Brasil vive "vácuo" de profissionais capacitados para lidar com 5G e novas tecnologias

Brasil vive "vácuo" de profissionais capacitados para lidar com 5G e novas tecnologias

Pesquisa divulgada pelo IEEE indica que setor será um dos mais importantes em 2022, mas terá dificuldade para preencher vagas

Vítor Figueiró

Tecnologia deve transformar mercado de comunicação e informação

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Em um Brasil afetado por severo desemprego, uma área profissional vive realidade completamente diferente das demais no mercado de trabalho. Trata-se do setor de Tecnologia da Informação (TI), onde o país vive um "vácuo" de pessoas capacitadas para lidar com as novas tecnologias, como 5G e Machine Learning. Conforme estudo do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), o setor será um dos mais importantes em 2022, entretanto, sofrerá com ausência de quadros capacitados e a concorrência com o exterior. O levantamento envolveu 350 diretores de tecnologia, diretores de informação e diretores de TI. Todos líderes de empresas globais de tecnologia dos Estados Unidos, Reino Unido, China, Índia e Brasil.

"A pesquisa deixa claro que existe um vácuo no que o mercado espera e nos profissionais que estamos formando. Penso que existem dois lados para explicar esse problema. A tecnologia, de fato, avança muito rápido. Estamos no 5G, mas já pesquisando sobre o 6G. O outro ponto são as universidades. Os conteúdos avançam em uma velocidade menor. É preciso conseguir acompanhar de forma adequada para o profissional chegar apto a lidar já com essa mudanças", explica o membro do IEEE, Jéferson Nobre, que também é professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). 

De acordo com os especialistas procurados pelo estudo, 21% apontaram a IA e Machine Learning como os principais destaques tecnológicos para 2022. Outros 20% citaram computação na nuvem e 17% a banda 5G. Nobre explica que nesses levantamentos são questionados em escala global diretores de TI, CEO's e pessoas em posições chaves dentro de diversas organizações. "Nessa pesquisa eles identificam tecnologias que são importantes. Como IA, aprendizagem. O reflexo já é sentido no próximo ano no mercado de trabalho", disse. 

A "velocidade" com que os profissionais são necessários é que indica possíveis problemas para o futuro. "Existe uma carência de profissionais de tecnologia muito grande. Algumas áreas tem mais que as outras. E nos últimos anos isso não se alterou. Depois da metade de 2001, com avanços econômicos, a carência de profissionais começou a ficar cada vez mais evidente. Aconteceram muitas coisas, mas mesmo assim não se consegue vencer. No Brasil e no Mundo", reitera o membro do IEEE. 

Empresas nacionais e internacionais competindo juntas

Nobre chama atenção para outro desafio, que se apresentou com a pandemia da Covid-19 e, principalmente, para o mercado brasileiro: "o home office". Segundo ele, empresas no exterior captam profissionais qualificados do Brasil com "atrativos valores" em outra moeda, mais valorizada que o real. A dificuldade, aliás, deve se ampliar. "As nacionais competem com as internacionais agora. Em função do home office e da desvalorização da moeda. Isso deve intensificar os problemas e a captação dos brasileiros. Empresas têm focado nisso. Alguns movimentos estão sendo realizados. O momento é díficil. Além da contratação, existe o turnover, quando o profissional é contratado, mas rapidamente, ele deixa o mercado e vai para o exterior", analisa. 

Considerando esse problema, o membro do IEEE defende que as empresas consigam se tornar atrativas e "conquistar o funcionário". "É uma situação completamente inversa no setor da T.I. Estamos falando de um Brasil com alta taxa de desemprego, mas na tecnologia da informação é diferente. Com a capacitação em TI, é uma outra realidade. As empresas precisam se tornar atrativas. As empresas estão oferecendo e o profissional está podendo escolher onde trabalhar. Até aqui, o home office também está acontecendo mesmo com a pandemia mais controlada. As empresas brasileiras estão se abrindo a essa realidade, até pela concorrência", pontua. 

As áreas da T.I mais destacadas e que viverão um 2022 de muitas oportunidades profissionais estão no setor financeiro e do entretenimento. “O setor financeiro é muito importante. É um setor que normalmente colocamos. É estratégico. No entretenimento, a indústria dos games tem investimentos muito altos. São áreas bem importantes e com diversos recursos. No setor financeiro, se olharmos no aspecto nacional, observando o que chegou nos últimos anos, open banking e pix, são todos calçados em tecnologia da informação". 

Chegada do 5G altera cenário brasileiro

Especialista em informática, Jéferson Nobre garante que a chegada do 5G no Brasil irá provocar mudanças estruturais na forma como o mercado se constitui, especialmente, nas mudanças para curto e médio prazo. "O 5G tem um papel muito significativo no panorama de aplicativos que podem ser adquiridos em dispositivos móveis. Os profissionais precisarão estar preparados para lidar com as questões. Quando falo isso, é no sentido de aproveitar as oportunidades que a nova tecnologia compõe". 

A segurança dos dados também precisará ser reforçada e vai necessitar de atenção, entende Nobre. A avaliação é que profissionais capacitados serão exigidos amplamente em vários contextos. "Por exemplo, no mercado de aplicativos móveis, com conexão mais alta, novos serviços serão possíveis. Aí, precisaremos de profissionais capazes de lidar com isso. Por exemplo, na telemedicina, será preciso confiabilidade muito alta. Agora, o profissional vai precisar lidar com maior conectividade e possíveis ataques mais críticos. Em ambientes sensíveis", acrescenta. 

Questão recorrente quando o tema é tecnologia e Inteligência Artificial (IA), a perspectiva não indica trabalhos e tarefas sendo substituídos "pelas máquinas". Ao menos, é o que as projeções mostram, garante Nobre. "Pelo menos em curto a médio prazo, não serão substituídos. Não são atividades repetitivas e que ainda demandam a necessidade humana. No entanto, é uma questão complexa. Com redes melhores e com mais inteligência artificial, talvez algumas introduções acadêmicas sejam feitas dessa forma. A automatização pode acabar acontecendo e ser incentivada pela falta de profissionais. Sempre que esse argumento surgir, tu vai querer te apoiar nas suas próprias tecnologias". 

Achar a solução é o principal desafio

Encontrar os passos para uma solução a este vácuo entre os profissionais e as tecnologias no Brasil não é e nem será uma tarefa fácil. "É a pergunta de um milhão de dólares", brinca Nobre. O membro do IEEE explica que, entre algumas alternativas, outros países têm se aliado às universidades para construir políticas que possam atrair os jovens para essas áreas.

"Vejo que essa necessidade se impõe. Vários países criaram políticas para atrair estudantes. EUA buscou atrair esses profissionais. Em alguns lugares, eles procuraram grupos minoritários, também pensando em inclusão. Entendo que precisa uma promoção para a educação nessas áreas", reitera. "Outro ponto é demonstrar o que de fato são elas. Campanhas, buscas ativas, feiras de ciência, maior interação entre as universidades. Muitos dos alunos ficam assustados com o ensino de ciência. Tem que se fazer um esforço de larga escala. Esforço do Estado. Nosso futuro depende disso. Ter profissionais que controlem essa área. Precisamos ter uma força que busque essa área. Envolve todos os players da sociedade", pondera Nobre. 

Por fim, o especialista reforça a importância de um país com o conhecimento em tecnologia valorizado. "Aliado a tudo isso que conversamos, soma-se ao fato de que se não tivermos os profissionais, não conseguiremos desenvolver a tecnologia e ficaremos dependentes de fora. Para mim, o principal ponto seria campanhas para atrair jovens e pessoas capacitadas para essa área", pontua.

Onde se qualificar

Além das universidades e as instituições de ensino fazerem esse papel com cursos de graduação, Nobre destaca também o papel das escolas técnicas nesse processo de qualificação profissional. "Temos diversas opções. Esses são os espaços mais específicos de formação desses quadros", avalia. 

Escolas técnicas no RS:

Instituto Federal do Rio Grande do Sul - Site

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - Sul-rio-grandense - Site

Senac Tech- Site

Senai-RS- Site


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