Futebol precisa ser reestruturado para diminuir casos de racismo, diz Observatório da Discriminação

Futebol precisa ser reestruturado para diminuir casos de racismo, diz Observatório da Discriminação

Edenilson acusou lateral do Corinthians de proferir ofensas racistas na partida contra o Inter

Lucas Eliel

Edenilson acusa jogador do Corinthians de ter sido racista. Lateral do time adversário nega atitude

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No último final de semana, o jogo entre Inter e Corinthians, que terminou em 2 a 2, foi marcado por um episódio onde o meia Edenilson acusou o lateral Rafael Ramos de proferir ofensas racistas. Após o final da partida, Ramos chegou a ser autuado por injúria racial e foi liberado com pagamento de fiança de R$ 10 mil. Segundo o diretor do Observatório da Discriminação Racial no Esporte, Marcelo Carvalho, o caso traz à tona a importância de se falar sobre racismo no esporte e a necessidade de uma reestruturação no futebol para que o problema ocorra cada vez menos. 

Conforme dados preliminares do Observatório, em 2021 foram registrados 53 casos de racismo e injúria racial no futebol brasileiro. De 2014 até o ano passado, o número chega a 330. No período, o Rio Grande do Sul é o estado com mais denúncias catalogadas, correspondendo a 29,4% do total. Em seguida, estão São Paulo (14,7%) e Minas Gerais (7,4%). 

Ainda conforme as estatísticas, dos 330 casos, apenas 49 chegaram a ser julgados pela Justiça Desportiva (TJD/STJD), e 30 deles geraram alguma sanção. A maioria das penas foi em forma de multa (entre R$ 400 e R$ 50 mil) e/ou suspensão. Apenas três episódios foram punidos com perda de mando de campo, e dois, com perda de pontos. 

De acordo com Carvalho, o cenário atual do esporte acaba possibilitando que atos racistas continuem acontecendo com tanta frequência. "Do jeito que está, o racista está vendo que não existe punição e ele está sendo estimulado a ir para o estádio e cometer ato de racismo", destaca. 

O panorama para denúncia de casos de discriminação racial em campo não é favorável, segundo o diretor. Isto porque existe um ambiente onde a vítima não tem como provar direito o que outra pessoa falou. "O futebol envolve paixão. Os torcedores do clube que está sendo acusado vão sempre contestar. E aí a gente vai buscar câmeras e é difícil fazer essa leitura labial. É difícil chegar numa conclusão", ressalta. A dificuldade faz com que os casos acabem sendo arquivados por falta de provas, enfatiza Carvalho. 

Possíveis medidas a serem adotadas e tolerância 

Para Carvalho, é preciso que um protocolo seja adotado para árbitros e jogadores sobre como os profissionais devem agir quando um caso de racismo é exposto dentro de campo. É necessário também que os clubes tenham uma equipe que procure elucidar para os esportistas o que é discriminação racial e como evitá-la. "O Edenilson faz todas as coisas corretas, ele vai até o árbitro. O árbitro escuta ele e coloca o caso em suma. O Edenilson registra o boletim de ocorrência. Esse caso deixou bem explicitado a necessidade de um protocolo para os jogadores saberem como agir quando isso acontece", avalia. 

Carvalho cita um protocolo da Fifa sobre casos envolvendo racismo. A regulamentação diz que o árbitro, ao notar atitudes discriminatórias ao longo do jogo, tem a permissão de parar ou até mesmo encerrar a partida. Para o diretor, no entanto, a medida ainda corresponde somente aos torcedores, o que não é suficiente. "A gente precisa estabelecer um comportamento para quando o ato ocorre dentro de campo", pontua. 

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Segundo expõe o integrante do Observatório, o futebol brasileiro apenas tolera jogadores e treinadores negros. Enquanto os profissionais estão trazendo bons resultados, as ofensas acontecem em menor escala. Mas quando o desempenho não sai como o esperado, aí os ataques acontecem com mais força. Além disso, embora o Brasil tenha vários jogadores negros, os espaços dos conselhos, confederações e administrações são mais restritos a homens brancos. "A partir do momento que o torcedor não enxerga no jogador aquele rendimento que ele espera, rapidamente ele vai desumanizar ou vai culpar esse jogador. A gente não vê esse comportamento quando é um jogador branco", enfatiza. 

Dificuldades dos jogadores em falar sobre racismo e silenciamento 

Um inquérito policial será aberto contra Rafael Ramos para investigar as acusações de supostas injúrias raciais cometidas contra Edenilson, autor da ação. Após o episódio, o jogador do Inter fez uma publicação nas redes sociais, falando sobre a dificuldade de ter tomado a atitude no momento em que se sentiu ofendido. "Não reagi provavelmente da forma que deveria, pois foi a primeira vez que isso aconteceu comigo e me incomoda o fato de ficar chamando atenção de outra forma que não seja jogando futebol", disse. 

Para Carvalho, a atitude do jogador em se sentir parcialmente culpado de abordar o racismo tem a ver com o estigma atribuído aos esportistas quando eles expõem terem passado por uma situação de racismo. "Quando um jogar faz denúncia, a torcida começa analisar comportamento fora do campo, começa a pensar que ele usou aquilo como uma forma de promoção pessoal, começa a questionar a veracidade do caso", salienta. 

O movimento de não procurar validar o que o jogador diz tem a ver com o objetivo de silenciar vozes negras e minimizar a importância de se procurar ter uma sociedade mais igualitária, diz Carvalho. Como outro exemplo, ele cita uma entrevista do treinador do Grêmio, Roger Machado, que ganhou grande repercussão. O treinador abordou a problemática no esporte e muitas pessoas disseram que ele não deveria falar sobre a questão, e sim, focar no trabalho em campo do Tricolor. "O futebol tem um silenciamento que não está escrito em lugar nenhum, mas toda vez que alguém levanta a voz para falar sobre racismo, surge uma parcela grande da sociedade que diz que ele não deve falar sobre isso e deve focar no futebol", explicita. 

Caminho para menos racismo no futebol 

Carvalho ressalta que, embora o quadro seja difícil, os jogadores estão cada vez sentindo mais coragem de denunciar quando sentem que sofreram algum caso de racismo em campo. O apoio dos colegas ou adversários ao longo da partida também tem sido maior. "Os jogadores do Corinthians, quando se aproximam do Edenilson, não é com violência. Eles se aproximam para tentar entender o que está acontecendo. E todos eles, quando escutam o Edenilson, ficam em espanto. Ninguém dentro de campo contestou", lembra. 

A CBF pretende promover no próximo mês um seminário de combate ao racismo. O evento terá a presença de instituições com a Fifa, Conmebol, além de dirigentes de federações e o Ministério Público. O presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, já sinalizou a necessidade de trazer um endurecimento maior para casos de racismo no futebol. "A gente pode ter uma esperança de ter um ambiente melhor se ações contra o racismo realmente se concretizarem. Acho que isso vai nos levar a um trabalho de conscientização maior", reflete.


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