Quando a tecnologia passa a atrapalhar
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Quando a tecnologia passa a atrapalhar

Telemarketing, ligações que não se completam, repetidas chamadas no meio da noite ou aos finais de semana e tentativas de golpes, tudo faz parte dos inconvenientes da tecnologia de comunicação

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Christian Bueller/Foto: Ricardo Giusti

Os avanços da tecnologia trouxeram facilidades, encurtaram caminhos, aceleraram processos e levaram um mundo inteiro para a palma da mão. Mas, com os benefícios, vêm também as incomodações, e não são poucas no universo cibernético. As mazelas do contexto real dos seres humanos se reproduzem nas telas de telefones celulares, tablets e computadores, com situações que vão desde o “assédio” de call centers dos mais diversos segmentos até tentativas de golpes, igualmente variados. Um dos mais comuns ainda é o do falso operador de telemarketing, que entra em contato com a pessoa cobrando por serviços ilegítimos. O motivo muda, mas a exigência de transferência de dinheiro é um dos elos que ligam as tentativas criminosas, que podem ser desde pedidos de dados sigilosos até comunicações de sequestros. 

Foi o que aconteceu em Porto Alegre com o auxiliar de serviços gerais Daltro Menezes, que recebeu uma ligação e ficou desesperado: um homem dizia estar de posse do seu filho, então com 12 anos de idade. Para devolvê-lo com vida, somente mediante pagamento de resgate. De quebra, o suposto menino foi colocado ao telefone. “A voz era idêntica”, diz o pai. Ao tentar realizar o saque, um funcionário percebeu a aflição de Daltro e alertou a Polícia Civil, que conseguiu, após três horas de tensão, localizar a criança. Ao rastrearem a ligação telefônica, os agentes descobriram que os criminosos falavam de dentro de uma penitenciária no Rio de Janeiro. 

Casos como o de Daltro ocorrem com frequência e, por vezes, o final não é o mesmo e as pessoas acabam em prejuízo. Por isso, ligações de telemarketing passaram a ser alvos de desconfiança. “Não é toda ligação que atendo”, diz a diarista Flávia Passos. “Nunca sei se é verdade ou não. Muitas vezes é de fora do Rio Grande do Sul”, completa. 

Brasil é o país que mais recebeu ligações do tipo spam em 2018, ultrapassando a Índia. Foto: Shutterstock/CP

O serviço de telemarketing foi popularizado nos anos 1950 nos Estados Unidos, quando começaram as vendas de anúncios de jornais e páginas amarelas por telefone, mesmo sem esta terminação. Além das próprias operadoras de telefonia, usam essa técnica as empresas que atendem operadoras de internet, TV a cabo, bancos e outros tipos de instituições, prestando serviços como SAC (atendimento ao consumidor), vendas, cobrança, retenção e fidelização de clientes.

Na verdade, a história do telemarketing é mais antiga. No início dos anos 1900, quando se começou a compilar e vender listas telefônicas locais, a primeira tinha em torno de 600 mil números norte-americanos. Naquela época, o sistema telefônico recém desenvolvido alcançava apenas pessoas de posse. Linhas telefônicas ainda eram consideradas bens de luxo. Portanto, o público-alvo oferecia enorme potencial de retorno. Na metade do século 20, a primeira empresa de telemarketing, a DialAmerica, fez as primeiras chamadas para clientes. Montou seu primeiro call center com apenas duas estações de chamada – uma de entrada e uma de saída. 

O sucesso da estratégia se intensificou na economia em expansão do pós-guerra. Anos depois, o sistema PMBX foi inventado, com quadros de distribuição gigantes operados por recepcionistas. Elas conectavam manualmente as chamadas ao ramal correto. Naquela época, o setor ainda era bastante povoado por mulheres, por ter abordagem calorosa, natureza agradável e salário mais barato. Hoje, a DialAmerica é um dos maiores centros de atendimento operacional do mundo. 

Com o aumento da demanda, cresceu o número de atendimentos remotos, aqueles gravados, em que o cliente “fala com a máquina”. O que era para ser uma facilidade se tornou incômodo para muita gente. Dependendo das dívidas de determinada pessoa, as ligações de setores de telemarketing passaram a ser uma espécie de ameaça àqueles que “devem na praça”. “Está certo que tenho muitas pendências, mas precisam me avisar a toda hora?”, questiona a aposentada Jurema Assaf, de 66 anos. Ela diz utilizar o telefone celular apenas para manter contato com filhos e netos, mas se viu em uma sucessão de contatos telefônicos indesejados. “Ah, são umas 20 ligações por dia durante a semana”, afirma. 

Segundo levantamento da empresa Truecaller, especializada em identificações de chamadas, o Brasil é o país que mais recebeu ligações do tipo spam em 2018 (ano da última divulgação), ultrapassando a Índia. O telemarketing foi o serviço que mais incomodou clientes, com 36% dos contatos, seguido pelas operadoras telefônicas que oferecem planos de dados gratuitos ou ligações ilimitadas aos usuários (32%). 

Sem telemarketing

Mesmo ainda desconhecido por boa parte das pessoas, o serviço de bloqueio do telemarketing proporcionado pelo Procon-RS possibilita ao consumidor, desde de dezembro de 2010, cadastrar linhas telefônicas e evitar a ligação de determinados números. A lei do “Não Perturbe” existe também em São Paulo, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Ceará e Alagoas.

Com este recurso, o cidadão pode registrar, sem custo, até três números de telefones fixo ou móvel, do Rio Grande do Sul, que estiverem em seu nome. Após 30 dias da inscrição, as empresas ficam proibidas de ligar, a não ser que tenham autorização por escrito. A autorização deve seguir o padrão do Procon-RS e não pode ser utilizada em contratos de adesão ou servir de instrumento para a venda de produtos e serviços. O consumidor não pode ser obrigado a assinar uma autorização. Se isso ocorrer, o fato deverá ser comunicado a um órgão de defesa do consumidor pela prática abusiva. 

Call centers que descumprirem a lei estão sujeitos à multa de R$ 10 mil. Pesquisas de satisfação pós-venda e cobranças continuam a ser feitas, destinadas ao próprio consumidor. O que a empresa fica impossibilitada é de oferecer produtos e serviços. No espaço disponibilizado pelo Procon, o consumidor pode, além de bloquear ou desbloquear linhas telefônicas, registrar reclamação contra alguma empresa que tenha desrespeitado o bloqueio. Recentemente, o órgão gaúcho multou a empresa Claro S.A. por violar a lei que estabelece as regras para o bloqueio do recebimento de ligações de telemarketing. Segundo o diretor do Procon-RS, Felipe Martini, trata-se da maior multa já aplicada pelo Procon gaúcho. O valor foi fixado em R$ 2,8 milhões, correspondente a 283 ligações indevidas, denunciadas no sistema por 185 consumidores. A empresa recorreu. 

O total de números telefônicos cadastrados no sistema de bloqueio “antitelemarketing” ultrapassou os 200 mil em 2018. As empresas podem acessar os números que não podem mais receber ligações com ofertas de produtos ou serviços no site do Procon-RS. Na consulta, os demais dados dos consumidores serão mantidos sob sigilo. Companhias de outros estados também ficam proibidas de efetuar ligações para os números bloqueados.

Como fazer para bloquear chamadas indesejadas de telemarketing:

1º passo

Entre no site 

2º passo

Sugestão: antes de começar a fazer o cadastro, leia “Perguntas e Respostas” à esquerda no site, para somente depois começar o preenchimento dos dados.

3º passo

Vá em “Cadastro de Bloqueio” localizado à esquerda na página.

4º passo

Preencha os dados corretamente, digite os números e letras que aparecem na imagem e clique em Enviar.

5º passo

Abra seu e-mail, copie a senha para poder acessar o “Login” e continuar o cadastro. O login será sempre o seu CPF e a senha é um código de letras e números enviados pela Companhia de Processamento de Dados do RS (Procergs).

6º passo

Clique em “Login” à esquerda na página. No espaço destinado ao “Login”, digite o número do CPF e, no espaço “Senha”, digite a senha recebida por e-mail exatamente igual: cuidando para digitar letras maiúsculas e minúsculas conforme recebido. Depois clique em Enviar.

7º passo

Coloque o DDD do seu telefone. Exemplo: 51 para Porto Alegre e Região Metropolitana. Depois digite o número do seu telefone. Selecione a operadora. Após isso, clique em “Adicionar telefone”. Abaixo aparecerá DDD, número do telefone, operadora, bloqueio a partir de “data tal...” e situação “Aguarda prazo de 30 dias”.

8º passo

Você poderá também se quiser autorizar alguma empresa a continuar lhe telefonando clicar em “Autorização” e preencher o termo que aparece na tela (deverá ter em mãos o CNPJ dessa empresa), para depois entregar na empresa autorizada a continuar lhe telefonando. Depois de preenchida a autorização, você deverá imprimir e entregar pessoalmente no seu banco, lojas, etc.

Como funciona após o bloqueio:

Após 30 dias da inscrição das linhas telefônicas, as empresas de telemarketing estarão proibidas de efetuar as ligações. A inscrição das linhas não bloqueia as chamadas de entidades filantrópicas, que solicitam doações e empresas autorizadas pelo titular. No caso de ligações de empresas de cobrança, o Código de Defesa do Consumidor, artigo 42, proíbe chamadas para o trabalho, casa de parentes e/ou vizinhos, informando que o motivo da ligação é a cobrança de dívidas.

Como desbloquear um número já bloqueado:

Não há prazo determinado para o fim do bloqueio, que pode ser realizado a qualquer momento pelo consumidor, no próprio portal, se desejar receber ligações de uma ou mais empresas de telemarketing. Deverá também preencher o “Termo de Autorização” padrão, disponível ao acesso pelo consumidor e pela empresa. Este documento deve ficar de posse da empresa, que poderá ligar para um número bloqueado somente a partir desta autorização.

Como reclamar:

Caso o consumidor tenha efetuado o bloqueio de ligações de telemarketing de suas linhas telefônicas e receba chamadas desse tipo após os 30 dias, poderá denunciar ao Procon-RS na página do órgão na internet fazendo login com CPF e senha do próprio consumidor cadastrado, clicando no ícone “Denúncia”, digitando nome da empresa, telefone, nome do atendente, data, hora e produto oferecido, para possibilitar ao Procon Estadual encaminhar processo administrativo contra a empresa reclamada.

Operadoras se "redimem"

No Brasil, o prazo para que as empresas de telecomunicação publicassem a lista de consumidores incluídos na relação de não receptores de ligações de telemarketing se encerrou em 16 de julho deste ano. Algumas das principais companhias do ramo (Algar, Net/Claro, Nextel, Oi, Sercomtel, Sky, Tim e Telefônica/Vivo) criaram a página Não Perturbe (www.naomeperturbe.com.br). É basicamente um cadastro semelhante ao do Procon-RS para que o consumidor solicite o bloqueio do recebimento de ligações de telemarketing relativas a ofertas de serviços como telefone móvel, telefone fixo, TV por assinatura e Internet. Os clientes de linhas telefônicas poderão inscrever os respectivos números no site, em que o usuário deve informar o número de telefone que deseja bloquear e a prestadora da qual não deseja receber chamadas. O bloqueio ocorrerá em até 30 dias corridos a partir da data de solicitação. A iniciativa, apresentada à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), foi acatada e formalizada para implantação em 16 de julho. A Claro S/A, multada pelo Procon-RS e participante do Não Perturbe não se pronunciou sobre o tema.

Mas a preocupação com a insatisfação de clientes é mais antiga. Criado em 2005, o Programa Brasileiro de Autorregulação do Setor de Relacionamento (Probare) nasceu da Associação Brasileira das Relações Empresa Cliente (Abrarec), da Associação Brasileira de Telesserviços (ABT) e da Associação Brasileira de Marketing de Dados (Abemd), que, juntas, identificaram a necessidade de aprimorar o atendimento aos consumidores no Brasil. Há 14 anos, o Código de Ética do Probare previa regras sobre a oferta de produtos e serviços que convergiam interesse de consumidores e empresas. Um exemplo é o artigo 7º, que prevê: “Os responsáveis pelo serviço devem utilizar as informações dos consumidores de maneira adequada e respeitar o seu desejo em retirar estas informações das bases de dados”.

O presidente da ABT, John Anthony Von Christian, acredita que a iniciativa das operadoras mostra transparência. “É muito melhor para o consumidor, mais ético.” A ABT, com 23 empresas associadas, tem 450 mil trabalhadores. Mas, contando todos os empregos, o setor já congrega mais de 1 milhão de funcionários no país. Na prática, o Probare não colou, já que o site Não Perturbe, até novembro, já recebeu mais de 2,3 milhões de pedidos (2 milhões de telefones celulares e cerca de 300 mil de aparelhos fixos) de distância dos chamados “robozinhos” que incomodam os clientes. 

Alô? Tu, tu, tu...

Outra incomodação comum aos clientes é o recebimento constante de ligações que não completam, como se a pessoa do outro lado do telefonema “desligasse na cara”. “Parecem trotes ou tentativas de golpes. Acontece direto”, diz o comerciante Alfredo Góes, 54 anos. Ele diz receber “uma dúzia” de ligações deste tipo, à noite e também aos finais de semana. Segundo o gerente comercial da Teclan Engenharia de Software para call centers, Paulo Marques, o procedimento é, na verdade, um mecanismo para não deixar o processo de telemarketing ocioso. “Chamados de Over ou Power Dialing, estes sistemas não têm um software inteligente por trás. A máquina liga até o cliente atender e falar com um funcionário. Isso permite que alguém receba dezenas de ligações no dia”, explica. 

Discadores automáticos subsituíram os operadores, que faziam as ligações. Foto: Shutterstock/CP

Até o início dos anos 2000, os contatos eram feitos manualmente pelos operadores. Se o cliente não atendesse, era preciso ligar novamente até que houvesse diálogo. Foi desenvolvida então a prática de uso de discadores automáticos. Na técnica conhecida como hang up, várias pessoas são contatadas e, quando uma atende, o operador passa a tentar vender seu produto ou realizar a cobrança. E as outras chamadas são abortadas. A chamada cai, portanto, para os outros clientes. “Essas discagens excessivas são um problema para as pessoas e para a infraestrutura. A sobrecarga da rede impacta no custo da telefonia no país”, alerta Marques, que lembra não haver uma regulamentação sobre este tipo de ação no Brasil. “Há uma restrição para que não se faça ligações entre 21h e 7h. Mas abusos ocorrem”, explica o especialista.

Nova lei pode ajudar

Promulgada em 2018, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) entrará em vigor em agosto deste ano com a missão de dar tratamento adequado às informações pessoais, pedidas, por exemplo, em ligações de telemarketing. A mudança empodera o consumidor e garante a indenização na ocorrência de danos causados ao titular por parte das empresas, que ganharam prazo de dois anos para se adequar desde a assinatura da lei pelo então presidente Michel Temer. As empresas deverão garantir a segurança dos dados pessoais e comunicar incidentes de segurança. 

Delegado especialista em crimes cibernéticos, o diretor do Departamento de Inteligência de Segurança Pública (Disp) da Secretaria da Segurança Pública do Estado, Emerson Wendt, acredita que a nova legislação vai complementar a proteção de dados dos usuários. De acordo com ele, toda pessoa física ou jurídica que armazenar dados que levem a identificação de alguém “vai estar obrigada a cumprir o que diz a lei”. Outra mudança significativa com a LGPD é quanto ao tratamento de informações pessoais de crianças e adolescentes que exigirão atenção especial, como o consentimento de um dos pais antes da coleta dos dados. As multas previstas para o descumprimento variam de 2% do faturamento bruto até R$ 50 milhões por infração.

Considerados vilões no que diz respeito ao tema, os bancos saíram na frente. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) anunciaram a criação do Sistema de Autorregulação de Operações de Empréstimo Pessoal e Cartão de Crédito com Pagamento Mediante Consignação, que entrou em vigor em 2 de janeiro de 2020. Vinte e três instituições e conglomerados aderiram ao Não Perturbe. Juntas, as instituições representam 97,88% do volume da carteira de crédito consignado de bancos em todo o país. São elas, Agibank, Alfa, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banrisul, Barigui, Bradesco, BMG, BRB, Caixa, Cetelem, CCB, Daycoval, Estrela Mineira, Inter, Itaú, Mercantil, Pan, Paraná Banco, Safra, Santander, Sicredi e Votorantim.

O objetivo é criar um sistema de bloqueio de ligações à disposição dos consumidores que não queiram receber ofertas de crédito consignado, formar uma base de dados para monitorar reclamações sobre oferta inadequada do produto e estabelecer medidas transparentes de combate ao assédio comercial e de qualificação de correspondentes. “O conjunto de medidas irá aperfeiçoar a qualidade da oferta e da venda do empréstimo consignado, melhorar o relacionamento com nossos clientes e ainda evitar grande número de conflitos de consumo”, avalia Isaac Sidney, vice-presidente executivo da Febraban. A lista dos bancos participantes foi apresentada ao Banco Central, à Secretaria Nacional do Consumidor e ao Instituto Nacional do Seguro Nacional (INSS).
Os bancos poderão receber penalidades por conduta omissiva, caso não apliquem medidas previstas na Autorregulação por infrações cometidas pelos correspondentes. As multas variam de R$ 45 mil até R$ 1 milhão e levarão em conta a gravidade da infração e o porte da instituição financeira participante. Os valores arrecadados serão destinados a projetos de educação financeira. “Tornaremos mais rígido o controle sobre essa modalidade, com mecanismos mais ágeis e efetivos, promovendo transparência e a concorrência saudável”, afirma Sidney.

Internet, terra sem lei

Com a popularidade dos smartphones, os usos da internet se multiplicaram: é possível reencontrar amigos e colecionar novos, pesquisar sobre qualquer assunto de interesse, desenvolver passatempos e realizar serviços, antes só possíveis de forma presencial. Tudo muito fácil, a um clique. Os infortúnios também. A mesma facilidade que a vida virtual propicia encontra paralelo em problemas e golpes dos mais diversos. Como aconteceu com um barbeiro de 50 anos, morador da zona Norte de Porto Alegre, que pede para não se identificar. Casado, aceitou continuar uma conversa com uma mulher estrangeira em uma rede social. Ela tinha perfil e até amigos. Após os primeiros diálogos, ficou clara a intenção da moça de levar o bate-papo para uma conversa mais íntima. “Eu percebi que ela queria sexo e eu caí direitinho”, admite. Após enviar imagens íntimas, recebeu a informação de que teria o conteúdo publicado caso não a pagasse. “Bloqueei o perfil dela e até saí das redes por um tempo”, conta.

O caso do barbeiro não foi adiante, mas muitas situações que parecem positivas na internet não passam de golpes que tentam subtrair financeiramente o internauta. Ele foi vítima de um scammer (fraudador, em Inglês), perfil malicioso criado especificamente para este fim. Este tipo de perfil é diferente dos fakes comuns porque além de amigos, há stories e informações que conferem uma alegada legitimidade. No caso do porto-alegrense, foi um “scam romance”, também conhecido como catfish, quando a intenção do criminoso é fazer a outra pessoa se apaixonar por ele para depois tirar proveito. Este tipo de ameaça é chamada de “Golpe da Nigéria”, porque naquele país não há como rastrear crimes pela internet. 

Recentemente, voltou à tona um caso que intrigou os brasileiros em 2014. A pessoa recebe um e-mail, supostamente da funcionária de um banco, que pede que o internauta dê o consentimento para se declarar familiar mais próximo de um cliente falecido de um banco em Dubai, Emirados Árabes Unidos. Segundo a dita funcionária, tratava-se de um homem rico que depositou mais de 8 milhões de dólares antes de morrer devido a um ataque cardíaco. “Eu era responsável pela conta e tenho em minha posse todos os documentos necessários para vocês se apresentar como beneficiário mais próximo”, dizia Cecília, primeiro nome da remetente da mensagem. “Ela justifica no texto que esta seria a única forma do dinheiro ser sacado e pede que eu divida o fundo com ela por ter o mesmo sobrenome do falecido. Fiquei lisonjeado, mas não caí nessa”, ironizou o publicitário Cléber Rosa. Cecília solicita os números do celular, passaporte, nome e endereço completos. 

Ainda em 2014, a Embaixada do Brasil em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, se manifestou informando que um brasileiro havia sido enganado nesses moldes. A diferença foi a causa da morte do correntista do banco, que teria morrido em um acidente na Indonésia. “Recomendamos que se evite a transferência de dinheiro sem a verificação cautelosa quanto aos pormenores relativos a eventuais casos do gênero e alertamos que os golpes via internet estão tornando-se cada vez mais sofisticados, fazendo que hipóteses remotíssimas, como a existência de herança de parente desconhecido no exterior, pareçam verossímeis”, diz trecho de nota divulgada pela embaixada.

Diretor da Comissão Executiva de Prevenção a Fraudes da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Adriano Volpini diz que 70% das fraudes estão vinculadas à engenharia social, que consiste na manipulação psicológica do usuário para que ele forneça informações confidenciais. O cliente é induzido a informar os seus códigos e senhas para os estelionatários, o que gera as fraudes e golpes. “Conscientemente, as pessoas sabem o que podem ou não podem fazer. Mas esse discernimento não é tão comum no mundo digital como deveria”, adverte. “Seja pelo telefone, por e-mail, pelas mídias sociais ou por SMS, o fraudador solicita dados pessoais do cliente, como números de cartões e senhas, em troca de algo, ou ainda induz o usuário a ter medo de alguma situação”, completa Volpini.

Como exemplo, ele cita o oferecimento de prêmios inexistentes, ofertas tentadoras e atrativas que, na verdade, direcionam para sites falsos ou, ainda, o uso de avisos para que a pessoa recadastre urgentemente seus dados em uma instituição, sob o risco de ter contas encerradas, caso não o faça. “Seus dados pessoais jamais são solicitados ativamente pelas instituições financeiras”, lembra Volpini. “Na dúvida, sempre procure seu banco para obter esclarecimentos”, esclarece o diretor da Febraban. Recurso menos lembrado nos aparelhos celulares por sua capacidade inferior de compartilhamento de mídias, comparado ao WhatsApp e o Messenger, por exemplo, o SMS é muito utilizado para envio de mensagens de golpistas, que costumam acertar em cheio principalmente idosos e pessoas mais incautas. 

Este caso aconteceu há cerca de dois anos com a irmã da aposentada Sônia Rodrigues, 67 anos, que mora em Cachoeirinha. Ana Lúcia, já falecida, forneceu seus dados a um golpista por SMS. “Ela, que tinha 70 anos na época, acabou desenvolvendo uma síndrome do pânico e transtornos mentais, acreditando que os bandidos iriam persegui-la. Faleceu devido a complicações por diabetes, mas já não era mais a minha irmã ali, infelizmente”, lamenta Sônia.

A tecnologia apresenta um campo vasto para quaisquer tipos de golpes. Até mesmo um delegado especialista em crimes cibernéticos pode ser vítima. Foi o que aconteceu com o diretor do Disp, Emerson Wendt. “Um tipo de ocorrência que está se tornando comum é a utilização de dados do perfil do WhatsApp para fazer compras. Pegaram, inclusive minha foto para tentar legitimar a negociação. Outro colega delegado também passou pela mesma situação”, conta. Segundo Wendt, todo o cuidado é pouco, ainda mais em se tratando desta época do ano. “Períodos como o Natal têm maior incidência de casos. Datas como Páscoa e Dias dos Pais e das Mães também”, salienta o especialista. 

Atenção redobrada para se antecipar a tentativas ilícitas é a chave. “Antes de fazer qualquer compra pela internet, entre no site Reclame Aqui para conferir o histórico das empresas, se há muita insatisfação por parte de clientes que já utilizaram o serviço”, orienta. E-commerce do estilo classificados também carecem de cuidado prévio, diz Wendt. “O Mercado Livre, por exemplo, tem um sistema próprio para dar mais segurança em cada compra. Já a OLX não”, adverte. Outra dica do delegado é usar cartões de crédito virtuais, em lugar dos tradicionais físicos. “Este cartão tem a numeração alterada e prazo de validade. O virtual só pode ser usado uma vez por compra e, depois disso, ele se torna inválido automaticamente”, frisa. Para gerar o cartão, é preciso acessar o aplicativo do banco ou o internet banking.

Em evento recente na Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação/Regional RS (Assespro-RS), Emerson Wendt afirmou que o Brasil precisa evoluir muito na questão da cultura da segurança de informação. O diretor do Disp considerou que as pessoas preocupam-se somente quando acontece um problema. “Não há um processo preventivo. No aspecto pessoal, as pessoas têm senhas fracas, compartilham dados e não usam duplo fator de autenticação, o que as torna vulneráveis para eventual ataque cibernético. No mundo corporativo é a questão da ausência dos regramentos específicos e ter isso bem especificado: o que o empregado pode fazer, como utilizar o computador e acessar redes sociais, além de fechar as portas contra invasões”, disse. 

Em 2018, a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos recebeu e processou 133.732 denúncias anônimas envolvendo 49.302 páginas (URLs) distintas (das quais 3.081 foram removidas) escritas em nove idiomas e hospedadas em 7.358 domínios diferentes, através de 7.375 números IPs distintos, atribuídos a 69 países em seis continentes. As denúncias foram registradas pela população através dos três hotlines brasileiros que integram a Central, um projeto mantido pela associação SaferNet Brasil, em parceria com o Ministério Público Federal (MPF).