Jones e Chris Corbould - “Christopher Robin”

Paul Lambert, Ian Hunter, Tristan Myles e J.D. Schwalm - “O Primeiro Homem”

Roger Guyett, Grady Cofer, Matthew E. Butler e David Shirk - “Jogador Nº 1”

Rob Bredow, Patrick Tubach, Neal Scanlan e Dominic Tuohy- “Solo - Uma História Star Wars”

Melhor Edição

Barry Alexander Brown - “Infiltrado na Klan”

John Ottman - “Bohemian Rhapsody”

Yorgos Mavropsaridis - “A Favorita”

Patrick J. Don Vito - “Green Book”

Hank Corwin - “Vice”

Melhor Curta de Animação

“Animal Behavior”

“Bao”

“Late Afternoon”

“One Small Step”

“Weekends”

Melhor Curta

“Detainment”

“Fauve”

“Marguerite”

“Mother”

“Skin”

Melhor Curta Documentário

“Black Sheep”

“End Game”

“Lifeboat”

“A Night at the Garden”

“Period. End Of Sentence”

 

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