A saga da terceira estrela do Inter, parte 1: A decepção no Gauchão

A saga da terceira estrela do Inter, parte 1: A decepção no Gauchão

Correio do Povo relembra o 1979 que começou instável e terminou com um título invicto do Inter

Por
Carmelito Bifano

Empate contra o Esportivo, no Beira-Rio, na fase final do Gauchão decretou o título e a reconquista da hegemonia estadual pelo Grêmio


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Há 40 anos o Sport Club Internacional alcançava uma das maiores façanhas de sua história, ao conquistar, de forma invicta, o Campeonato Brasileiro de 1979. Era o terceiro título da competição que, na época, era chamada de Copa Brasil. Passado todo este tempo, o feito ainda não foi repetido por nenhum dos 156 clubes que disputaram a Série A do Brasileirão desde então.

Levantado ao entardecer de 23 de dezembro de 1979, o troféu consagrou a equipe comandada por Ênio Andrade na casamata e por Falcão dentro de campo. Um time que ainda tinha nomes como Benitez, Batista, Jair, Mauro Galvão e Mário Sérgio, entre outros, e que superou um início de muita desconfiança para chegar à glória depois de 23 de jogos, dos quais venceu 16 e empatou sete, anotando 40 gols e sofrendo apenas 13.

Aquela temporada, no entanto, havia começado de maneira conturbada para o Inter do presidente Marcelo Feijó. E para relembrar aquele ano, a reportagem foi até o arquivo do Correio do Povo e fez uma minuciosa pesquisa nos jornais para entender como uma equipe conseguiu superar outros 93 concorrentes para ficar com o título invicto.

Dois técnicos, um interino, resultados ruins e descrédito após o estadual

Era o último ano de uma década vitoriosa para os colorados. Campeão brasileiro em 1975 e 76, o clube também havia conquistado o – também ainda inatingível – octacampeonato gaúcho entre 1969 e 76, série essa que tinha sido quebrada em 1977. Com o jovem Cláudio Duarte estreando na casamata, o Inter reconquistou a hegemonia estadual em 78 e começou a temporada pressionado pela manutenção do título do Gauchão, um campeonato que tinha um valor bem diferente do atual, principalmente, pela rivalidade da dupla Gre-Nal.

“Perdemos o campeonato em 1979 e, naquela época, o Gauchão era o mais importante e, depois, era o Brasileiro. A Libertadores ficava de lado, pois o que viesse depois era lucro. Neste ano, perdemos o Gaúcho. A equipe não encaixou, não sei o que deu”, declarou o ex-meia Jair, o príncipe Jajá.

Aliás, o Gauchão era muito mais extenso do que hoje, sendo disputado de março a setembro. Antes disso, e com Cláudio Duarte confirmado para a temporada, o Inter passou um mês excursionando para amistosos. O primeiro deles, no Beira-Rio, foi contra a seleção “jovem” da Tchecoslováquia: vitória por 4 a 0. Em seguida, em fevereiro, o clube disputou um torneio em Mar del Plata, na Argentina, empatando com o River Plate e Racing e perdendo para a seleção principal da Tchecoslováquia e para o Boca Juniors.

Um percalço na preparação que foi sentido depois. “Acredito que o principal erro (do começo do ano) foi o campeonato na Argentina, quando não estávamos preparados para enfrentar equipes fortes. Não fomos mal, mas prejudicou muitos jogadores que não conseguiram se recuperar para um Campeonato Gaúcho tão desgastante, com jogos quartas e domingos. Além disso, tivemos muitas lesões e os mais experientes não estavam em campo para acalmar os mais novos”, afirmou Falcão após o título do Brasileirão.


Temporada começou com resultados ruins contra o Boca Juniors (foto) e Tchecoslováquia, no Torneio de Mar del Plata, na Argentina

“A conquista do Brasileiro é uma boa memória, pois nós colorados tivemos um primeiro semestre muito sofrido. Fomos muito mal no Campeonato Gaúcho. O Grêmio foi campeão. Depois com uma reestruturação, mas, com o mesmo elenco, começamos a vencer as partidas”, lembrou o então torcedor em 1979, Fernando Carvalho, que viria ser o presidente campeão do mundo com o Inter, anos mais tarde.

O torneio na Argentina terminou duas semanas antes da estreia colorada no estadual. E no Gauchão, que também tinha uma fórmula peculiar, o Inter não foi bem. O primeiro turno colorado terminou com 14 vitórias, quatro empates e uma derrota, por 2 a 1, no Beira-Rio, para São Paulo de Rio Grande, resultado que deixou o Grêmio como campeão da fase, classificado e com um ponto a mais para o octogonal final.

No segundo turno, nova derrota para a equipe da zona Sul, o que influenciou o pedido para deixar o comando técnico de Cláudio Duarte, e empate no clássico – o segundo no Gauchão –, já com Otacílio Gonçalves da Silva Jr como interino. O resultado deu ao Grêmio outro ponto extra e iniciaria o octogonal final. “Eu me retirei. Tive um probleminha pessoal que me fez sair. Foi em um domingo ao meio-dia e tínhamos um Gre-Nal às 15h30min. No domingo, concentrado para o jogo, chamei o presidente e o vice para dizer que estava fora”, revelou Claudião.

O paulista Zé Duarte assumiu a equipe e a situação não se alterou. Nova derrota para o São Paulo de Rio Grande comandado por Ernesto Guedes, a terceira, e o primeiro revés para o Grêmio na temporada. Para complicar, com o tropeço na estreia do treinador, justo no clássico, o Tricolor abriu cinco pontos e se transformou em virtual campeão na primeira metade do octogonal decisivo. No returno, aí o Inter desandou de vez. A má campanha, culminada derrota no Gre-Nal e o título encaminhado para o eterno rival. E

Em contato via rádio Guaíba, o presidente Marcelo Feijó reconheceu a derrota no certame e parabenizou o presidente do Grêmio, Hélio Dourado, pelo título. Acabou sendo o capítulo derradeiro daquele estadual. Na sequência, empate em 0 a 0 com o Juventude, no Beira-Rio, e o técnico Zé Duarte acabou demitido. 


Empate com o Juventude, no Beira-Rio, decretou a demissão do técnico Zé Duarte - Foto: Carlos Rodrigues / CP memória

“Quando deixei de ser treinador, voltei a ocupar o cargo de supervisor técnico e veio um treinador de São Paulo, o seu Zé Duarte. Ele fez um trabalho de organização muito positivo, mas o resultado do campo não aconteceu. Mas o resultado em termo de formação de estrutura e característica de jogo ficou (para o futuro)”, declarou Cláudio Duarte.

Teve início, então, a virada. Após o jogo que terminou com vaias da torcida do Inter, Feijó anunciou a troca no comando do futebol, com Frederico Arnaldo Ballvé, presidente em 59, 76 e 77, como vice, além da contratação do técnico Ênio Andrade e do preparador físico Gilberto Tim. “Ênio Andrade e Gilberto Tim (octa gaúcho e bicampeão nacional pelo Inter) foram anunciados para provocar uma reversão de expectativas”, descreveu o então colunista Lasier Martins, no Correio do Povo.

No dia 20 de setembro, a presença do presidente João Figueiredo no Gre-Nal “obrigou” os dois times a escalarem os titulares, ainda que já estivesse tudo decidido. Os 10 pontos de diferença entre Grêmio e Inter no estadual credenciaram o Tricolor a ser um dos candidatos ao título do Brasileirão. Ao Inter, o que se indicava era um papel de coadjuvante.

Tudo começaria a mudar dali a três dias.

Créditos:


Textos e pesquisa: Carmelito Bifano.
Edições: Márcio Gomes e Tiago Medina, do Correio do Povo, e Davis Rodrigues, da Rádio Guaíba.
Entrevistados: Cláudio Duarte e Valdomiro.
Locutores: Cristiano Silva e Gutiéri Sanchez.
Narração: Armindo Antônio Ranzolin.
Reportagem de campo: João Carlos Belmonte.
Pesquisa de jornais: Ramon Ferreira (Arquivo de Jornais CP memória).
Pesquisa de fotos: Paulo Bitencourt (Arquivo fotográfico CP memória)
Pesquisa de áudio: José Bitencourt (Discoteca e arquivo de áudios da Rádio Guaíba).