Inteligência artificial domina futuro dos negócios na Era dos Algoritmos

Inteligência artificial domina futuro dos negócios na Era dos Algoritmos

Ciência de dados oferece vantagem competitiva para empresas em um mercado cada vez mais tecnológico

Correio do Povo

Algoritmos interpretam a todo momento o comportamento das pessoas na internet

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Achou estranho? Provavelmente você já se deparou com esta situação em páginas na internet ou aplicativos. Se este assunto não lhe soa familiar, tente perguntar à Alexa, o robô inteligente da Amazon, e você terá todas as respostas sobre a origem do Universo em uma fração de segundo. E caso você não tenha muita afinidade com a empresa do bilionário americano Jeff Bezos, então está a um Google de distância da solução dos seus problemas. Mas tome cuidado: você pode estar sendo hackeado. Informações pessoais e padrões de comportamento serão coletados e armazenados pelas gigantes do mundo tech e utilizadas como matéria-prima para monetizar novos produtos, cada vez mais alinhados com o perfil do usuário.

Sincronize endereço de e-mail, contas no Facebook e no Instagram com seus apps favoritos, como Spotify, Netflix, Youtube, TikTok, Snapchat, e veja a mágica acontecer. Digite apenas uma vez aquele seu desejo momentâneo, em qualquer plataforma, para este produto encontrar o caminho até você. Sozinho. Por exemplo, imagine que você queira adquirir uma lareira ecológica para aquecer o ambiente neste inverno. Pesquisar no Google talvez seja seu primeiro instinto, certo? Pronto. Mesmo que não encontre o que quer, as ofertas no navegador e propagandas no feed não devem parar tão cedo. Às vezes, parece que não precisamos nem digitar, basta falar em voz alta para que os dispositivos nos escutem, mesmo que você não tenha uma Alexa, Google Home ou Siri em casa.

Nada disso é magia. Todo este universo, conhecido como Big Data, está diretamente relacionado à ciência de dados, e não ao sobrenatural. Os responsáveis são chamados de algoritmos, códigos que trabalham a todo vapor para interpretar o comportamento das pessoas na internet e, assim, ajudar empresas a otimizar estratégias digitais, tirando o máximo proveito de um sistema cada vez mais analítico. Há quem diga que não existe alternativa mais lucrativa nos dias atuais em marketing digital. Entender, saber explorar e utilizar algoritmos é obrigação para atender a demanda do presente e do futuro empresarial.

Da mesma forma que o tema assusta muita gente, o que pode estar relacionado a desinteresse, desconhecimento e falta de acesso à informação, serve de inspiração e propósito de vida para outras pessoas. O gaúcho Ricardo Cappra, renomado cientista de dados, é uma delas. “Ainda estamos passando por um momento de despertar da sociedade. Deixamos um enorme rastro de informação na internet, um histórico completo, e estamos cada vez mais interessados em analisar essas informações como sociedade. Se o presente é digital, o futuro é inevitavelmente analítico”, aposta o cientista-chefe do Cappra Institute for Data Science, com sede em Porto Alegre.

Ricardo Cappra defende que empresários quebrem paradigmas históricos em negócios como o feeling. Segundo ele, é preciso ouvir menos os instintos e confiar mais nos dados. “O mercado gaúcho ainda é muito conservador, muito tradicional, quando o assunto é tecnologia. Nossas empresas precisam ser mais analíticas, tomar decisões amparadas em dados, em informações concretas. Os dados devem ser parceiros do feeling e não concorrentes”, explica. Aos 40 anos, Cappra possui um portfólio de respeito em sua área de atuação. Através de seus laboratórios, trabalhou nas campanhas de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos em 2008 e 2012, desenvolveu projetos para a Casa Branca, Fundação Melinda & Gates Google, Unicef e ONU. Ele utilizou a ciência de dados para entender a disseminação do zika vírus, no Brasil, e prever focos de contágio do ebola, na África, possibilitando um processo de vacinação mais eficaz em locais prioritários.

Mesmo com experiências anteriores no estudo de doenças, a pandemia provocada pelo Covid-19 surpreendeu, mas Cappra criou métodos que permitem a simulação do impacto do vírus nas cidades, permitindo uma gestão com base em dados. “Logo que a pandemia estourou, desenvolvemos um estudo onde definimos o vírus com uma característica de propagação social muito grande. Isso determinou uma linha sobre como o coronavírus se apresentava ao mundo. Publicamos alguns artigos nos quais erramos pouco, mas aprendemos muito”, destaca. Apesar de ainda não conseguir antecipar uma tendência do coronavírus, Cappra ressalta que esta é a primeira pandemia mundial sendo acompanhada em tempo real por dados. Poderia ter sido pior no passado, avalia ele, se não houvesse a estrutura que há hoje. Poderá ser melhor - menos grave - se a história se repetir, a partir dos dados adquiridos em 2020.

Sociedade precisa entender para se proteger

Ricardo Cappra acredita que a ciência de dados deveria fazer parte do currículo escolar, assim como dizem a respeito da educação financeira. São matérias que fazem falta na vida adulta das pessoas e que não estão disponíveis desde cedo, a não ser que haja interesse próprio. A ideia de que a cultura analítica pode servir aos mal intencionados é real, mas também pode favorecer centenas de milhares de pessoas se houver um entendimento a respeito do lado positivo que o algoritmo pode proporcionar. “Assim como qualquer tecnologia, o problema é a sua utilização e quem está por trás dela. Podemos usar dados para salvar vidas ou para manipular pessoas durante uma eleição. Ou seja, pode servir para o bem e para o mal. Temos de ensinar as pessoas a entenderem o que é fake news, a lerem os termos e condições dos aplicativos. A sociedade precisa ser educada para não sofrer com isso”, afirma.

O cientista acrescenta que isto passaria, necessariamente, por uma mudança profunda na legislação. De acordo com ele, há avanços consideráveis a serem buscados, como por exemplo a responsabilização de quem usa a rede para fins antiéticos e imorais. “A sociedade tem todo o direito de saber analisar dados. Esse poder não deveria estar na mão de poucos. Precisamos ser mais atentos e entender esse processo de mudança para o futuro. Ao mesmo tempo que é assustador para muita gente, para mim é libertador”, acrescenta.

Cappra projeta o futuro dos dados como um legado histórico para a humanidade. Ainda há muito a ser explorado, diz ele, e as possibilidades são infinitas. “Se alguém me pedisse para ser um doador universal de dados eu toparia na hora. Primeiro porque conheço, sou especialista no tema. Segundo porque penso no benefício que nossos dados pessoais podem trazer para a sociedade. Na saúde, por exemplo, quantas vidas podem ser salvas no futuro com informações presentes no meu, no seu DNA?”, questiona.