Rico e antipático

Rico e antipático

Adquirido pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, o Newcastle United agora também é o clube mais odiado da Inglaterra

O Newcastle United tem uma torcida fanática, a maior do nordeste da Inglaterra

Por
Chico Izidro

Dono de quatro títulos do Campeonato Inglês, o mais recente no distante 1927, e seis Copas da Inglaterra, e com a sexta maior torcida da Terra da Rainha, o Newcastle United agora também é o clube mais odiado no país. Tudo porque no dia 7 de outubro foi adquirido pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), em uma transação de 300 milhões de libras (algo em torno de R$ 2,2 bilhões). O PIF é administrado por Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, altamente criticado por violar os direitos humanos em seu país e por ser considerado o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018. O Newcastle United tem uma torcida fanática, a maior do nordeste da Inglaterra, que detestava o antigo proprietário, Mike Ashley, que foi dono desde 2007, com uma gestão que era alvo de muitas críticas dos torcedores, que sonhavam com um destino melhor, longe das constantes brigas contra o rebaixamento, e com um time que ganhasse títulos.

A fortuna de bin Salman é avaliada em cerca de 450 bilhões de dólares, o que faz dele a pessoa mais rica a ser dona de um clube de futebol no mundo. Mas apesar de ser o novo rico europeu, o Newcastle United já sofre boicote de outros clubes e protestos de seguidores de outras agremiações. No confronto realizado na semana passada em Londres, no Selhurst Park, diante do Crystal Palace, pela Premier League, os torcedores da equipe londrina ergueram uma faixa que trazia a imagem de um monarca saudita com a espada suja de sangue, ao lado de um mascote do Newcastle United, e Richard Masters, presidente-executivo da Premier League, sobre uma poça de sangue e diante de uma sacola de dinheiro. E ainda havia uma imagem mostrando uma prancheta com um teste para os proprietários da Premier League escolherem, onde se lia requisitos como “terrorismo”, “decapitação”, “abusos de direitos humanos”, “assassinato”, “censura” e “perseguição”. A torcida do Crystal Palace ainda soltou um comunicado, afirmando que a Premier League escolheu o dinheiro em vez da moral e que fez negócios com um dos regimes mais repressivos do mundo. “O acordo em um momento no qual a Premier League promove o futebol feminino e iniciativas inclusivas, como braçadeiras com as cores do arco-íris, mostra a hipocrisia total em jogo”, lamenta a carta. As torcidas de outros times que irão enfrentar o Newcastle United no campeonato prometem manter os protestos.

Chamou muito a atenção em 2 de outubro de 2018, quando Jamal Khashoggi, um jornalista crítico do regime saudita, foi assassinado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. Ele era colunista do The Washington Post e morador do Estado da Virgínia, nos Estados Unidos, e havia ido ao consulado pegar documentos para poder se casar. O herdeiro do trono saudita Mohamed Bin Salman, que considerava o jornalista uma ameaça ao governo, teria ordenado o crime. Assim, o novo dono do Newcastle United atrai a antipatia dos adversários, que já preparam medidas de retaliação. Começaram travando qualquer tipo de negociação envolvendo troca ou venda de jogadores. O novo rico também não está conseguindo contratar treinador. Logo que assumiu, a direção tratou de despedir o técnico inglês Steve Bruce, que estava no comando da equipe desde julho de 2019. O italiano Antonio Conte, que já comandou o Chelsea, não quis a vaga. Depois, tentaram Zinedine Zidane, ex-Real Madrid, mas o francês recusou. O norte-irlandês Brendan Rodgers também descartou deixar o Leicester para se mudar para Saint-James Park, pois está na lista do Manchester City e ficar no lugar de Pep Guardiola, que tem contrato com os Citizens até junho de 2023. Frank Lampard, Lucian Favre, ex-Borussia Dortmund, e Paulo Fonseca, ex-treinador da Roma, são outros nomes especulados.

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895