O futuro da produção no pós-pandemia

O futuro da produção no pós-pandemia

Instituições financeiras apontam disponibilidade de recursos e cenário é de otimismo

Correio do Povo

Nedimar Frattini, consultor da Frattini Consultores Associados

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Um dos temas que mais esteve presente, senão o único, nos debates sociais dos últimos meses foi a incerteza de como será a vida após crise do Covid-19. Não bastasse o desconhecimento em relação à doença e como combatê-la, ninguém consegue prever os efeitos na vida das pessoas e no ambiente econômico. Estimativas recentes apontam que pelo menos US$ 7 trilhões tenham sido injetados nas economias mundiais, seja por políticas monetárias dos bancos centrais, ou decisões governamentais de pacotes de estímulos econômicos. Mas, assim como instituições financeiras gaúchas ou com sede no Rio Grande do Sul apontam disponibilidade de recursos para o caixa de empresas, há um cenário concreto de que o otimismo com o futuro não é sonho.

Conforme o consultor Nedimar Frattini, da Frattini Consultores Associados com sede em Novo Hamburgo, os indicadores macro econômicos com uma taxa Selic de 2,25% ao ano e a cotação do câmbio levaram pessoas físicas a investir no mercado acionário. No encerramento do primeiro semestre de 2020, de acordo com dados da B3, o número de investidores pessoa física já passava de 2,6 milhões, quatro vezes mais que a quantidade existente ao final de 2017. Dessa forma, a Bolsa se tornou um terreno fértil para as empresas buscarem recursos, ao contrário dos bancos. A Comissão de Valores Monetários (CVM) tem atualmente mais de 20 pedidos de abertura de capital, e a retomada das ofertas públicas de ações (IPO) deverá movimentar mais de R$ 20 bilhões no mercado ao longo do segundo semestre. “Em entrevista recente, Christian Egan, diretor executivo de mercados globais do Itaú BBA, afirmou ter cerca de 40 operações que poderão ser precificadas no mercado entre setembro e outubro deste ano, podendo atingir R$ 60 bilhões, considerando tanto IPOs, como emissões de ações de empresas já listadas (follow-on)”, comenta Frattini.

Na estimativa do consultor, fundos de investimentos e de previdência tendem a buscar uma maior diversificação de seus ativos. Essa quantidade de capital buscando novos negócios deve representar uma fonte valiosa de recursos para empresas que estiverem bem posicionadas para atraí-los, em especial quando falamos de fundos estrangeiros. “A desvalorização do câmbio tornou o preço das empresas brasileiras ainda mais barato”, diz. Para ele, empresas de setores bastante afetados pela crise, como o setor varejista, de hotelaria e food services, sejam alvos de investimento e um aporte de capital de um fundo de capital privado. Isso pode ser o impulso que faltava para que o retorno ocorra de forma mais sustentável, sem um possível estrangulamento financeiro que uma grande dívida bancária pode provocar.

Um estudo recente da consultoria PwC revela que os fundos globais de capital privado possuem US$ 1,7 trilhões em liquidez para investimentos. “A soma de dinheiro disponível para investimentos é tanta, que uma das preocupações entre os gestores é de que haja cautela e que se garanta que os recursos não sejam destinados para projetos que não cumpram todos os critérios de um bom investimento”, comenta Frattini. E essa cautela tem motivos. Dados da Mergermarket revelam que os valores negociados no mercado de M&A na América Latina tiveram queda brusca na primeira metade de 2020. Foram US$ 8,2 bilhões em operações frente a US$ 35,4 bilhões no mesmo período do ano passado. “A quantidade de dinheiro disponível e a demanda represada aponta para um setor aquecido daqui para frente. Temos um cenário nunca visto na economia brasileira”, comenta Frattini.

Mas o aprendizado que fica é uma mudança na base para evitar efeitos para o futuro. O secretário estadual Luís Lamb, de Inovação, Ciência e Tecnologia afirma que a pandemia trouxe a inovação para o centro das atenções, transformando a realidade das grandes companhias que, mesmo durante a crise, se capitalizaram, e da geração de conhecimento de forma coletiva. “Economias são impactadas pelo conhecimento. Estamos em uma vitrine social, e quem trabalha gerando conhecimento coletivo tem grande valor. Questões humanas tem grande valor”, diz. Ele lembra que o comportamento da sociedade sofrerá uma grande mudança. Um dos ensinamentos é que o processo produtivo brasileiro não deve depender tanto da importação de itens necessários para a operação produtiva. E destaca que os jovens devem estudar mais tecnologia para manter a evolução do país, com mudança no sistema educacional para valorizar a escolha pela carreira científica. “A saída da pandemia será baseada no conhecimento. "Temos de educar os jovens para o raciocínio e reflexão”, comenta.

O caminho do ensino qualificado desde a base também é uma alternativa essencial apontada pelo empresário Ricardo Felizzola, CEO do grupo Parit. Para ele, o país precisa solucionar todos os problemas da educação básica que ficaram evidenciados com a pandemia. “A conexão da inovação com o desenvolvimento e a educação básica é total. Aplicar grandes volumes de recursos no superior e não no ensino básico é um erro”, comenta Felizzola, acrescentando que o Brasil tem muita riqueza e soluções que podem e devem contribuir para o desenvolvimento do país. Ele cita empresas que se valorizaram na crise, como o Zoom. Criado em 2011, em São Francisco (EUA), o sistema muito utilizado para conectar pessoas no período de distanciamento social viu seu valor aumentar em 219,4% alcançando US$ 60 bilhões, seu lucro crescer acima dos 1000% e a receita se elevar em 169% - o número de usuários passou de 10 milhões para 300 milhões. O empresário lembra também de iniciativas muito próximas que por vezes são pouco valorizadas. A Junior Achievement, presente há mais de 25 anos no Rio Grande do Sul tem organizado diferentes programas educacionais para alunos de Ensino Fundamental e Médio. O JARS Em Casa, por exemplo, já teve a participação de 1.200 jovens debatendo temas como empreendedorismo, educação financeira e preparação para o mercado e trabalho, em encontros de curta duração semanais em horário extraclasse.