Professor adverte para a necessidade do debate da ética em um futuro digital

Professor adverte para a necessidade do debate da ética em um futuro digital

Professor da Ufrgs e membro do IEEE, Edson Prestes ajudou a elaborar documento da ONU com propostas em um mundo de interdependência digital

Por
Tiago Medina

Edson Prestes foi o único brasileiro a integrar painel da ONU sobre futuro digital


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A velocidade do avanço tecnológico está mais rápida que a discussão dos impactos da transformação digital na vida da sociedade. Enquanto novas máquinas caminham rumo à inteligência artificial, que será potencializada com a implementação e difusão do 5G, discussões sobre a ética e a legislação para lidar com esses mecanismos e a situações causadas por eles tornam-se mais urgentes. Essa é a opinião do professor da Ufrgs Edson Prestes.

Membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), uma organização norte-americana dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, Prestes advertiu sobre a necessidade do debate do tema, em palestras durante a última edição da Futurecom, em São Paulo, no fim de outubro. Para ele, análises sobre impactos e responsabilidades da relação homem e robôs precisam ser aprofundados. “É uma área muito recente. As pessoas começaram a acordar para isso uns quatro anos atrás”, disse.

Ainda que ética seja uma área “humana”, Prestes ressaltou que é preciso interligá-la aos avanços da parte técnica, de máquinas e robôs. “Discutir ética é discutir implicações. Implicações sociais do uso da tecnologia. Toda vez que tu tiveres uma tecnologia entrando em contato, interagindo com o usuário, tu vais precisar discutir qual o impacto desta tecnologia na vida das pessoas”, justificou.

Para ele, é necessário atribuir responsabilidades às ações de máquinas, que estarão cada vez mais autônomas com os novos recursos que estão a se propagar. “Hoje temos a possibilidade de termos carros e ônibus autônomos nas vias públicas. Armas letais autônomas já são uma realidade, sistema de IoT (sigla para “internet of things”, internet das coisas, em tradução livre) estão espalhados pelos lares das pessoas”, citou ele, para ressaltar a necessidade definir diretrizes na área: “Se não tivermos definidas regras claras, o que vai acontecer é que vamos continuar em uma terra sem lei”, afirmou. “Empresas, em particular, estão em uma zona livre dos direitos humanos.”


Interação de máquinas e humanos deve aumentar nos próximos anos | Foto: Tiago Medina / Especial CP

Discussão em nível mundial

Dentro deste trabalho, Prestes integrou neste ano o painel de alto nível do secretário geral das Nações Unidas em cooperação digital, criado a pedido do próprio secretário geral, António Guterrez. O professor da Ufrgs foi o único brasileiro a integrar o colegiado, que foi presidido pelo empresário chinês Jack Ma, co-fundador da Alibaba, e pela cientista da computação e filantropa Melinda Gates.

O grupo, do qual fazem parte outras 18 pessoas, elaborou um relatório, intitulado “Era da Interpendência Digital”. O documento tem propostas para que a tecnologia auxilie em ações de inclusão e desenvolvimento, com cinco recomendações principais: construir uma economia e sociedade digitais; desenvolver a capacidade humana e institucional; proteger os direitos humanos; promover a confiança, segurança e estabilidade digitais; e promover a cooperação digital global. Para chegar lá, um dos caminhos é garantir que todas as pessoas tenham acesso à internet de alta qualidade e de baixo custo, conforme Prestes.

“Conseguimos identificar algumas linhas gerais e discutir sociedade digital, empoderamento e capacitação humana”, descreveu. “Capacitação dos governos também, e esse é um ponto muito importante. Os governos não conhecem a área da tecnologia e eles precisam ter uma capacitação, então nós propomos alguns modelos e vieses relacionados a direitos humanos, modelos de governança”, acrescentou. “Desta arquitetura, também falamos sobre segurança cibernética e estabilidades no domínio digital”, explicou.

ONU deverá lançar comitê sobre futuro digital em 2020

A aplicação das recomendações é uma forma de conter riscos futuros, como os que incorrem da concentração de dados por um mesmo organismo – seja ele empresa ou governo. “Os dados podem ser utilizados para discriminar, segregar, para, por exemplo, rastrear ou supermonitorar minorias”, disse ele, definindo o cenário como “uma ditadura digital”.


Apresentado em setembro, em Bruxelas, o documento já tem diretrizes que foram acolhidas em outras frentes dentro da própria ONU e também recebeu apoio de alguns governos – o Brasil ainda não se manifestou, segundo Prestes. Na próxima Assembleia Geral, a ONU deverá lançar um comitê global de digital em cooperação digital baseado no conteúdo do relatório do painel. “Esperamos que o Brasil assine”, torce Prestes.