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Beira-Rio em sua inauguração

Especial 50 anos do Beira-Rio: O Inter alcança um novo patamar

Em série especial, Correio do Povo conta história do estádio colorado, que completa 50 anos em abril

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Era um domingo, 6 de abril de 1969. Naquela tarde, o Inter entraria em um novo patamar. Depois de 38 anos nos Eucaliptos, o clube inaugurava outra casa: o estádio José Pinheiro Borda, que entrou para a história e para o coração dos torcedores como o Gigante da Beira-Rio.

No jogo inaugural, o Colorado venceu o poderoso Benfica, de Portugal, por 2 a 1, para um público de mais de 100 mil torcedores. A nova casa instaurou uma outra etapa na vida colorada. A festa era tamanha que um dia só era pouco e, na noite seguinte, foi feita a inauguração dos refletores, em amistoso no qual a Seleção Brasileira venceu o Peru por 2 a 1.

O projeto Beira-Rio começou em 1956, quando o clube recebeu uma área doada através de um plano aprovado pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Três anos depois, o Inter iniciou as obras, fincando as primeiras estacas do estádio, construído em grande parte com a contribuição da torcida, que levou tijolos, cimento e ferro para a obra.

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Coube ao centroavante Claudiomiro marcar o primeiro gol na nova casa, aos 24 minutos do primeiro tempo. O craque Eusébio, o principal jogador do time português, empatou aos 23 da segunda etapa. Quatro minutos depois, Gilson Porto anotou o segundo gol do Inter, fechando o placar. “Ainda está em minha memória o primeiro gol do Inter”, lembra o ponta-direita Valdomiro, que iniciou a jogada. “Para nós foi muito importante enfrentar o Benfica e o Eusébio, um dos maiores jogadores do mundo à época”, garante Valdomiro, que até hoje é o quarto maior artilheiro da história do clube.

Para o ex-jogador, a inauguração do estádio foi o embrião do que seria um grande time nos anos seguintes. “Naquele ano quebramos a hegemonia do Grêmio, que havia vencido os últimos sete Gauchões, e começamos a preparar a equipe que seis anos depois seria campeã brasileira”, destaca ele, que ainda mantém guardadas a camisa, o calção e os meiões utilizados na partida inaugural. O ex-ponteiro direito conta que os jogadores estavam concentrados no Morro do Sabiá, em Ipanema, para a partida. “A gente veio de carreata de lá, escoltados pela polícia. Ficamos emocionados quando vimos aquele estádio gigante, todo cercado por torcedores”, emociona-se. “As pessoas gritavam. Ali vimos que o Inter começaria a ser grande”, diz.

“O Inter sempre foi grande”, corrige Dorinho, meia daquele time de 1969. “Mas com o Beira-Rio virou potência”, dispara ele, que aos 72 anos, trabalha como observador das categorias de base do clube. No primeiro ano do Beira-Rio, o ex-jogador estava com 22 anos. “A gente jogava no Eucaliptos, e o Inter não ganhava nada, só dava Grêmio. E todos os anos, o clube renovava o elenco, e a gente tinha de se superar para mostrar que podia seguir vestindo esta camisa. E o time de 1969 foi uma equipe apostando na meninada, apostando na base mesmo, sob o comando de Daltro Menezes. “Antes do Beira-Rio, a gente jogava o Robertão (Torneio Roberto Gomes Pedrosa) no Olímpico, e fomos vice duas vezes, em 1967 e 1968, já mostrando nosso potencial para o país”, diz. “Mas com a nova casa, o Inter deu um salto tremendo de qualidade”, garante.

Foto: Mauro Schaefer 

Dorinho recorda que os jogadores ficaram concentrados cerca de 40 dias para enfrentar o Benfica. “No meio dos mosquitos”, brinca. “E no dia do jogo foi aquela emoção e ansiedade. A torcida vibrando muito. Na noite anterior não dormimos, pois a torcida ficou na frente da concentração fazendo foguetório”, conta. “Depois, quando viemos de lá para o estádio, em carreata, parecia um sonho. E, ao chegar, dar de cara com o estádio lotado, mais de 100 mil pessoas e enfrentar o Benfica, um dos maiores times do mundo à época”, lembra. “E estava um dia lindo, de sol. Até o tempo ajudou. A torcida estava orgulhosa, pois finalmente tinha um estádio de proporções gigantescas. Durante o jogo, estive tranquilo. Não bateu nervosismo, estava fazendo o que gostava, e tinha certeza de que faríamos um grande jogo. Gostávamos de jogar futebol, a gente se divertia, pois via a participação numa partida como seguimento de minha infância”, explica: “E o Eusébio, um dos maiores do mundo, foi gentil conosco, trocamos ideias”.

O camisa 10 diz que aquele evento marcou a sua carreira. “A minha vida toda”, derrete-se, tanto que até hoje guarda a camisa usada diante do Benfica. “Naquela época não podia trocar a camisa. E para ficar com ela, tive de pagar, não é como hoje, que os jogadores ganham as camisas, personalizadas”, lamenta. “Várias emissoras de rádio e de TV me pediram a camisa, e eu disse que não me desfaria dela de jeito nenhum. Pô, já faz 50 anos daquele dia. Eu adoro o Inter, sou colorado, torço para o clube, me criei aqui dentro”, finaliza.

Passados 50 anos, aquela tarde de domingo ainda emociona Rubens José Scherer Marques, hoje com 62 anos. O bancário aposentado e, atualmente, trabalhando como perito da Justiça do Trabalho, estava com 12 anos à época, e como estudante do Colégio Militar conheceu o Beira-Rio integrando um grupo de seis alunos que entrou no gramado levando as bandeiras comemorativas para o hasteamento antes da banda dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro, que executou os Hinos Brasileiro, Gaúcho e Colorado. “Fomos escolhidos dentro de um grupo de crianças que mais iam aos jogos do Inter naqueles anos”, recorda Rubens. 

Foto: Guilherme Testa  

Foi buscado pela manhã em casa, e passou o dia no estádio, antes de adentrar o gramado - a partida inaugural se iniciou por volta das 16h. “Desde sempre fui às partidas do time”, orgulha-se ele, que praticamente não perde um compromisso do Inter, seja no Beira-Rio ou fora de casa. Rubens conta que quanto entrou no Beira-Rio nunca havia visto algo tão grandioso, ele que estava acostumado com o acanhado Eucaliptos. “Mas só fui entender a noção das coisas, o tamanho do significado de ter estado lá na inauguração anos depois, com o tempo”, garante o fã de Valdomiro. “Para mim, o maior da história colorada”, afirma.

Rubens relata que uma das maiores loucuras que fez pelo Inter foi deixar de fazer uma prova no Colégio Militar em 1975, quando estava com 18 anos. “Escapei para o Rio de Janeiro ver o Inter enfrentar o Fluminense no Maracanã na semifinal do Brasileirão”, diverte-se. O seu time ganhou por 2 a 0 e foi à final com o Cruzeiro, quando conquistou o primeiro título nacional, ao vencer por 1 a 0, gol de Figueroa. “Classifico este jogo com o Cruzeiro e depois, no ano seguinte, a decisão do Brasileiro com o Corinthians como as mais importantes da história do estádio”, aponta. “Além disso, assisti desde 1969 a todos os Gre-Nais disputados no Beira-Rio”, assegura o torcedor, dono de mais de 400 camisas da equipe. Ele tem exemplares usados por Valdomiro, Falcão e Mauro Galvão, entre outros ídolos vermelhos.

No jogo inaugural do Beira-Rio, o Inter, comandando pelo técnico Daltro Menezes, jogou com Gainete; Laurício, Scala, Pontes e Sadi; Tovar e Dorinho; Valdomiro (Urruzmendi), Bráulio (Sérgio), Claudiomiro e Gilson Porto. O Benfica, do técnico brasileiro Otto Glória, atuou com José Henrique; Adolfo Messias, Humberto Fernandes, Zeca e Cruz; Toni e José Augusto (Nenê); Praia (Victor Martins), Torres, Eusébio e Simões.


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